Companhias contabilizam queda de até 40% do faturamento; agências de viagens vendem passagens apenas de retorno
O crescimento de apenas 0,1% da economia espanhola no primeiro trimestre e o cenário conturbado dos últimos tempos têm ampliado a percepção de crise dos brasileiros que têm negócios no país. Há quem contabilize perda de 40% no faturamento, sem recuperação no horizonte. Esses empreendedores tentam, contudo, superar as dificuldades com criatividade.
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Imagem interna do Rubayat Madrid: número de clientes na filial caiu 15%
No Rubayat Madrid, a queda no número de clientes é de 15%. O declínio ocorreu principalmente pela falta de espanhóis e estrangeiros na casa, já que brasileiros saudosos da carne da terra natal não compõem o perfil dos freqüentadores do restaurante.
Apesar da queda, o Rubayat – cujo patriarca, Belarmino Iglezias, emigrou da Galícia em 1951 - não pensa em descontos. “O objetivo do Rubayat é a qualidade”, afirma o diretor espanhol, Fernando Lopez, que dá continuidade ao enxugamento da cadeia de fornecedores do restaurante. A filial, inaugurada em 2006, recebeu investimentos de seis milhões de euros (ou pouco mais de R$ 13 milhões, em valores de hoje) e representa a vontade dos Rubayat de repetir na Espanha o sucesso alcançado no Brasil.
Há seis meses, a Colcci também tem sentido o impacto da crise. Segundo fontes na Espanha, ela teve problemas com a distribuição, feita pelo sócio local, a empresa Anthurium Textile International, e fechou showroom em Barcelona. A distribuição em território espanhol é agora realizada pela Tribesman. Procurada por email no Brasil, a responsável pela área internacional da Colcci, Judith Padoan, disse que o assunto é confidencial.
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Vários meses de queda da atividade econômica também prejudicaram pequenos empresários do setor têxtil. A lojista Laura de Fátima Martinez Gonzales, proprietária de duas lojas Zapping em Castelldefels (cidade litorânea da Catalunha), renegociou o aluguel no shopping local pagando 25% menos, desde que as vendas caíram 40%.
“Demiti funcionárias e voltei a trabalhar diariamente na loja. Reduzimos despesas de telefone, principalmente as internacionais, mas estou aguentando melhor do que os espanhóis", afirma. "Muitas lojas têm fechado. Os espanhóis veem que não estão vendendo e desistem. Eles não têm muita criatividade”, afirma a empresária brasileira, que vive há mais de dez anos na Espanha.
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Contraponto: com loja inaugurada em Barcelona neste ano, Havaianas registra vendas "acima das expectativas"
Medo de gastar
A Zapping, especializada na marca Gang, tinha clientes brasileiros, mas a freqüência minguou. “Amigos e companheiros estão voltando ao Brasil. A maior parte dos meus clientes é de espanhóis, mas eles estão com medo de gastar. A crise continua, mas manterei minhas lojas. Meu filho pequeno estuda em uma boa escola e me sinto segura na Espanha”, afirma Laura.
Em Barcelona, a agência de turismo Viajes Unibras registrou apenas o crescimento da venda de passagem para América Latina sem volta para Espanha. São brasileiros, bolivianos e equatorianos sem seguro-desemprego e que não conseguem recolocação – a taxa de desemprego está em 20%. Os destinos procurados pelos sem-volta são Brasília, Ji-Paraná (RO), Porto Velho, Goiânia e São Paulo. Segundo a proprietária, Bruna Fonseca, a venda de passagens sem data para retorno representa 30% do faturamento. A agência também cortou gastos de publicidade e busca novos roteiros.
Há casos que são o contraponto do pessimismo. A Alpargatas abriu loja Havaianas em Barcelona neste ano, na central Praça Catalunya, ponto muito frequentado por turistas. Segundo a diretora de sandálias, Carla Schmitzberger, 12 lojas da tradicional rede El Corte Inglês têm áreas dedicadas à Havaianas e as vendas na nova loja estão acima da expectativa.
Sandra Silva, especial para o iG, de Barcelona
http://economia.ig.com.br/crise+afeta+empresas+brasileiras+na+espanha/n1237637846625.html