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Power Line Communications (PLC), Broadband over Power Lines (BPL) no Brasil

Da internet pela tomada às redes inteligentes

A trajetória mundial da PLC, a experiência brasileira e por que a promessa de 2009 tomou outro rumo

Em 2009 a Aneel regulamentou internet via rede elétrica: E o que aconteceu com a tecnologia PLC 17? 

Da internet pela tomada às redes inteligentes: a trajetória mundial da PLC, a experiência brasileira e por que a promessa de 2009 tomou outro rumo

Em 27 de agosto de 2009, publiquei neste espaço a notícia de que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) havia regulamentado a utilização das redes de distribuição de energia elétrica para a transmissão de sinais de comunicação pela tecnologia Power Line Communications (PLC), também denominada Broadband over Power Lines (BPL) quando empregada para banda larga. 

Dezessete anos depois, é possível avaliar com maior precisão o que efetivamente ocorreu. A regulamentação de 2009 foi real e representou um avanço regulatório importante, mas a PLC não se tornou a principal plataforma de expansão da internet brasileira. 

O mercado seguiu predominantemente outro caminho: fibra óptica nas redes fixas e 4G/5G nas redes móveis. A decisão da Aneel de agosto de 2009 foi formalizada pela Resolução Normativa nº 375, de 25 de agosto de 2009, que regulamentou a utilização das instalações de distribuição de energia elétrica como meio de transporte de sinais digitais ou analógicos. A norma estabelecia, inclusive, condições para que distribuidoras disponibilizassem suas instalações a prestadores de PLC. ANEEL 
A regulamentação envolvia duas agências distintas. Enquanto a Aneel disciplinava o emprego da infraestrutura das distribuidoras de energia, a Anatel era responsável pelos aspectos de telecomunicações e uso do espectro. Poucos meses antes, em abril de 2009, a Anatel havia editado a Resolução nº 527/2009, estabelecendo as condições de utilização de radiofrequências pelos sistemas BPL. Entre outros parâmetros, a norma admitia comunicações confinadas à rede elétrica na faixa de 1,705 MHz a 50 MHz, estabelecendo limites de radiações indesejadas e mecanismos destinados a evitar interferências prejudiciais em outros sistemas de radiocomunicação. 

Em 27 de agosto de 2009, publiquei neste blog o texto “Aneel regulamentou internet via rede elétrica”. A notícia refletia uma expectativa tecnológica perfeitamente compreensível naquele momento: se praticamente todas as residências brasileiras já estavam ligadas à rede elétrica, por que não utilizar os mesmos fios para transportar também internet em banda larga?

A Agência Nacional de Energia Elétrica havia acabado de regulamentar o emprego das instalações de distribuição de energia para comunicação. Meses antes, a Agência Nacional de Telecomunicações havia estabelecido as condições de utilização das radiofrequências pelos sistemas de Broadband over Power Lines (BPL). Empresas elétricas brasileiras já realizavam testes. Projetos semelhantes existiam nos Estados Unidos e na Europa. Havia fornecedores internacionais, integradores, fabricantes de chipsets e equipamentos, concessionárias e empresas de telecomunicações apostando que a rede elétrica poderia tornar-se uma terceira grande infraestrutura de acesso à internet, ao lado da rede telefônica e da televisão a cabo.

Passados 17 anos, a retrospectiva é particularmente instrutiva.

A internet pela rede elétrica não se transformou na infraestrutura de banda larga que muitos imaginavam. No Brasil, não se tornou uma alternativa nacional à fibra óptica. Nos Estados Unidos e em boa parte da Europa, as experiências de BPL residencial também perderam relevância comercial.

Entretanto, dizer simplesmente que “a PLC fracassou” é tecnicamente incorreto.

O que fracassou como mercado de massa foi essencialmente um determinado modelo de negócio: utilizar a rede elétrica de distribuição como substituta de DSL, cabo e posteriormente fibra para entregar internet residencial. A família tecnológica PLC — Power Line Communications — continuou evoluindo e encontrou outra aplicação economicamente muito mais coerente: smart grids, medição inteligente, telemetria, controle da distribuição e comunicação entre equipamentos da própria rede elétrica.

Hoje existem mais de 20 milhões de medidores utilizando somente o padrão PRIME PLC em diferentes países. Na Espanha, a Iberdrola investiu cerca de € 2 bilhões em sua digitalização, instalou mais de 11,4 milhões de medidores inteligentes e automatizou mais de 90 mil centros de transformação. Iberdrola

A ironia histórica é notável:

a PLC não conquistou a internet, mas encontrou seu lugar dentro da própria rede elétrica.

Esta é a história completa.

A promessa original: transformar cada tomada em um ponto de internet

PLC significa Power Line Communications, comunicação pela linha de energia.

O princípio físico não era novo. Empresas de eletricidade já utilizavam formas de comunicação sobre seus próprios condutores muito antes da internet comercial. A inovação que despertou enorme interesse nas décadas de 1990 e 2000 consistia em aumentar drasticamente a capacidade dessas comunicações para transportar dados digitais. A eletricidade de uma residência brasileira é distribuída a 60 Hz. PLC acrescenta ao mesmo condutor sinais em frequências muito superiores, permitindo que energia e informação coexistam fisicamente no fio.

Em termos simplificados:

60 Hz → energia elétrica

kHz/MHz → comunicação de dados

O modem ou acoplador separa os sinais.

Daí nasceu uma ideia comercial extraordinariamente atraente:

se a rede elétrica já chega às casas, não seria necessário construir outra rede para levar internet até elas.

Em tese, uma tomada poderia simultaneamente alimentar o computador e conectá-lo à internet.

Essa percepção produzia uma vantagem aparentemente imbatível. Uma operadora de telecomunicações precisava construir cabos, instalar postes ou utilizar postes de terceiros, lançar cobre, coaxial ou fibra, obter direitos de passagem, construir redes de acesso e realizar instalações nas residências. 

A companhia elétrica, ao contrário, já estava dentro da casa do consumidor. Era essa a grande tese econômica da BPL. E era também, como descobriríamos, uma simplificação excessiva.

PLC e BPL não são exatamente a mesma coisa

É útil fazer uma distinção que raramente aparecia nas matérias jornalísticas de 2009.

PLC é o conceito abrangente: transmissão de informação por linhas elétricas.

Dentro dele existem aplicações muito diferentes. A chamada Broadband PLC ou BPL — Broadband over Power Lines — procura transportar grande quantidade de dados, tradicionalmente utilizando frequências na faixa dos MHz. Foi essa modalidade que despertou a expectativa de internet residencial.

Existe, porém, a Narrowband PLC, de menor velocidade e largura de banda. Para assistir vídeos ou substituir uma conexão FTTH ela é inadequada; para informar a uma concessionária que determinado medidor consumiu 327 kWh, registrar uma interrupção, receber um comando tarifário ou transmitir parâmetros de uma rede elétrica, pode ser excelente. Essa diferença explica boa parte da história. A BPL disputava mercado com tecnologias que evoluíram vertiginosamente. A narrowband PLC precisava transmitir volumes relativamente pequenos de dados através de uma infraestrutura que, por definição, já conectava exatamente os equipamentos que se desejava controlar. No segundo caso, a vantagem estrutural da PLC é muito maior.

Como seria uma verdadeira rede de internet PLC

Outra impressão equivocada daquele período era imaginar:

internet → fio elétrico → tomada.

Não era tão simples.

Uma rede comercial precisava aproximadamente desta arquitetura:

backbone de telecomunicações
↓
fibra até determinada região ou subestação
↓
equipamento de injeção/acoplamento PLC
↓
rede elétrica de média tensão
↓
repetidores/acopladores
↓
transformadores de distribuição ou equipamentos de bypass
↓
rede elétrica de baixa tensão
↓
residência
↓
modem PLC
↓
Ethernet/Wi-Fi/computador

Ou seja: a PLC nunca eliminava a rede de telecomunicações. Ela essencialmente pretendia substituir uma parte da última milha. Isso muda completamente a análise econômica.

O primeiro grande obstáculo: uma rede elétrica não foi projetada para telecomunicações

Uma fibra óptica foi projetada para transportar informação.

Um cabo Ethernet foi projetado para transportar informação.

Um coaxial possui propriedades eletromagnéticas controladas.

Uma rede elétrica foi projetada primordialmente para transportar potência elétrica.

Essa diferença parece elementar, mas determina quase toda a história da BPL.

A rede elétrica contém derivações, emendas, transformadores, motores, fontes chaveadas, lâmpadas, eletrodomésticos e inúmeras cargas que entram e saem continuamente do circuito. Do ponto de vista das telecomunicações, isso significa:

  • impedância variável;
  • atenuação variável;
  • ruído impulsivo;
  • reflexões;
  • interferência;
  • topologias imprevisíveis;
  • variação temporal do canal.
Um equipamento que funciona perfeitamente em determinada residência pode apresentar desempenho diferente algumas casas adiante. E a rede muda quando consumidores ligam e desligam aparelhos.

O transformador: um problema que a propaganda raramente mostrava

Existe outro obstáculo.

Os transformadores da rede elétrica são projetados para transferir eficientemente energia na frequência da rede, e não necessariamente sinais de telecomunicações de alta frequência. Dependendo da arquitetura PLC, torna-se necessário instalar:

  • acopladores;
  • repetidores;
  • bypass de transformadores;
  • concentradores;
  • equipamentos de injeção.

Portanto, a rede elétrica já existente não significava uma rede de telecomunicações pronta.

Era necessário transformá-la em uma rede híbrida energia-dados. E isso custa dinheiro.

O segundo grande problema: interferência eletromagnética

Os fios de uma rede elétrica de distribuição não possuem necessariamente a blindagem e o comportamento eletromagnético de um cabo de telecomunicações. Quando sinais de radiofrequência são introduzidos nesses condutores, parte da energia pode irradiar. Em determinadas circunstâncias, segmentos da instalação elétrica comportam-se parcialmente como antenas. Isso cria possibilidade de interferência com serviços que utilizam espectro semelhante. No Brasil, a regulamentação de BPL aprovada pela Anatel em 2009 estabeleceu justamente limites e condições técnicas para enfrentar esse problema. A Resolução nº 527/2009 tornou-se o marco técnico da BPL brasileira.

Essa regulamentação não era uma peculiaridade nacional. A interferência entre BPL e serviços de radiocomunicação foi discutida também nos Estados Unidos e em outros mercados. Portanto, havia uma tensão tecnológica inevitável: para aumentar alcance e robustez, interessa transmitir um sinal suficientemente forte; mas para reduzir interferência radioelétrica, interessa limitar emissões. E esse compromisso afetava desempenho e custos.

Quando o mundo acreditou na BPL

Nos primeiros anos do século XXI, o entusiasmo não estava restrito ao Brasil. Houve experiências na:

Alemanha; Espanha; Portugal; Estados Unidos; Reino Unido; Austrália; Rússia; Japão e outros mercados.

Empresas de eletricidade enxergavam uma oportunidade de entrar em telecomunicações. Empresas de tecnologia enxergavam um mercado gigantesco de modems, chipsets, acopladores e concentradores.

Governos enxergavam a possibilidade de ampliar competição e inclusão digital. Investidores enxergavam uma terceira rede nacional concorrendo com cabo e telefonia.


Estados Unidos: CURRENT e Duke Energy

Um dos exemplos mais importantes ocorreu nos Estados Unidos. A CURRENT Group desenvolveu uma arquitetura BPL que combinava internet e funcionalidades de smart grid. Em Cincinnati, em parceria com a Duke Energy, sua implantação alcançou mais de 50 mil residências passadas pela rede. 

O serviço comercial oferecia acesso de até aproximadamente 3 Mbps simétricos, juntamente com VoIP.

Segundo apresentação da própria CURRENT de 2007, aproximadamente metade de seus assinantes havia migrado de DSL ou cabo. Mais ambiciosamente, a empresa divulgava uma geração de sua solução capaz de proporcionar 10 Mbps ou mais nos dois sentidos e afirmava que sua nova implantação deveria cobrir aproximadamente 125 mil residências até o final de 2007. Departamento de Justiça

Observe o contexto histórico. Em 2007, uma conexão simétrica de 10 Mbps era altamente competitiva.

Hoje parece modesta. Essa diferença de percepção é essencial para compreender por que a equação econômica mudou tão depressa.

O que ocorreu na Europa

A Alemanha esteve entre os mercados pioneiros, com experiências comerciais envolvendo empresas elétricas como a RWE. A Espanha foi ainda mais importante.

Endesa e Iberdrola estiveram entre as grandes elétricas que experimentaram PLC/BPL para telecomunicações. Mas a trajetória espanhola acabaria revelando algo muito mais interessante do que simplesmente uma tentativa frustrada de internet pela tomada. 

A tecnologia seria reaproveitada em larga escala para medição e automação da rede.

Voltaremos a isso.

O Brasil não ficou assistindo: houve projetos reais

Quando publiquei a notícia em agosto de 2009, PLC não era apenas uma hipótese estrangeira importada para o debate brasileiro. Diversas companhias elétricas haviam realizado ou estudavam experiências.

Entre os nomes encontrados na documentação e cobertura técnica daquele período estavam:

  • Copel/Copel Telecom;
  • Cemig/Infovias;
  • AES Eletropaulo/AES Eletropaulo Telecom;
  • Celg/Celg Telecom; 

além de experiências associadas a outras distribuidoras. 

Portanto, havia efetivamente uma cadeia empresarial em formação. Fornecedores de equipamentos, integradores, concessionárias de energia, subsidiárias de telecomunicações, provedores e órgãos reguladores tentavam determinar se PLC poderia constituir um negócio.

Copel: o experimento que talvez melhor explique por que a conta não fechou

O caso da Copel é particularmente elucidativo. A companhia paranaense estudava PLC havia anos e retomou o projeto com maior intensidade em 2007. O plano foi dividido em três fases:

1. teste tecnológico;

2. teste comercial;

3. plano de negócios.

A primeira fase foi realizada em Santo Antônio da Platina, no norte do Paraná. Em 2009, aproximadamente 750 consumidores, distribuídos por cerca de 15 áreas da cidade, estavam envolvidos na área experimental. O investimento informado para essa etapa foi de aproximadamente: R$ 1 milhão.

A segunda fase pretendia alcançar entre: 3 mil e 10 mil clientes. Até aí, os números pareciam administráveis. O dado verdadeiramente revelador aparecia na terceira etapa. A estimativa então mencionada para transformar a experiência em um negócio de escala chegava a aproximadamente: US$ 400 milhões. A mesma fonte informa que, naquele momento, a Copel Telecom já possuía aproximadamente 7.000 km de fibra óptica, presença em mais de 200 cidades e cerca de 700 clientes corporativos. BrasCont Contabilidade

Esse conjunto de números é crucial. A tese original dizia:

“PLC será barata porque a rede elétrica já existe.”

Mas uma companhia que já possuía a rede elétrica calculava centenas de milhões de dólares para transformar aquela infraestrutura em plataforma comercial de telecomunicações. A vantagem econômica era, portanto, muito menor do que parecia.

E havia outro paradoxo

A Copel não estava escolhendo entre: PLC ou nada.

Estava escolhendo, direta ou indiretamente, entre:

investir na adaptação de uma rede elétrica para telecomunicações

e

continuar expandindo uma rede de fibra projetada desde o início para telecomunicações.

Com o passar dos anos, essa comparação tornou-se progressivamente desfavorável à PLC.


O interessante caso Copel–Sercomtel

Existe ainda um detalhe histórico pouco lembrado. Em Santo Antônio da Platina, a experiência chegou a incluir telefonia VoIP, utilizando a marca Sercomtel. Naquele momento, a Copel detinha participação de 45% na Sercomtel, e questões regulatórias relacionadas à autorização de telefonia fixa influenciavam a estrutura comercial possível. A ideia de uma oferta conjunta poderia reunir telefonia e banda larga transmitidas pela infraestrutura elétrica. TELETIME News

Isso mostra o grau de seriedade com que PLC chegou a ser considerada. Não se tratava apenas de um laboratório universitário. Existiam hipóteses concretas de produto comercial.

Cemig e Infovias

Em Minas Gerais, Cemig/Infovias também estudaram a tecnologia. Testes iniciais remontavam a aproximadamente 2002. A companhia identificou potencial técnico para acesso de alta capacidade, mas aguardou o amadurecimento regulatório antes de decidir sobre a expansão comercial.

Em 2009, entretanto, a própria Infovias já possuía aproximadamente: 3.500 km de fibra óptica em 25 cidades mineiras. BrasCont Contabilidade

Novamente surge a mesma questão econômica. As empresas elétricas que poderiam tornar PLC uma realidade estavam simultaneamente construindo infraestrutura óptica. E a fibra melhorava mais rapidamente.


AES Eletropaulo e outros experimentos

São Paulo também foi palco de experimentos importantes, sobretudo associados à AES Eletropaulo Telecom.

Projetos daquele período demonstraram tecnicamente a possibilidade de levar conectividade através da infraestrutura elétrica e exploraram a combinação entre backbone óptico e PLC na última milha.

Celg e outras concessionárias também experimentaram aplicações de conectividade e inclusão digital.

Isso é importante porque impede uma explicação simplista:

PLC não desapareceu do Brasil porque ninguém a testou.

Ela foi testada.

Havia companhias de grande porte.

Havia capital.

Havia demanda por banda larga.

Havia interesse regulatório.

Havia fornecedores.

Havia projetos.

Mesmo assim, não alcançou escala comercial nacional.


BPL Global e HT Telecom: em novembro de 2009 já aparecia o pessimismo

Talvez uma das evidências históricas mais impressionantes esteja em novembro de 2009 — menos de três meses depois da publicação do artigo original. Durante um seminário especializado, Geraldo Guimarães Jr., então presidente da BPL Global, empresa que havia integrado equipamentos nos testes da Copel, declarou considerar a PLC comercialmente inviável naquele momento no Brasil. Maurício Guaiana, da HT Telecom, apresentou crítica igualmente severa. Os integradores apontavam, entre outras questões, custos e exigências de certificação decorrentes da regulamentação da Anatel. TELETIME News

É necessário tratar essa evidência corretamente. Essas eram avaliações de empresas interessadas comercialmente no setor, e não demonstração independente de que a Anatel tivesse “matado” a tecnologia. Existe uma diferença importante. Os reguladores tinham de proteger outros usuários do espectro. Os fornecedores queriam maximizar a viabilidade técnica e econômica de seus equipamentos. Os interesses não eram necessariamente coincidentes. Ainda assim, o episódio demonstra que a tensão econômica apareceu praticamente imediatamente após a regulamentação.

A Aneel também mudou a equação financeira

A regulamentação elétrica acrescentava outra dimensão.

Uma concessionária de distribuição não poderia simplesmente tratar uma infraestrutura remunerada pela tarifa de energia como se fosse um ativo privado completamente livre para exploração comercial.

A lógica regulatória buscava fazer com que parte do benefício econômico do compartilhamento retornasse aos consumidores por meio da modicidade tarifária.

A cobertura jornalística da decisão de 2009 registrava que, no compartilhamento, 90% da receita gerada pelo aluguel da rede seria considerada em benefício tarifário, ficando 10% com a concessionária. Folha de S.Paulo

A metodologia regulatória subsequente mostra nuances importantes. Documento da própria Aneel sobre tratamento de outras receitas distinguia compartilhamento de infraestrutura e sistemas PLC; para sistemas de comunicação PLC, apresentava despesa regulatória de 20%, lucro de 80% e 60% da receita revertida, enquanto o compartilhamento convencional de infraestrutura aparecia com captura de 90%. ANEEL

Portanto, a história não deve ser reduzida à frase “a Aneel tomou 90% da receita da PLC”. A realidade regulatória era mais complexa e evoluiu. Mas permanece válida uma conclusão econômica: o benefício privado capturável pela distribuidora era regulado, justamente porque ela explorava uma infraestrutura vinculada à concessão pública.

Então a regulamentação brasileira matou a PLC?

A resposta tecnicamente defensável é: não sozinha. A regulamentação provavelmente tornou determinadas arquiteturas e modelos comerciais menos atraentes. Os próprios integradores disseram isso à época. TELETIME News

Mas existe uma espécie de experimento natural que enfraquece a tese de que o problema tenha sido exclusivamente brasileiro: a BPL residencial também perdeu espaço em diversos outros países. Se uma tecnologia não alcança o mercado de massa sob ambientes regulatórios diferentes, a explicação precisa incorporar fatores tecnológicos e econômicos mais amplos. E esses fatores existiam.

O verdadeiro adversário apareceu: a fibra óptica

PLC precisava continuamente lutar contra as limitações do meio físico. Fibra fazia exatamente o contrário. Na fibra, informação é transportada por luz através de um meio especificamente projetado para comunicações.

Isso proporciona:

  • enorme largura de banda;
  • baixa atenuação;
  • imunidade a interferência eletromagnética;
  • grande alcance;
  • baixa taxa de erro;
  • capacidade de evolução por substituição dos equipamentos nas extremidades;
  • padronização mundial;
  • economias de escala gigantescas.

E ocorreu algo que as projeções mais otimistas da PLC subestimaram: o custo da fibra caiu enquanto sua capacidade cresceu extraordinariamente.

O problema do custo por bit

Imagine duas tecnologias em 2009. Uma oferece 10 Mbps e custa X. Outra oferece 10 Mbps e custa 2X.

A primeira parece superior. Mas isso não basta.

Precisamos perguntar: quanto custará cada uma quando o consumidor exigir 100 Mbps?

Depois: 1 Gbps?

Depois: 10 Gbps?

A fibra possui uma característica extraordinariamente importante: depois que o meio óptico está instalado, enormes saltos de capacidade podem ser obtidos substituindo equipamentos ativos. Foi assim que o mercado evoluiu de arquiteturas como GPON para XGS-PON e outras gerações. A fibra enterrada ou lançada no poste pode continuar útil durante décadas. PLC não apresentou uma trajetória de capacidade/custo comparável.

A capacidade compartilhada também importava

Outro cuidado necessário é interpretar corretamente velocidades anunciadas em testes PLC.

Uma rede pode divulgar, por exemplo: 80 Mbps.

Isso não significa necessariamente: 80 Mbps dedicados para cada residência.

Dependendo da arquitetura, essa capacidade é compartilhada entre usuários de determinado segmento.

Esse mesmo princípio existe em outras redes, inclusive PON e cabo, mas a diferença está na capacidade agregada disponível, arquitetura de divisão e facilidade de expansão. À medida que fibra passou a oferecer centenas de Mbps e posteriormente gigabits aos consumidores, a vantagem competitiva da BPL diminuiu drasticamente.

E então chegaram 3G, 4G e 5G

PLC ainda sofreu outro ataque tecnológico.

Uma de suas maiores promessas era:

chegar a lugares onde a telefonia fixa não chega.

Mas as redes móveis começaram a resolver justamente esse problema.

3G expandiu o acesso móvel.

4G transformou smartphones em terminais de banda larga.

5G aumentou dramaticamente capacidade e flexibilidade.

A PLC passou, portanto, a ser comprimida por dois lados:

fibra na banda larga fixa;

redes celulares na mobilidade e em parte do acesso fixo sem fio.


O resultado brasileiro em 2026 é inequívoco

No segundo trimestre de 2026, o Brasil registrava aproximadamente:

55,4 milhões de acessos de banda larga fixa.

Destes:

44,7 milhões utilizavam fibra óptica.

Isso representa mais de 80% da base nacional. Serviços e Informações do Brasil

Em julho de 2026, a Anatel já registrava aproximadamente:

56,8 milhões de acessos fixos

e cerca de:

21 mil prestadoras de SCM. Serviços e Informações do Brasil

É um resultado impressionante. A expansão brasileira da banda larga acabou ocorrendo em grande medida através de FTTH e pequenos e médios provedores regionais, e não por meio da tomada elétrica.

O móvel mudou ainda mais

No segundo trimestre de 2026 havia aproximadamente: 276,4 milhões de acessos móveis no Brasil.

O 5G já representava: 66,1 milhões de acessos, ou 23,9% da base móvel. Serviços e Informações do Brasil

E os compromissos de cobertura associados ao processo de expansão do 5G incluem:

  • 5.570 sedes municipais com 5G até 31 de julho de 2029;
  • 1.700 localidades adicionais com 5G;
  • 7.430 localidades atendidas com 4G ou tecnologia superior;
  • 35.784 km de rodovias federais pavimentadas;
  • 530 sedes municipais contempladas com backhaul óptico;

além de aproximadamente: R$ 3,1 bilhões destinados à conectividade de escolas públicas. Serviços e Informações do Brasil

Compare essa arquitetura com a expectativa de 2009. O papel que imaginávamos para a rede elétrica acabou ocupado por uma combinação de: fibra + redes móveis + provedores regionais + Wi-Fi.

E quanto custaria PLC hoje?

Aqui é necessário resistir à tentação de inventar uma comparação aparentemente precisa. Não existe um preço contemporâneo universal do tipo: “FTTH custa R$ X por residência e BPL custa R$ Y.”

Isso dependeria de densidade urbana, postes, dutos, extensão média dos drops, quantidade de transformadores, equipamentos ativos, mão de obra, impostos, capacidade contratada, backbone, condições da rede e escala de compra. Além disso, BPL residencial praticamente deixou de ser um mercado mundial comparável ao FTTH. 

Essa é, por si só, uma informação econômica importante.

O ecossistema FTTH produz em enorme escala:

  • OLTs, ONTs/ONUs, splitters, cabos, conectores, transceptores e equipamentos PON.
  • O ecossistema BPL de acesso residencial não alcançou escala semelhante.

Portanto, uma comparação contemporânea honesta deve utilizar: TCO — Total Cost of Ownership; e não simplesmente o preço de um modem. O TCO inclui: CAPEX inicial + instalação + equipamentos intermediários + energia + manutenção + reposição + suporte + falhas + capacidade + upgrades + vida útil. Quando fazemos essa análise, a fibra apresenta uma vantagem adicional decisiva: o ativo passivo instalado possui vida econômica longa e enorme margem para aumento futuro de capacidade.

O que se imaginava economicamente em 2009

O raciocínio era: rede elétrica existente = CAPEX de acesso muito baixo.

A experiência da Copel demonstra por que isso era incompleto. O piloto de aproximadamente 750 consumidores custava cerca de R$ 1 milhão, enquanto uma implantação empresarial subsequente chegou a ser associada a investimento da ordem de US$ 400 milhões. BrasCont Contabilidade

Não se pode dividir simplesmente US$ 400 milhões pelo número de usuários do piloto e chamar o resultado de “custo por assinante”: seriam escopos completamente diferentes. 

Mas os valores demonstram algo essencial. A infraestrutura elétrica existir não tornava gratuita a infraestrutura de telecomunicações. Ainda eram necessários:

  • backhaul;
  • acopladores;
  • concentradores;
  • repetidores;
  • bypass;
  • modems;
  • sistemas de gestão;
  • instalação;
  • certificação;
  • manutenção;
  • engenharia;
  • suporte;
  • e capacidade de backbone.

A suposta vantagem de CAPEX diminuía.

O erro econômico fundamental

A comparação correta nunca foi: construir uma rede elétrica nova versus usar a existente.

Era: 

adaptar uma rede elétrica existente para funcionar como telecomunicações

versus

construir uma rede de telecomunicações cada vez mais barata e infinitamente mais escalável.

Quando formulamos o problema corretamente, o resultado histórico torna-se muito menos surpreendente.

E os políticos? O que realmente está documentado

Essa parte merece cuidado para não transformar história regulatória em insinuação política sem evidência. A regulamentação ocorreu durante o segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2009. Isso estabelece o contexto governamental. Não significa que Lula tenha pessoalmente concebido ou decidido a regulamentação técnica da PLC. As decisões regulatórias concretas passaram principalmente por Anatel e Aneel, com competências institucionais diferentes. A Anatel tratava das telecomunicações e das condições radioelétricas. A Aneel tratava da infraestrutura da distribuição de energia e de seu compartilhamento. No Congresso Nacional também houve interesse explícito. O caso documentalmente mais claro é o então deputado Eduardo Gomes (PSDB-TO). Em 17 de abril de 2009, ele apresentou o Requerimento nº 169/2009 na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara, solicitando audiência pública especificamente para: debater o uso das redes de energia elétrica para provimento de internet.

O requerimento foi aprovado em 22 de abril de 2009, com ampliação dos convidados. Portal da Câmara dos Deputados

Posteriormente, a Comissão aprovou também a inclusão de representante da Abranet — Associação Brasileira dos Provedores de Acesso, Serviços e Informações da Rede Internet na discussão. Portal da Câmara dos Deputados

Isso demonstra participação política e parlamentar real. Mas não encontrei evidência documental robusta que permita afirmar que um determinado político tenha deliberadamente “matado”, favorecido indevidamente ou direcionado a PLC em benefício de alguma empresa. Sem essa documentação, seria impróprio fazer essa acusação.

A regulamentação de 2009 já não é a regulamentação vigente

Este é outro ponto que precisa constar na atualização do artigo original. A Resolução Normativa Aneel nº 375, de 25 de agosto de 2009, que motivou aquela publicação, não permanece vigente.

Ela foi expressamente revogada pela: Resolução Normativa Aneel nº 1.044/2022, com entrada em vigor em 1º de novembro de 2022. Do lado das telecomunicações ocorreu algo igualmente interessante.

A antiga Resolução Anatel nº 527/2009 foi revogada no processo de atualização do arcabouço de radiofrequências. Entretanto, isso não significa que BPL tenha sido proibida.

Em julho de 2026, a Anatel publicou a Resolução nº 789/2026. Seu artigo 4º determina expressamente que continuem sendo aplicadas as condições técnicas e operacionais anteriormente previstas na Resolução nº 527/2009 até que a Superintendência competente publique o correspondente ato de requisitos técnicos e operacionais para BPL. Esse detalhe é importantíssimo. 

Em 2026, portanto, BPL continua juridicamente reconhecida no ambiente regulatório brasileiro.

O que desapareceu foi sua relevância como grande plataforma comercial de banda larga residencial.


A reviravolta: PLC não morreu

Aqui começa a segunda metade dessa história.

Enquanto BPL perdia a disputa pela internet residencial, as companhias elétricas percebiam que comunicação pela própria rede tinha enorme utilidade para outra finalidade:

operar a rede elétrica.

Considere um medidor inteligente.

Ele não precisa transmitir Netflix.

Não precisa entregar 1 Gbps.

Não precisa realizar videoconferência em 4K.

Precisa transmitir informações como:

consumo;

tensão;

corrente;

eventos;

falhas;

qualidade do fornecimento;

leituras tarifárias;

comandos;

estado operacional.

Nessa aplicação, poucos kilobits ou centenas de kilobits por segundo podem ser suficientes.

E surge uma vantagem extraordinária:

o medidor que precisa comunicar-se já está conectado ao fio elétrico.

A PLC finalmente encontrou uma aplicação em que sua principal característica física deixava de ser uma limitação e se tornava vantagem estrutural.


Espanha: talvez o melhor exemplo da transformação

A experiência espanhola é extraordinariamente instrutiva. A Iberdrola tornou-se uma referência internacional em redes inteligentes através do Projeto STAR — Sistema de Telegestão e Automatização da Rede. Segundo a própria empresa, o projeto envolveu aproximadamente:

  • € 2 bilhões de investimento;
  • mais de 11,4 milhões de medidores inteligentes;
  • mais de 90 mil centros de transformação dotados de capacidades de telegestão e automação. Iberdrola

Faça uma conta apenas ilustrativa: € 2 bilhões / 11,4 milhões ≈ € 175 por medidor.

Mas é fundamental não interpretar isso como preço unitário do medidor. O investimento incluiu infraestrutura de suporte e automação de dezenas de milhares de centros de transformação.

Ainda assim, a escala demonstra algo impressionante: uma tecnologia que não conquistou milhões de assinantes residenciais de internet passou a integrar milhões de pontos da rede elétrica inteligente.


PRIME: mais de 20 milhões de medidores

A PRIME Alliance desenvolveu um ecossistema padronizado de PLC voltado justamente a Advanced Metering, Grid Control e Asset Monitoring.

Atualmente a organização informa mais de: 20 milhões de medidores PRIME implantados mundialmente.

Entre os mercados listados estão: Espanha, Portugal, Polônia, Romênia, Turquia, República Tcheca, Letônia, Lituânia, Suécia, Índia, Arábia Saudita, Qatar, Argentina, Colômbia e Peru, entre outros. Prime Alliance

Isso encerra definitivamente a tese de que: “PLC não funciona.”

Funciona. O que não funcionou em grande escala foi determinado business case de BPL residencial.

E o Brasil está chegando novamente ao mesmo problema, mas por outra porta

Em 2026, a Aneel voltou a discutir intensamente digitalização das redes.

Na segunda fase da Consulta Pública nº 1/2026, a Agência apresentou proposta de requisitos mínimos para sistemas de medição inteligente destinados aos consumidores de baixa tensão.

A própria definição proposta de sistema de medição inteligente contém quatro componentes:

  • medidor;
  • interface de comunicação com o consumidor;
  • sistema de comunicação de dados;
  • sistema de gestão de dados.

Também estão sendo discutidos:

  • interoperabilidade;
  • segurança cibernética;
  • disponibilização dos dados;
  • novas modalidades tarifárias;
  • pré-pagamento;
  • funcionalidades dos medidores. Serviços e Informações do Brasil

É quase uma volta completa.

Em 2009 perguntávamos: 

como utilizar a rede elétrica para digitalizar as telecomunicações?

Em 2026 perguntamos:

como utilizar telecomunicações para digitalizar a rede elétrica?


Smart grids mudam completamente o significado da comunicação

A rede elétrica tradicional era essencialmente unidirecional: 

grande usina → transmissão → subestação → distribuição → consumidor.

A rede contemporânea está tornando-se multidirecional.

O consumidor pode possuir:

  • painéis solares;
  • bateria;
  • veículo elétrico;
  • carregador inteligente;
  • ar-condicionado controlável;
  • medidor inteligente;
  • gerenciamento de demanda.

Pode consumir energia às 19h e produzir excedente solar às 13h. Pode carregar uma bateria quando há abundância e reduzir consumo quando o sistema está congestionado. Pode, em arquiteturas futuras, utilizar o veículo como recurso energético.

Essa rede exige informação em tempo próximo do real.

Consequentemente, a convergência entre energia e telecomunicações que parecia tão promissora em 2009 realmente está acontecendo. Só que de maneira diferente da imaginada.


Afinal, por que PLC não se tornou a internet brasileira?

Depois de 17 anos, podemos responder com razoável precisão.

Não houve uma causa única.

Foi a combinação de pelo menos oito forças.

Primeiro: limitações físicas. A rede elétrica é um meio de telecomunicações hostil e variável.

Segundo: interferência. A utilização de altas frequências exigiu controles e regulamentação.

Terceiro: equipamentos intermediários. Transformadores e topologia da distribuição diminuíram a vantagem de simplesmente “usar fios existentes”.

Quarto: CAPEX real. Pilotos mostraram que transformar uma rede elétrica em rede comercial de dados continuava exigindo investimentos relevantes.

Quinto: OPEX. Equipamentos ativos distribuídos significam manutenção, energia, falhas e equipes especializadas.

Sexto: regulamentação. Certificação, proteção radioelétrica e regras econômicas da concessão diminuíram a flexibilidade do modelo.

Sétimo: falta de escala global. Como BPL residencial não atingiu dezenas ou centenas de milhões de assinantes, não obteve a mesma curva de redução de custos de Wi-Fi, Ethernet, PON e redes celulares.

Oitavo — e provavelmente mais importante: concorrentes evoluíram mais depressa. Fibra e redes móveis simplesmente tornaram-se melhores negócios.


A comparação econômica que realmente importa

Em 2009, perguntávamos: quanto custa conectar uma casa?

Em 2026, a pergunta correta é mais sofisticada: quanto custa entregar um gigabit acumulado de dados ao consumidor ao longo de 10 ou 20 anos, incluindo instalação, operação, manutenção e upgrades?

Essa é a diferença entre CAPEX inicial e TCO. Uma tecnologia pode parecer barata para instalar e ser cara para operar. Outra pode exigir investimento inicial maior e proporcionar capacidade extraordinariamente superior durante décadas. Foi justamente aí que fibra consolidou sua vantagem.


2009 versus 2026

IndicadorAmbiente de 2009Ambiente de 2026
Banda larga residencial competitivapoucos Mbps a dezenas de Mbpscentenas de Mbps a 1 Gbps+
Principal promessa PLCinternet residencialsmart grid/telemetria
Meio dominante esperadoDSL/cabo/PLC disputando acessofibra dominante no fixo
Rede móvel3G em expansão4G consolidado e 5G em expansão
FTTH Brasilainda limitado>44,7 milhões de acessos de fibra
PLC residencialpilotos e expectativa comercialresidual/nicho
PLC industrial/smart gridemergentetecnologia consolidada em vários mercados
Medição inteligenteincipienteprioridade regulatória e operacional
Dados por residênciarelativamente modestosstreaming 4K, cloud, games, IoT
Escalabilidade necessáriaMbpscentenas de Mbps/Gbps

Os números atuais de fibra são da Anatel para o segundo trimestre de 2026. Serviços e Informações do Brasil


A previsão de 2009 estava errada?

Minha avaliação hoje exige separar três questões.

Tecnicamente, não.

Era correto afirmar que a rede elétrica poderia transportar dados. Os projetos brasileiros e internacionais demonstraram isso.

Economicamente, sim.

A expectativa de que a capilaridade da rede elétrica automaticamente transformaria PLC numa plataforma de banda larga barata subestimou os custos de adaptação e superestimou a vantagem proporcionada pelos fios existentes.

Estruturalmente, a intuição estava parcialmente correta.

Energia e telecomunicações estão efetivamente convergindo.

Mas a convergência ocorreu de outra maneira.

Não foi:

rede elétrica substituindo rede de telecomunicações.

Está sendo:

rede elétrica incorporando telecomunicações para tornar-se inteligente.

Essa distinção resume 17 anos de evolução tecnológica.


Uma tecnologia pode funcionar e mesmo assim perder

A história da PLC ensina algo importante sobre inovação.

O mercado não seleciona simplesmente a tecnologia que funciona.

Seleciona combinações de:

  • desempenho;
  • custo;
  • escala;
  • padronização;
  • confiabilidade;
  • regulação;
  • ecossistema;
  • facilidade de instalação;
  • capacidade de evolução;
  • retorno sobre capital.

PLC funcionava.

Mas fibra evoluiu mais depressa.

Wi-Fi tornou-se universal.

Ethernet tornou-se extremamente barata.

4G alcançou bilhões de dispositivos.

5G ampliou capacidade.

PON obteve escala mundial.

O ecossistema óptico passou a produzir equipamentos em volumes gigantescos.

O custo por bit despencou.

Nesse cenário, a pergunta deixou de ser:

“é possível transmitir internet pela rede elétrica?”

A resposta sempre foi sim.

A pergunta tornou-se:

“por que utilizar a rede elétrica para transportar centenas de megabits ou gigabits quando podemos utilizar fibra?”

E essa pergunta foi muito mais difícil para BPL responder.


O curioso destino da previsão feita neste blog

Em 2009 parecia plausível imaginar que a rede elétrica brasileira pudesse tornar-se um dos grandes instrumentos de universalização da internet. Existiam experiências internacionais. Existiam testes nacionais. Existiam grandes empresas envolvidas. Existia regulamentação sendo construída. O Congresso discutia o assunto. Havia integradores. Havia investimentos. Havia uma necessidade social enorme de banda larga. E a hipótese fazia sentido. A história posterior mostrou algo que somente o tempo poderia revelar: a competição tecnológica não seria decidida pela capilaridade da infraestrutura existente, mas principalmente pela capacidade de evolução e pelo custo de transportar quantidades crescentes de informação. Nesse critério, a fibra venceu. De forma contundente. Em 2026, mais de 80% dos 55,4 milhões de acessos brasileiros de banda larga fixa são de fibra óptica.

Mas talvez a parte mais interessante da história ainda esteja começando

A infraestrutura elétrica brasileira enfrenta agora uma transformação comparável à que as telecomunicações atravessaram nas últimas duas décadas.

  • Medidores inteligentes.
  • Geração solar distribuída.
  • Baterias.
  • Veículos elétricos.
  • Carregamento inteligente.
  • Automação.
  • IoT.
  • Resposta da demanda.
  • Tarifas dinâmicas.
  • Recursos energéticos distribuídos.
  • Inteligência artificial aplicada à operação.
  • Cibersegurança.

Tudo isso exige comunicação.

A própria área técnica da Aneel já reconheceu que a modernização da medição precisa ser analisada à luz da disseminação dos Recursos Energéticos Distribuídos, ao mesmo tempo em que custos e benefícios precisam ser cuidadosamente avaliados para os consumidores de baixa tensão. Portanto, o encontro entre eletricidade e informação que enxergávamos em 2009 não desapareceu.

Ele apenas mudou de direção. Em vez de transformar a rede elétrica brasileira em uma gigantesca rede de internet, estamos caminhando para transformar a própria rede elétrica em uma infraestrutura digital, monitorada, automatizada e bidirecional. E, ironicamente, PLC continua participando dessa transformação.

Dezessete anos depois

Se eu tivesse de resumir toda essa história em uma única conclusão, seria esta:

A internet pela tomada não fracassou porque fosse impossível. Fracassou como plataforma de massa porque, enquanto tentávamos adaptar uma infraestrutura concebida para transportar energia para que também transportasse banda larga, fibra e redes móveis tornaram-se extraordinariamente mais eficientes, escaláveis e baratas para fazer exatamente isso.

PLC sobreviveu justamente onde possui uma vantagem que fibra, cabo e rádio não conseguem reproduzir da mesma maneira: o dispositivo que precisa comunicar-se já está fisicamente conectado à própria rede elétrica.

É por isso que uma tecnologia que praticamente desapareceu das conversas sobre internet residencial aparece hoje em milhões de medidores inteligentes.

Em 2009, imaginávamos: energia + internet pela mesma rede.

Em 2026, a realidade tornou-se mais sofisticada: energia + dados + automação + medição + geração distribuída + armazenamento + inteligência de rede.

A previsão original não se realizou da maneira imaginada. Mas a convergência tecnológica que estava por trás dela não apenas aconteceu como provavelmente será muito mais profunda nas próximas décadas.

CRISE e o NOVO MAPA MUNDIAL DOS CARROS: O QUE PREVIMOS EM 2009 E O QUE REALMENTE ACONTECEU ATÉ 2026

🚗🌎 CRISE CRIOU UM NOVO MAPA MUNDIAL DOS CARROS: O QUE PREVIMOS EM 2009 E O QUE REALMENTE ACONTECEU ATÉ 2026


China virou a maior potência automobilística do planeta, Toyota superou definitivamente a General Motors, Fiat e Chrysler acabaram dentro da Stellantis, BYD transformou a indústria de elétricos e o Brasil entrou novamente no centro da disputa global. Dezessete anos depois, revisitamos uma reportagem publicada em 2009 para descobrir quais previsões estavam certas — e quais foram atropeladas pela história.

📅 Atualizado em 11 de setembro de 2026

Há textos jornalísticos que envelhecem.

Outros se transformam em documentos históricos.

Em 2009, no auge de uma das maiores crises já enfrentadas pela indústria automobilística mundial, publicamos uma análise com um título que, visto em 2026, parece quase profético:

👉 “Crise pode gerar novo mapa global do setor automotivo.”

Naquele momento, a General Motors estava em concordata, a Chrysler passava para a órbita da Fiat, Toyota avançava sobre as fabricantes americanas, Volkswagen e Porsche protagonizavam uma complexa disputa societária e a China começava a ameaçar a histórica supremacia industrial de Estados Unidos e Japão.

O Brasil aparecia como candidato a ganhar espaço.

Fabricantes japoneses e sul-coreanos ampliavam investimentos.

E havia uma sensação inequívoca de que alguma coisa muito grande estava acontecendo na indústria mundial do automóvel.

Só que ninguém, naquele junho de 2009, poderia dimensionar completamente a magnitude do terremoto que viria.

⚡ Dezessete anos depois, não temos apenas um novo mapa automobilístico.

Temos uma nova geopolítica do automóvel.

E ela envolve China, baterias, veículos elétricos, semicondutores, inteligência artificial, software, minerais críticos, tarifas comerciais, cadeias globais de suprimentos e uma batalha tecnológica que vale centenas de bilhões de dólares.

A pergunta que fazíamos em 2009 era:

Quem ocupará o espaço deixado pelas montadoras americanas em crise?

Em 2026, a pergunta mudou radicalmente:

Quem conseguirá competir com a China na próxima geração da indústria automobilística?

E a resposta começa com uma história extraordinária.


🔙 VOLTE PARA 2009: GM E CHRYSLER PARECIAM SÍMBOLOS DE UMA ERA QUE ESTAVA TERMINANDO

Em 2009, a indústria automobilística estava no epicentro da crise financeira internacional iniciada no ano anterior.

A General Motors, durante décadas um dos maiores símbolos industriais dos Estados Unidos, entrou com pedido de proteção contra credores em 1º de junho de 2009.

Era algo quase inimaginável.

Durante boa parte do século XX, GM não era apenas uma fabricante de automóveis.

Era uma representação do próprio poder industrial americano.

Chegou-se a popularizar nos Estados Unidos uma frase atribuída ao então presidente da companhia Charles Wilson:

“O que é bom para a General Motors é bom para a América.”

Em 2009, porém, a empresa acumulava dívidas, estruturas industriais excessivamente pesadas, custos elevados e uma linha de produtos que enfrentava concorrentes asiáticos cada vez mais eficientes.

A recuperação judicial mudou profundamente a empresa.

A GM emergiu da reorganização menor, mais concentrada e com um portfólio reduzido.

🚨 Aquilo que parecia impossível havia acontecido:

a maior potência automobilística do século XX havia sido obrigada a se reconstruir praticamente do zero.


🇮🇹 CHRYSLER + FIAT: UMA DAS PREVISÕES DE 2009 QUE MUDOU COMPLETAMENTE A INDÚSTRIA

Outra protagonista daquele momento era a Chrysler.

Em nossa reportagem de 2009, já aparecia a decisão judicial que permitiria a transferência de ativos da montadora americana para uma operação liderada pela italiana Fiat.

O movimento parecia, naquele momento, uma solução emergencial.

Mas acabou criando uma cadeia de acontecimentos que mudaria a estrutura societária da indústria global.

Primeiro, Fiat e Chrysler aproximaram-se.

Depois, a Fiat assumiu integralmente o controle da Chrysler.

Em 2014 surgiu a Fiat Chrysler Automobiles — FCA.

Mas a história ainda estava longe de terminar.

Em 16 de janeiro de 2021, FCA e o francês Groupe PSA, controlador de Peugeot e Citroën, concluíram sua fusão.

Nascia a Stellantis.

O resultado é impressionante quando comparado com aquilo que escrevíamos em 2009.

Naquela época, Chrysler, Fiat e Peugeot eram grupos distintos tentando encontrar posições estratégicas em meio à crise.

Em 2026, estão essencialmente dentro da mesma estrutura empresarial.

🚘 Entre as marcas reunidas pela Stellantis estão:

Fiat, Jeep, Chrysler, Ram, Peugeot, Citroën, Opel, Vauxhall, Alfa Romeo, Lancia, Dodge, DS Automobiles, Abarth e Maserati.

Ou seja:

📌 2009: falávamos sobre possíveis alianças.

📌 2026: uma dessas alianças criou um dos maiores conglomerados automobilísticos do planeta.

A consolidação prevista naquele momento não foi conjuntural.

Tornou-se estrutural.


🚗 TOYOTA: A AMEAÇA JAPONESA DE 2009 VIROU A MAIOR MONTADORA DO MUNDO

Nossa reportagem chamava atenção para outro movimento.

As fabricantes japonesas pareciam estruturalmente mais preparadas que algumas rivais americanas para disputar o novo consumidor global.

Toyota, Honda e Nissan tinham forte presença em automóveis pequenos e médios, exatamente os segmentos que ganhavam importância depois da crise.

A Toyota acabou sendo a maior confirmação dessa tendência.

Em 29 de janeiro de 2026, a própria Toyota publicou seus resultados consolidados de produção e vendas de 2025, incluindo Toyota, Lexus, Daihatsu e Hino.

Ao considerar o grupo, as vendas mundiais ficaram na casa de 11 milhões de veículos em 2025, mantendo a Toyota na liderança mundial.

É uma inversão histórica extraordinária.

Durante décadas, a General Motors foi a referência absoluta de escala industrial.

Em 2009, víamos Toyota avançando.

Em 2026, a discussão já não é se Toyota pode ultrapassar a GM.

Isso aconteceu há muito tempo.

A Toyota tornou-se o paradigma contemporâneo de produção em larga escala, eficiência industrial, confiabilidade e domínio de sistemas híbridos.

📊 O fenômeno também demonstra como o Toyota Production System, o just-in-time e os princípios de produção enxuta ultrapassaram os limites de uma empresa e influenciaram praticamente toda a manufatura moderna.


🇨🇳 A MAIOR PREVISÃO DE 2009: A CHINA REALMENTE TOMOU O CENTRO DO MAPA

Talvez nenhuma passagem do texto original seja tão impressionante quanto esta:

👉 “Este ano, a China deve assumir a liderança, tornando Xangai a nova capital do automóvel.”

Era 2009.

Naquele momento, muitos ainda enxergavam a indústria chinesa como produtora de veículos de baixo custo destinados principalmente ao mercado interno.

Dezessete anos depois, essa percepção parece pertencer a outro universo.

A China não apenas se tornou a maior produtora de automóveis do planeta.

Ela passou a controlar uma parcela gigantesca da nova cadeia tecnológica do automóvel elétrico.

Segundo a Agência Internacional de Energia, a China respondeu por quase 75% de todos os automóveis elétricos produzidos no mundo em 2025.

Sim.

Leia novamente:

🔥 aproximadamente três em cada quatro carros elétricos fabricados no planeta em 2025 vieram da China.

Esse dado muda completamente a análise econômica do setor.

A liderança chinesa já não depende apenas de mão de obra competitiva ou grande mercado consumidor.

Ela é resultado de décadas de política industrial envolvendo:

🔋 baterias;

⚡ eletrificação;

🧠 software;

🏭 escala produtiva;

⛏️ processamento de minerais;

📡 conectividade;

🤖 automação;

🚘 desenvolvimento acelerado de novos modelos.

Em 2009, o mundo perguntava se a China conseguiria ultrapassar Estados Unidos e Japão.

Em 2026, a pergunta relevante é:

quanto tempo levará para os concorrentes reduzirem a vantagem chinesa em determinados segmentos da mobilidade elétrica?


⚡ O NÚMERO QUE DEFINE 2026: 1 EM CADA 4 CARROS NOVOS VENDIDOS NO MUNDO JÁ É ELÉTRICO

Existe um dado capaz de resumir toda a transformação ocorrida desde nossa reportagem original.

Segundo o Global EV Outlook 2026, da International Energy Agency — IEA, as vendas mundiais de automóveis elétricos cresceram cerca de 20% em 2025 e superaram 20 milhões de unidades.

Isso significa que:

⚡ aproximadamente 25% de todos os automóveis novos vendidos no planeta em 2025 foram elétricos.

Um quarto do mercado global.

Mas a revolução é extremamente desigual.

Na China, cerca de 55% dos automóveis novos comercializados em 2025 eram elétricos. Foram mais de 13 milhões de unidades somente naquele país.

A China respondeu por aproximadamente seis em cada dez elétricos vendidos globalmente.

Essa diferença é decisiva.

Enquanto vários mercados ainda discutem quando ocorrerá a transição para a mobilidade elétrica, na China ela já está em pleno processo de massificação.

🚨 Isso modifica não apenas o motor do automóvel.

Modifica toda a arquitetura industrial.

Um carro elétrico exige outra estrutura de fornecedores, outra expertise eletrônica, outros componentes, outra infraestrutura energética e uma quantidade muito maior de software embarcado.

É praticamente uma reconstrução do automóvel.


🐉 BYD: A EMPRESA QUE QUASE NÃO APARECIA NO RADAR GLOBAL EM 2009 E VIROU SÍMBOLO DE 2026

Existe talvez uma empresa que sintetize melhor essa transformação:

BYD.

Em 2009, quando publicamos nossa análise, as discussões internacionais estavam concentradas em nomes como:

Toyota.

General Motors.

Volkswagen.

Ford.

Honda.

Nissan.

Hyundai.

Fiat.

Renault.

Peugeot.

Hoje seria impossível discutir a indústria automobilística mundial sem dedicar enorme atenção às fabricantes chinesas.

E BYD está no centro desse fenômeno.

O mais interessante é que o crescimento chinês deixou de representar apenas exportação de veículos fabricados na Ásia.

A China começou a construir fábricas dentro dos próprios mercados que pretende disputar.

E o Brasil tornou-se peça importante dessa estratégia.


🇧🇷 BYD EM CAMAÇARI: O MAPA GLOBAL CHEGOU AO BRASIL

Em 9 de outubro de 2025, a BYD inaugurou oficialmente seu complexo automobilístico em Camaçari, na Bahia.

A localização tem forte simbolismo histórico.

É justamente onde funcionava a antiga fábrica da Ford, montadora americana que encerrou sua produção de veículos no Brasil em 2021.

Agora pense no significado geoeconômico disso:

🇺🇸 uma fábrica associada durante décadas à expansão industrial americana;

⬇️

🇨🇳 substituída por uma das maiores representantes da nova indústria automobilística chinesa.

Poucos acontecimentos representam tão perfeitamente a transformação do setor entre 2009 e 2026.

Em janeiro de 2026, a BYD informou que sua unidade baiana já se aproximava de 20 mil veículos produzidos.

E o avanço continuou.

Dados divulgados pela própria empresa indicam que, em julho de 2026, o complexo já havia alcançado a marca de 100 mil automóveis produzidos, juntamente com forte expansão da força de trabalho.

Em Camaçari são produzidos veículos como Dolphin Mini, King e Song Pro.

A companhia informou anteriormente capacidade inicial de cerca de 150 mil unidades anuais, com previsão de expansão posterior.

É uma alteração estrutural do parque automotivo brasileiro.


🏭 E NÃO É SÓ A BYD: GWM TRANSFORMOU IRACEMÁPOLIS EM OUTRO POLO CHINÊS

Outra gigante chinesa também iniciou produção local.

A Great Wall Motor — GWM inaugurou sua fábrica de Iracemápolis, no interior de São Paulo, em agosto de 2025.

A unidade pertenceu anteriormente à Mercedes-Benz/Daimler.

Segundo a própria GWM, a instalação possui capacidade inicial aproximada de 50 mil veículos por ano.

Isso significa que o Brasil está passando por uma segunda grande onda de internacionalização automobilística.

A primeira foi marcada principalmente por empresas americanas e europeias.

Depois vieram japonesas e sul-coreanas.

Agora chegam as chinesas.

📌 O ciclo histórico pode ser resumido assim:

🇺🇸 Ford e GM;

🇩🇪 Volkswagen e Mercedes-Benz;

🇮🇹 Fiat;

🇫🇷 Renault e PSA;

🇯🇵 Toyota, Honda e Nissan;

🇰🇷 Hyundai;

🇨🇳 BYD, GWM e outras.

O Brasil continua sendo um dos poucos países emergentes capazes de hospedar praticamente todas as grandes escolas industriais do automóvel.


🇧🇷 ENTÃO O BRASIL VENCEU A APOSTA QUE FIZEMOS EM 2009?

A resposta exige cuidado.

Sim e não.

Em 2009 afirmávamos que o Brasil poderia conquistar novos mercados e aproveitar o rearranjo da indústria mundial.

Essa oportunidade realmente existiu.

O país manteve uma das maiores bases industriais automobilísticas do mundo.

Mas outros mercados cresceram em velocidade ainda maior.

Em 2008, o Brasil havia alcançado aproximadamente a sexta posição entre os maiores produtores globais.

Posteriormente perdeu posições.

Ainda assim, permanece entre os grandes produtores mundiais.

E 2026 mostra sinais importantes de recuperação.

Segundo a Anfavea, somente em maio de 2026 foram produzidos 253,6 mil autoveículos, crescimento de 15,2% sobre maio de 2025 e melhor resultado para aquele mês desde 2019.

Entre janeiro e maio, a produção acumulou:

🚗 1,126 milhão de veículos

📈 alta de 7,1% em relação ao mesmo período de 2025.

O milhão de unidades foi superado já em maio.

Isso demonstra que a indústria brasileira continua possuindo escala significativa.

Mas há uma contradição importante.


⚠️ BRASIL VENDE MAIS CARROS, MAS A INDÚSTRIA LOCAL ENFRENTA UMA NOVA PRESSÃO

Em julho de 2026, diante da força das vendas domésticas, a Anfavea revisou suas projeções.

A entidade passou a estimar que o Brasil poderia terminar o ano com mais de 3 milhões de autoveículos emplacados, marca que não era alcançada desde 2014.

Se confirmada, a expansão significará aproximadamente:

📈 +11,7% sobre 2025.

É um número expressivo.

Entretanto, existe uma questão estratégica:

as vendas crescem mais rapidamente do que a produção nacional.

Por quê?

Em boa medida porque importações ganharam participação.

A própria Anfavea alertou que o aumento das importações, combinado à queda das exportações, limita a expansão produtiva brasileira.

Em outras palavras:

🚗 o brasileiro está comprando mais carros;

🏭 mas parte crescente dessa demanda pode não gerar produção proporcional dentro do Brasil.

Esse é um dos maiores dilemas industriais de 2026.


🌎 E AS EXPORTAÇÕES? AÍ ESTÁ UM DOS PONTOS MAIS DELICADOS

O Brasil historicamente utiliza países latino-americanos como destinos importantes para sua produção.

Argentina, México, Chile, Colômbia, Uruguai e outros mercados possuem papel estratégico.

Mas a concorrência mudou.

Em julho de 2026, a Anfavea projetou uma queda de aproximadamente 12,8% nas exportações brasileiras de veículos no ano.

Entre os fatores identificados estavam:

📉 redução de demanda em mercados tradicionais;

🇨🇳 maior presença de veículos chineses;

🇲🇽 competição de produtos fabricados no México.

Esse ponto merece atenção especial.

A China não está competindo apenas pelo consumidor brasileiro.

Ela está disputando também os mercados latino-americanos para os quais o Brasil tradicionalmente exportava.

Portanto, o problema deixou de ser apenas:

“quantos veículos chineses chegam ao Brasil?”

A questão mais profunda tornou-se:

quanto da América Latina continuará comprando veículos produzidos no Brasil?


🔋 A NOVA GUERRA NÃO É SÓ POR CARROS — É POR BATERIAS, SOFTWARE E TECNOLOGIA

Aqui está a maior diferença entre 2009 e 2026.

Em 2009, uma montadora competitiva precisava dominar principalmente:

motores;

transmissões;

plataformas;

estamparia;

soldagem;

pintura;

montagem;

cadeia de fornecedores.

Tudo isso continua importante.

Mas agora há uma nova camada tecnológica.

O automóvel moderno está se tornando uma combinação de:

🔋 bateria;

⚡ eletrônica de potência;

🧠 inteligência artificial;

💻 software;

📡 conectividade;

📷 câmeras;

📍 sensores;

☁️ serviços digitais;

🤖 sistemas avançados de assistência ao motorista.

Por isso surge uma expressão cada vez mais importante:

software-defined vehicle — SDV.

Ou, em português:

veículo definido por software.

A lógica é semelhante à transformação ocorrida com os telefones celulares.

Durante décadas, um telefone era essencialmente hardware.

Depois do smartphone, o software passou a determinar boa parte da experiência do consumidor.

O mesmo processo começa a ocorrer no automóvel.

E isso significa que empresas de tecnologia, semicondutores e inteligência artificial passaram a integrar a cadeia de valor automobilística de maneira muito mais profunda.


🧠 O CARRO DE 2026 ESTÁ MAIS PRÓXIMO DE UM COMPUTADOR SOBRE RODAS

Essa frase já virou clichê no setor.

Mas ela contém uma verdade econômica importante.

No automóvel tradicional, grande parte da diferenciação vinha da engenharia mecânica.

No novo automóvel conectado, parte crescente da diferenciação vem de:

interfaces;

sistemas operacionais;

atualizações remotas;

processamento de dados;

assistência à condução;

gerenciamento eletrônico;

eficiência energética;

integração com smartphones;

ecossistemas digitais.

Consequentemente, a competição deixa de envolver apenas Toyota versus Volkswagen ou GM versus Ford.

Ela envolve também fornecedores e empresas especializadas em:

semicondutores;

baterias;

software;

computação;

inteligência artificial;

infraestrutura de carregamento.

É outra indústria.

Ou, mais precisamente:

é a velha indústria automobilística sendo incorporada a uma nova indústria digital e energética.


📊 2009 × 2026: ACERTAMOS OU ERRAMOS?

Chegou o momento mais interessante.

Vamos confrontar diretamente as grandes hipóteses de 2009 com o mundo real de 2026.

🇨🇳 “A China deverá assumir a liderança mundial.”

✅ ACERTOU — E FOI ALÉM.

A China tornou-se o maior centro automobilístico global e, segundo a IEA, produziu quase 75% dos carros elétricos do planeta em 2025.


🇯🇵 “Toyota deverá ganhar espaço diante da crise americana.”

✅ ACERTOU.

Toyota tornou-se líder mundial e manteve escala superior à de seus principais concorrentes tradicionais.


🇺🇸 “GM perderá protagonismo mundial.”

✅ ACERTOU EM GRANDE PARTE.

A empresa sobreviveu, reorganizou-se e continua extremamente poderosa, especialmente nos Estados Unidos.

Mas nunca recuperou a hegemonia global que possuía no século XX.


🇺🇸 “Ford poderia ultrapassar estruturalmente a GM.”

❌ NÃO SE CONSOLIDOU.

A Ford continuou como uma das maiores fabricantes americanas, mas a GM recuperou competitividade e permaneceu uma força dominante no mercado doméstico.


🇮🇹🇺🇸 “Fiat e Chrysler podem formar um grande grupo.”

✅ ACERTOU.

A operação levou à FCA.


🇫🇷 “Peugeot poderá participar de novas alianças.”

✅ ACERTOU DE FORMA ESPETACULAR.

PSA e FCA fundiram-se em 2021.

Nasceu a Stellantis.


🇩🇪 “Volkswagen e Porsche poderão formar nova configuração.”

✅ ACERTOU.

A integração entre os grupos avançou e a Porsche tornou-se uma peça essencial do universo Volkswagen.


🇸🇪 “Saab poderia ser adquirida pela Fiat.”

❌ NÃO ACONTECEU.

A marca seguiu outra trajetória societária.


🇧🇷 “O Brasil pode conquistar novos mercados.”

🟡 ACERTOU PARCIALMENTE.

O país preservou uma das maiores estruturas automobilísticas do mundo e atraiu novas montadoras.

Mas também perdeu posições relativas e enfrenta competição crescente das importações e da expansão chinesa na América Latina.


🔥 O QUE NÓS NÃO PODÍAMOS PREVER EM 2009

Aqui está talvez a conclusão mais importante de toda a retrospectiva.

A reportagem de 2009 percebeu corretamente a mudança geográfica do poder automobilístico.

Mas havia algo ainda maior começando silenciosamente.

A mudança tecnológica.

Em 2009, carros elétricos ainda eram nicho.

Tesla era pequena.

BYD ainda não possuía a dimensão global atual.

Baterias de íons de lítio ainda eram caras demais para uma adoção automobilística massiva.

Inteligência artificial generativa sequer fazia parte da vida cotidiana.

Atualizações automotivas pela internet eram raríssimas.

Hoje tudo isso está convergindo.

🚘 + 🔋 + 💻 + 🤖 + 🌐 = o automóvel do século XXI.

Essa equação é mais disruptiva do que simplesmente substituir GM por Toyota ou Estados Unidos por China.

Estamos assistindo a uma mudança na própria definição econômica do automóvel.


🌍 O NOVO MAPA DO AUTOMÓVEL EM 2026

Se fosse necessário sintetizar a indústria automobilística mundial de 2026 em poucos polos, teríamos algo próximo disto:

🇨🇳 CHINA
Maior centro produtivo, potência em veículos elétricos, baterias e exportações.

🇯🇵 JAPÃO
Toyota continua como referência mundial de escala, eficiência e tecnologia híbrida.

🇩🇪 ALEMANHA
Volkswagen, BMW e Mercedes-Benz permanecem gigantes globais, mas enfrentam profunda pressão tecnológica e chinesa.

🇺🇸 ESTADOS UNIDOS
GM, Ford e Tesla mantêm enorme relevância industrial e tecnológica.

🇰🇷 COREIA DO SUL
Hyundai e Kia consolidaram uma das operações multinacionais mais competitivas do setor.

🇮🇳 ÍNDIA
Mercado gigantesco, indústria crescente e potencial para ganhar relevância global.

🇧🇷 BRASIL
Um dos principais polos industriais do hemisfério sul, grande mercado consumidor e, agora, campo de disputa entre fabricantes tradicionais e novos grupos chineses.


🚨 A PRÓXIMA BATALHA JÁ COMEÇOU

O futuro da indústria automobilística não será determinado apenas por quem vende mais unidades.

A verdadeira disputa envolve:

🔋 quem produzirá baterias mais baratas;

⚡ quem reduzirá mais rapidamente o custo dos elétricos;

💻 quem dominará o software do veículo;

🤖 quem integrar melhor inteligência artificial e automação;

⛏️ quem garantirá acesso a lítio, níquel, grafite e terras raras;

🏭 quem conseguirá produzir em escala;

🌎 quem controlará os mercados emergentes.

E existe uma camada ainda mais profunda.

Automóveis tornaram-se instrumentos de política industrial e geopolítica.

Estados Unidos, União Europeia, China, Japão, Coreia do Sul e outros países passaram a utilizar subsídios, tarifas, exigências regulatórias, incentivos fiscais e política tecnológica para proteger ou estimular suas indústrias.

O carro deixou de ser apenas um produto.

Tornou-se um ativo estratégico.


🇧🇷 E O BRASIL? ESTA PODE SER UMA DAS DECISÕES INDUSTRIAIS MAIS IMPORTANTES DAS PRÓXIMAS DÉCADAS

O Brasil possui algumas vantagens difíceis de reproduzir:

✅ mercado interno superior a 200 milhões de habitantes;

✅ cadeia automotiva consolidada;

✅ parque industrial diversificado;

✅ matriz elétrica relativamente renovável;

✅ experiência mundial com etanol;

✅ disponibilidade de minerais estratégicos;

✅ proximidade dos mercados latino-americanos;

✅ capacidade de produção de veículos flex e híbridos-flex.

Isso cria uma oportunidade peculiar.

O Brasil não precisa simplesmente copiar o modelo chinês, europeu ou americano.

Pode construir uma trajetória própria combinando:

⚡ eletrificação;

🌱 biocombustíveis;

🔋 baterias;

🚘 híbridos;

🏭 produção local;

🌎 exportação regional.

O exemplo do híbrido plug-in flex desenvolvido para produção no Brasil mostra que essa convergência tecnológica já começou.

A questão será transformar essas vantagens potenciais em:

produtividade;

engenharia local;

pesquisa e desenvolvimento;

cadeias de fornecedores;

exportação;

empregos de alta qualificação.

Sem isso, o país corre o risco de continuar sendo grande mercado consumidor, mas perder densidade tecnológica.


⏳ DEZESSETE ANOS DEPOIS, O VEREDITO

Em 2009 escrevemos:

“Crise pode gerar novo mapa global do setor automotivo.”

Hoje podemos retirar a palavra “pode”.

🚨 A crise gerou um novo mapa global.

General Motors foi reorganizada.

Chrysler foi absorvida pela Fiat.

Fiat e PSA acabaram reunidas na Stellantis.

Toyota conquistou a liderança mundial.

China ultrapassou todos os concorrentes em escala industrial.

BYD emergiu como potência global.

Veículos elétricos chegaram a um quarto das vendas mundiais em 2025.

Na China, chegaram a aproximadamente 55%.

BYD e GWM passaram a fabricar veículos no Brasil.

E o mercado brasileiro caminha novamente para superar os 3 milhões de veículos emplacados em 2026, segundo projeção da Anfavea.

Mas existe uma ironia.

O mapa que surgiu depois de 2009 já está envelhecendo.

Porque uma nova transformação está acontecendo agora.

Em 2009, a crise derrubou velhas estruturas financeiras.

Em 2026, tecnologia, eletrificação e China estão derrubando antigas fronteiras industriais.

Talvez, quando este texto for relido daqui a outros 17 anos, em 2043, a indústria automobilística seja novamente quase irreconhecível.

A história do automóvel sempre foi uma história de transformação.

Só que desta vez a velocidade é inédita.

🚗➡️⚡➡️💻➡️🤖

O carro está deixando de ser apenas uma máquina.

Está se transformando em uma plataforma tecnológica, energética e digital.

E essa mudança poderá redesenhar não apenas quais empresas vendem mais automóveis.

Poderá determinar quais países liderarão uma das indústrias mais importantes da economia mundial nas próximas décadas.


🔎 Termos relacionados para pesquisa

Indústria automotiva 2026; mercado automotivo mundial; indústria automobilística brasileira; carros elétricos 2026; China indústria automotiva; BYD Brasil; fábrica BYD Camaçari; GWM Brasil; Toyota maior montadora do mundo; General Motors; Volkswagen; Stellantis; Fiat Chrysler; Peugeot; veículos elétricos China; produção de veículos Brasil 2026; vendas de carros Brasil 2026; futuro da indústria automobilística; carros chineses no Brasil; mercado de veículos elétricos; revolução dos carros elétricos.

📌 Descrição sugerida para o Google/Blogger

Em 2009 previmos que a crise mudaria o mapa mundial dos automóveis. Em 2026, China lidera a produção, Toyota domina as vendas, BYD e GWM fabricam no Brasil e os elétricos já representam 1 em cada 4 carros vendidos no mundo. Veja o que acertamos, o que mudou e quem dominará a próxima era do automóvel.

🏷️ Marcadores: Indústria Automotiva, Mercado Automotivo, Carros Elétricos, China, BYD, Toyota, Volkswagen, General Motors, Stellantis, Brasil, Economia, Tecnologia, Indústria Brasileira, Automóveis, Mobilidade Elétrica, Geopolítica

Livro Leviatã Fraturado e a Fragmentação do Poder: As Rupturas do Poder e da Governança

Livro Leviatã Fraturado

A Fragmentação do Poder

As Rupturas do Poder e da Governança 

🌍 Leviatã Fraturado: Uma Obra Essencial para Entender e Transformar o Século XXI 📘✨

Vivemos em tempos de incerteza e transformação. As estruturas de poder que um dia pareciam imutáveis estão agora fragmentadas, remodeladas por forças globais, avanços tecnológicos e crises que desafiam a capacidade humana de resposta. É nesse contexto que surge o livro Leviatã Fraturado e a Fragmentação do Poder: As Rupturas do Poder e da Governança, de Ricardo Menegussi Pereira, uma obra essencial para quem busca compreender o presente e imaginar futuros mais justos, inclusivos e sustentáveis.

Pense no impacto das plataformas digitais: mais de 5 bilhões de pessoas conectadas, interagindo, criando e consumindo informações. Mas você já refletiu sobre como esses ambientes virtuais moldam nossas subjetividades, transformam desejos em mercadoria e consolidam o poder de grandes corporações? Estima-se que, em 2021, a economia dos dados tenha movimentado mais de 3 trilhões de dólares globalmente. Como isso afeta nossa liberdade? O Leviatã Fraturado responde a essas e outras questões, mergulhando fundo nas dinâmicas do capitalismo de vigilância e nas novas formas de controle social.

Mas o livro vai além das plataformas digitais. Ele desvenda as interconexões entre economia, política, tecnologia e meio ambiente. Sabia que mais de 76% da riqueza mundial está concentrada entre os 10% mais ricos? Ou que 1 trilhão de dólares em subsídios foi direcionado a combustíveis fósseis em 2022, enquanto o planeta enfrenta níveis sem precedentes de aquecimento global? Ricardo Menegussi Pereira apresenta uma análise corajosa desses dados, mostrando como as desigualdades econômicas e a degradação ambiental são mantidas por um sistema que beneficia poucos em detrimento de muitos.

E os desafios não param por aí. Crises climáticas já forçaram mais de 40 milhões de deslocamentos em 2022. Enquanto governos debatem e corporações priorizam lucros, comunidades enfrentam desastres e perda de direitos. Mas onde há crise, há resistência. Movimentos como o Black Lives Matter, Fridays for Future e mobilizações indígenas em defesa de seus territórios mostram que a luta continua. O Leviatã Fraturado nos leva a compreender como essas ações locais têm potencial global, conectadas por redes digitais e movidas por uma busca por justiça.

Essa obra não é apenas um diagnóstico; é um chamado à ação. Com base em pensadores como Deleuze, Guattari, Mbembe e Haraway, o autor nos convida a repensar conceitos como soberania, democracia e solidariedade. Como resistir a sistemas tão complexos? Como imaginar futuros mais equilibrados? O livro apresenta caminhos, estratégias e reflexões para quem deseja transformar o mundo ao seu redor.

Seja você um pesquisador, ativista ou apenas alguém curioso sobre os desafios do século XXI, O Leviatã Fraturado é uma leitura indispensável. Ricardo Menegussi Pereira oferece uma perspectiva crítica e inspiradora que une dados, teoria e prática, conectando questões globais a soluções locais. Este livro é para quem acredita que é possível fazer a diferença, para quem quer ir além das manchetes e compreender as forças invisíveis que moldam nossas vidas.

💡 Por que você deve ler O Leviatã Fraturado?

Descubra como o poder está se reconfigurando em um mundo digital e globalizado.

Entenda o impacto das mudanças climáticas e das desigualdades econômicas.

Inspire-se em movimentos sociais que resistem e reimaginam o futuro.

Amplie sua visão sobre governança, democracia e solidariedade.

📚 Não se trata apenas de leitura, mas de reflexão, empoderamento e ação.

⚡ O Leviatã Fraturado está disponível agora. Junte-se a esta conversa urgente e necessária. Este é o momento de compreender e agir. Não perca essa oportunidade de ampliar seus horizontes e fazer parte da mudança que o mundo precisa. 🌱💡

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🌟 Porque compreender o presente é o primeiro passo para construir um futuro mais justo e inclusivo. O Leviatã Fraturado é o guia que você precisa para enfrentar os desafios do século XXI. A hora de agir é agora. 💬✨

O livro Leviatã Fraturado, de Ricardo Menegussi Pereira, é uma obra monumental que explora, com profundidade e rigor, as dinâmicas de poder e governança que definem o século XXI. Em um mundo marcado pela interseção entre crises ambientais, desigualdades econômicas e avanços tecnológicos, o livro se destaca como uma análise abrangente das transformações que fragmentaram o modelo tradicional de soberania e deram origem a novas formas de controle e resistência. Pereira oferece ao leitor uma cartografia das forças políticas, sociais e culturais que operam globalmente, articulando dados, estatísticas e conceitos filosóficos para ilustrar as complexidades do presente. Este é um livro que transcende categorias acadêmicas e fala diretamente a estudiosos, ativistas e cidadãos interessados em compreender as forças que moldam suas vidas e o futuro do planeta.

Com base em uma abordagem interdisciplinar, Pereira reúne reflexões oriundas da filosofia, ciência política, sociologia, ecologia e tecnologia. A obra examina como a globalização, ao longo das últimas décadas, redefiniu a dinâmica do poder. Estima-se que mais de 80% do comércio global seja dominado por empresas transnacionais, enquanto a concentração de riqueza entre os 1% mais ricos do mundo continua a aumentar, representando 45% da riqueza global total em 2023. Esse cenário é agravado pela ascensão do capitalismo de vigilância, que utiliza plataformas digitais para capturar dados e controlar subjetividades. Com mais de 5 bilhões de usuários de internet globalmente, a economia de dados já ultrapassa os 3 trilhões de dólares anuais, tornando a exploração digital uma nova fronteira de acumulação de capital. Pereira explora essas questões detalhadamente, mostrando como algoritmos e inteligência artificial reconfiguram os limites entre público e privado, real e virtual, autonomia e vigilância.

O livro não apenas descreve as forças que moldam o mundo, mas também investiga suas consequências para a soberania e a subjetividade. A fragmentação do poder estatal é analisada em paralelo com o crescimento de formas descentralizadas de controle. Pereira utiliza como exemplo os desafios enfrentados por Estados-nação ao lidar com crises transnacionais como pandemias e mudanças climáticas. A gestão do aquecimento global, por exemplo, exige ações coordenadas entre governos, empresas e organizações internacionais, mas as emissões globais de carbono continuam a aumentar, ultrapassando 37 bilhões de toneladas anuais. Essa incapacidade de agir eficazmente ilustra as limitações das estruturas tradicionais de governança, que foram eclipsadas por redes supranacionais de influência que frequentemente priorizam interesses econômicos em detrimento do bem-estar coletivo.

O impacto da tecnologia é outro tema central do livro, que dedica atenção especial às implicações éticas e políticas do capitalismo digital. As plataformas de redes sociais, que agora reúnem bilhões de usuários, têm um papel significativo na disseminação de desinformação e na manipulação de opiniões públicas. Estudos recentes apontam que mais de 60% dos usuários de internet em países em desenvolvimento foram expostos a campanhas de desinformação política durante eleições, o que demonstra como as tecnologias podem ser usadas como ferramentas de controle ideológico. Pereira argumenta que essas plataformas não apenas reproduzem as desigualdades existentes, mas também criam novas formas de exclusão, monetizando a atenção e os dados de usuários enquanto consolidam o poder de grandes corporações.

A dimensão ambiental do livro não é menos contundente. Pereira analisa como a exploração de recursos naturais e a degradação ambiental estão intimamente ligadas às estruturas de poder global. Em um mundo onde a perda de biodiversidade já ultrapassou 68% das populações de vertebrados desde 1970, e onde mais de 1 bilhão de pessoas enfrentam insegurança hídrica, o autor propõe uma reflexão sobre a necessidade de modelos mais sustentáveis de governança. O livro destaca como o capitalismo globalizado depende da extração contínua de recursos e da externalização de custos ambientais para as comunidades mais vulneráveis. Pereira ressalta que, em 2022, os subsídios aos combustíveis fósseis ultrapassaram 1 trilhão de dólares globalmente, contradizendo os esforços internacionais para promover fontes de energia renováveis e mitigação climática.

Ao mesmo tempo, o livro Leviatã Fraturado é também um livro sobre resistência. Pereira explora como movimentos sociais contemporâneos, como o Black Lives Matter, as mobilizações indígenas e os protestos ambientais globais, oferecem exemplos de como contestar e reconfigurar relações de poder. Embora fragmentados e frequentemente enfrentando repressão, esses movimentos demonstram a importância da micropolítica e das ações locais como formas de resistência em um mundo globalizado. Pereira analisa como essas iniciativas estão conectadas por redes digitais e por um desejo comum de justiça social, mas também reconhece os desafios impostos pela fragmentação das narrativas políticas e pela instrumentalização das tecnologias de comunicação.

A obra se destaca por sua capacidade de combinar análises teóricas com dados concretos, oferecendo um panorama detalhado e multifacetado das forças que moldam o mundo contemporâneo. Pereira não se limita a criticar as dinâmicas de poder, mas propõe caminhos para imaginar alternativas. Ele enfatiza a necessidade de uma nova governança que respeite a pluralidade, enfrente as desigualdades estruturais e promova a sustentabilidade. O autor argumenta que, diante das crises interconectadas que enfrentamos, desde mudanças climáticas até a ascensão de governos autoritários, é essencial desenvolver práticas democráticas inovadoras e redes de solidariedade global que possam oferecer respostas resilientes.

O livro Leviatã Fraturado é mais do que um livro, é um guia para compreender e agir em um mundo em rápida transformação. Seja você um pesquisador, um ativista ou alguém interessado em entender as forças que moldam nosso presente, esta obra oferece uma perspectiva abrangente e instigante sobre as relações de poder que definem nosso tempo. Em tempos de incerteza e crises, Pereira nos lembra da importância de refletir criticamente, resistir criativamente e imaginar futuros mais inclusivos, justos e sustentáveis. Este é um livro essencial para todos que buscam não apenas compreender o mundo, mas também transformá-lo.