Geórgea Choucair - Estado de Minas
Beto Magalhães/EM/D.A Press
A motogirl Maria Helena Alves garante: andar de rosa ajuda nos negócios.
“Marido de aluguel e fiel. Cristão, aposentado, cliente ativo de banco desde 1978 e residente há mais de 30 anos em casa própria. Não fumante e com referências.” Essa foi a forma que Mauro Lúcio da Costa encontrou para vender seus serviços no cartão de visitas. Ele faz consertos e manutenção em casas, como retoques de pintura, reparos de fogões, máquinas de lavar, pequenos acertos em paredes e troca de lâmpada. Marido de aluguel, segundo Costa, é uma profissão. “Surgiu há mais de 20 anos na Inglaterra. Muitos maridos não têm vocação ou tempo para pequenos reparos no lar. Foi aí que decidi entrar na profissão”, afirma.
Costa faz parte do total de 401 mil trabalhadores por conta própria da Região Metropolitana de Belo Horizonte, segundo dados de julho divulgados na quinta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Eles representam 16,7% do total da população ocupada (2,4 milhões de pessoas com 10 anos ou mais). Assim como o marido de aluguel, muitos trabalhadores informais começam a usar estratégias inusitadas para vender o próprio serviço. No Bairro Mangabeiras, Zona Sul de BH, Marcelino Roberto de Souza usa terno e gravata para vender diariamente pano de prato na rua. A motogirl Maria Helena Nestor Alves entrou para um espaço que antes era exclusivo dos homens (os motoboys) e com muito charme. Circula pelas ruas toda cor-de-rosa.
De junho a julho deste ano, o número de trabalhadores por conta própria na Grande BH aumentou em 9 mil pessoas, segundo o IBGE. “Esse aumento não é considerado tão expressivo. No início do ano, com a alta do desemprego, o número de trabalhadores por conta própria pode ter crescido”, afirma Adriana Beringuy, economista técnica da Pesquisa Mensal de Emprego (PME).
Nas seis regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE, a taxa de desemprego recuou pelo quarto mês seguido em julho. O indicador, que havia ficado em 8,1% em junho, caiu para 8% em julho, movimento que o IBGE considera estável. A taxa é a menor desde os 6,8% registrados em dezembro do ano passado. Na comparação com julho de 2008, também houve relativa estabilidade: naquele mês, a taxa de desemprego também havia sido de 8,1%. Ainda que os dados estejam melhores, ainda há muita gente fora desses indicadores.
Pink
Os trabalhadores por conta própria são as pessoas que trabalham sozinhas, sem ter funcionário. Assim como as empresas, eles estão usando a criatividade para atrair o cliente. Rosinha ou Penélope Charmosa, como é conhecida no meio, não passa pela rua sem ser notada. A ex-manicure Maria Helena Nestor Alves se veste diariamente de rosa para ir ao trabalho. Seu veículo, a moto, também vai a caráter. É toda pintada de rosa, assim como o capacete. Os apelidos ela ganhou na rua. Mas parece não se incomodar. Tanto é que o adesivo da Penélope está na sua moto.
A decisão de pintar a moto de rosa veio para inibir os ladrões, depois de ter três motos roubadas. Sem querer, essa foi sua grande estratégia de marketing. ”Depois é que percebi que gostava da cor, pois tinha um tanto de produto rosa em casa. Aí passei a vestir de rosa. Nunca mais roubaram minha moto”, diz. Antes de entrar para a profissão, ela era manicure e ia atender a freguesia de bicicleta. Para enfrentar os morros, comprou uma moto. “Aí as clientes começaram a pedir para fazer entregas pelo caminho. Comecei a cobrar. Hoje, trabalho praticamente só com entrega. Eu quero mostrar para o mundo que a vida não é tão cruel. O mundo é cor-de-rosa”, diz. Deu certo. Este vai ser o seu décimo ano na profissão de motogirl, um segmento muito competitivo na capital e dominado em grande parte pelos homens.