Beneficiados por concessões do governo, setores melhoram desempenho; ainda assim, negociam vantagens para fazer frente à concorrência de produtos importados no Brasil

Bárbara Ladeia - iG São Paulo 

A entrada de produtos importados no Brasil anda fazendo a alegria de muitos consumidores – e desperta a preocupação da indústria nacional. Com preços competitivos, beneficiados pelo dólarmais baixo e pela baixa produtividade das fábricas nacionais, os importados têm deixado a vida dos industriais um tanto mais complicada.
Aguns setores já podem comemorar uma tímida vitória. Segundo o levantamento de Coeficientes de Abertura Comercial, publicado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), alguns poucos setores assistem a uma estabilidade, ou tímida queda no porcentual de importados no consumo doméstico e intermediário.
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A demanda de aço para as obras de infraestrutura não cresceu como esperado
Não por acaso, esses setores são os mesmos que encampam uma cruzada, em busca de benefícios, desonerações e ferramentas para melhoria da competitividade. Seja com um discurso combativo ou com frentes de ação e negociação formais em Brasília.
Um dos setores que faz questão de expor suas fragilidades é o têxtil, constantemente atropelado pela enorme capacidade de produção das indústrias chinesas. 
O diretor superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel, afirma ver uma economia “pró-importação” dentro do País, mesmo depois da desoneração da folha de pagamento do setor assinada pela presidente Dilma Rousseff em maio deste ano.
“A desoneração foi muito importante. Houve ganho, com melhoria de produtividade. Mas não o suficiente para enfrentar a conjuntura econômica de concorrência predatória que o país está vivendo com a desindustrialização”, afirmou no começo deste ano, na ocasião da aprovação da Medida Provisória da desoneração das folhas de pagamento.  
Pimentel nem cogita a hipótese de reduzir os custos de produção. “Nós não queremos fabricar nossos produtos nas condições em que eles são fabricados lá [na China]”, afirma. No momento, o setor aguarda avaliação do novo Regime Tributário Competitivo para Confecção (RTCC). A associação quer reduzir a carga tributária de 18% para algo entre 5% e 10%. O projeto foi encaminhado à Fazenda e ao Desenvolvimento em julho, mas ainda não foi aprovado.
Segundo a CNI, o coeficiente de importações dos têxteis passou de 20,8% no primeiro trimestre para 20,4% no terceiro. Ainda não é suficiente. “O Brasil ainda não se recuperou totalmente da crise de 2009. Essa aparente calmaria não existe”, afirma Pimentel.
Para o economista Júlio Cesar Gomes de Almeida, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, quanto maior a pressão do setor em Brasília, maiores as chances de conseguirem algum benefício do governo federal para enfrentar a guerra contra os importados. “Indústria organizada pode ter estímulo do governo para competir com importados”, afirma.
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Luiz Moan, presidente da Anfavea: "O que nós precisamos e gostaríamos é que essa alíquota fosse mantida da forma como está hoje."
A briga do IPI
Hoje, a maior batalha do setor automotivo é contra a volta da cobrança do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). O ministro da Fazenda, Guido Mantega,  anunciou que haverá um pequeno aumento no ano que vem, o que está deixando o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Moan, de cabelo em pé.
"O que nós precisamos e gostaríamos é que essa alíquota fosse mantida da forma como está. Hoje o setor automotivo tem a maior carga tributária do mundo", diz o executivo, que já adianta uma piora do cenário. "O aumento do IPI vai gerar um crescimento menor das nossas vendas em 2014." Neste ano, até outubro, segundo a Anfavea, a produção de veículos aumentou 12,4%. O mesmo resultado não vem no número de vendas: foram licenciados 0,7% veículos a menos que no mesmo período do ano passado.
Mesmo assim, o setor automotivo já garantiu o anúncio de R$ 75 bilhões em investimentos no País neste ano, segundo o presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Moan. A última novidade veio da Honda, que anunciou aporte de R$ 1 bilhão em uma nova fábrica em Itirapina (SP) na última terça-feira (26).  
Competitividade (com suporte do governo)
Masahiro Takedagawa, presidente da Honda South America comentou, durante o lançamento da pedra fundamental da unidade de Itirapina, que o programa Inovar-Auto foi um importante estímulo para a instalação da nova fábrica. "Realmente nos deu um grande empurrão nesse sentido", afirmou.
Agora é  vez do setor de máquinas e equipamentos se movimentar no mesmo sentido. Apadrinhada por Moan, a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) já foi apresentar o Inovar-Máquinas, que ainda está em discussão em Brasília. 
Almeida pontua que iniciativas como essa acabam sendo mais eficientes uma vez que geram ganho de competitividade para a indústria desonerando iniciativas que promovem a inovação. “O que precisamos é de um ganho de competitividade horizontal, em todos os setores. Mas mercados como o de máquinas e equipamentos acabam sendo centrais e geram ganhos em toda a cadeia.”
Apesar da choradeira geral da indústria gerar bons frutos, Almeida não nega, no entanto, que o mercado continua mais favorável à entrada dos importados. “No conjunto, a pressão dos produtos de fora continua muito forte sobre o nosso mercado”, ressalta.
Almeida entende que os movimentos de importação nem sempre são homogêneos. Por isso, essa pequena estabilidade pode não se repetir se as condições do mercado lá fora se deteriorarem. “São movimentos descontínuos. Os setores que hoje tem importações em queda sofreram forte ataque no passado, então podemos estar assistindo a um ajuste”, explica.
Chora, mas não mama
O setor de siderurgia e metalurgia diz estar sentindo o peso da China. Marco Polo de Mello Lopes, que preside o Instituto Aço Brasil (Iabr), representante das empresas deste mercado, afirmou em agosto que o Brasil vivia uma “perda de competitividade sistêmica”. “A perspectiva é muito ruim, pois novas capacidades estão sendo instaladas na Índia e China”, disse.
Em junho deste ano, o presidente do conselho diretor do Iabr, Albano Vieira, esteve em Brasília discutindo propostas de desoneração para o setor. A tentativa é ampliar em 15 pontos porcentuais a utilização da capacidade instalada na indústria, atualmente em 70%. O projeto ainda não foi aprovado ainda.
Segundo Lopes, a demanda de aço para as obras de infraestrutura não cresceu como se esperava e o governo optou pela importação. "O governo tem que decidir se quer ou não uma indústria siderúrgica no País", pontuou.
Não é o que pensa a Gerdau. Em reunião com analistas e investidores, André Pires de Oliveira Dias, vice-presidente executivo de relações com investidores da siderúrgica, afirmou ter expectativas positivas diante dos novos projetos de construção no País. A previsão para 2014 de abertura de 38 novos shoppings, além da retomada no mercado de imóveis residenciais, sustenta o otimismo. Em novembro deste ano, em evento para a imprensa, o executivo do Iabr não poupou críticas. "O ano de 2013 foi tão ruim que alguma melhoria tem que acontecer em 2014", disse.
No entanto, segundo os dados divulgados pelo próprio Iabr, o volume de importações caiu 2,1% no acumulado até outubro deste ano. As vendas internas cresceram 5,3% frente os 10 primeiros meses do ano passado. Apenas a ponta exportadora mostrou alguma defasagem, com queda de 21,2% no valor total exportado, que foi de US$ 4,7 bilhões até outubro deste ano.
O setor é um dos que assiste a uma tímida redução no coeficiente de exportações mostrado pela CNI. Nos últimos três trimestres, a participação de importados na metalurgia caiu 0,7 ponto porcentual, segundo a CNI. Procurado pelo iG, Lopes não teve disponibilidade para comentar os números.
Otimismo concentrado
Para dois setores, no entanto, as perspectiva são mais sólidas. Segundo o economista da CNI, Marcelo Azevedo, a indústria extrativa é que apresenta uma real tendência de fazer frente aos importados. “A indústria extrativa ainda tem uma penetração elevada de importados, mas há uma clara tendência de melhora”, afirma.
Especialmente no caso do petróleo, o início da exploração do pré-sal deverá favorecer ainda mais a competitividade nacional.