As empresas brasileiras que buscam crédito no mercado começam a respirar mais aliviadas diante dos indícios de retomada da oferta, capitaneada pelos bancos públicos, desde o início do ano. O cenário está longe do céu de brigadeiro existente antes da crise financeira global – e os juros estão mais altos do que no período pré-turbulência –, mas as perspectivas de regularização da oferta para o segundo semestre e para o ano que vem são otimistas. O crédito flui com mais facilidade na direção de setores como indústria, construção civil e infraestrutura, mas eles não são os únicos a obter empréstimos na praça. Transportadoras, distribuidoras de combustível, varejistas, restaurantes, entre empresas de outros ramos da atividade, também estão voltando a ter acesso ao crédito.
Daniel Ballesteros, dono do restaurante Tradição de Minas, tentou pegar um empréstimo em bancos públicos e privados em dezembro do ano passado para abertura de mais um unidade no estacionamento do Minas Shopping, inaugurada no início de março. Teve que desistir por causa das dificuldades de oferta e dos juros elevados. Com a redução da Selic, resolveu voltar a tentar. Tomou R$ 300 mil – R$ 100 mil na Caixa Econômica Federal e R$ 200 mil no Banco Real – para finalizar o projeto. “Mudamos a estratégia. Resolvemos terminar o investimento com capital bancário até nos recapitalizarmos”, explica.
Na Ultrapress Cargas o proprietário, Sérgio Roberto Ameida Caldeira, afirma que tem tomado crédito para capital de giro normalmente. São cerca de R$ 500 mil ao mês que ajudam a empresa a manter suas operações, uma vez que o movimento caiu cerca de 15% por causa da crise.
O grupo Uniparh, dono da Cachaça Germana, da cachaçaria Alambique, do chopp Germana e do Botequim Mineiro, também recorreu ao crédito este ano para investir e movimentar o seu negócio. Segundo o diretor-executivo, Henrique Michel, foram R$ 2 bilhões em empréstimos destinados, principalmente, para o lançamento do chopp e a abertura do botequim. “Contratamos linhas específicas para a aquisição de máquinas e equipamentos no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e recursos para capital de giro em bancos privados”, diz.
Dados do Banco Central (BC) mostram que, entre janeiro e abril de 2009, os empréstimos concedidos às empresas com recursos livres e direcionados, que englobam a banca pública e a privada, além das instituições de fomento, cresceram 1,7% ante igual período do ano passado. Esse número, ancorado no estímulo dos bancos públicos, acabou funcionando como um empurrão para que a banca privada também voltasse a emprestar a juros mais competitivos. Entre janeiro e maio deste ano, o Banco do Brasil incrementou o montante liberado para micro, pequenas e médias empresas em Minas em 60% em comparação com igual período do ano passado.
De fevereiro a maio, a Caixa Econômica Federal expandiu a oferta de crédito para pessoas jurídicas no estado – antecipação de recebíveis, reformas e ampliação, contratações e folha de pagamento, entre outras modalidades – em R$ 1,1 bilhão. “Partindo do princípio de que não haverá uma nova onda da crise internacional, esperamos que a oferta de crédito seja normalizada até o fim do ano, mas o custo não voltará a ser como antes. No caso dos bancos privados, com recursos livres , o crédito está voltando a fluir bem para as pessoas físicas. Para as empresas, apresenta alguma melhora”, avisa Júlio Sérgio Gomes de Almeida, professor de economia da Unicamp. Na avaliação dele, o descompasso entre a normalização da oferta para pessoas físicas e jurídicas pode ser explicada pelo temor que os bancos têm de que as empresas venham a enfrentar problemas de recebimento de seu dinheiro. “É por isso que o crédito nessa área ainda está travado”, justifica.
Gilberto Borça e Pedro Quaresma, economistas do BNDES, afirmam que de outubro do ano passado a abril deste ano os bancos públicos foram responsáveis por 80% do incremento do crédito na economia – 38% ofertados pelo BNDES e 32% pela Caixa e pelo BB. O restante ficou por conta da banca privada. Segundo eles, depois de setembro houve uma espécie de pânico no mercado de crédito, principalmente para pequenas e médias empresas.
Crédito para empresas começa a voltar
Ricardo Meper
RICARDO MEPER
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