A concorrência e as transformações de um consumidor insaciável impõem desafios que vão além da luta de quem escolhe viver do negócio próprio para conseguir administrar numa economia de tantos sobressaltos como no Brasil. “O brasileiro não tem cultura de planejamento nem para a sua vida, muito menos para os negócios”, alerta Ricardo Pereira, gerente da unidade de educação, empreendedorismo e cooperativismo do Sebrae Minas. Passo fundamental da caminhada, esse plano de ação tem de definir a vida da nova empresa, ou corrigir rumos para driblar uma competição que não respeita o tamanho dos jogadores.
O engenheiro Márcio Kac, dono da empresa familiar Simper Parafusos, de Contagem, na Grande Belo Horizonte, percebeu a necessidade de investir em qualificação justamente quando provocado por um parceiro comercial que passou a atuar no exigente setor de petróleo e gás. Para participar das compras desse seleto grupo de investidores comandado pela Petrobras, a produção teria de alcançar níveis muito altos de qualidade, o que levaria a uma mudança de cultura dentro da Simper. “Levamos quase três anos para obter a ISO 9001/2008, mas agora a qualificação será contínua. Se pararmos, o mínimo que vai acontecer é que seremos engolidos pelos concorrentes”, afirma.
Para Fernando Dolabela, da Fundação Dom Cabral (FDC), a melhor estratégia para driblar a concorrência é a de oferecer produtos ou serviços inovadores. “O melhor é sempre apostar em algo que não existe”, orienta. Na opinião do gerente da Faculdade de Tecnologia do Comércio da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL/BH), Alexandre França, “quem investe em cursos de formação e aperfeiçoamento tem mais capacidade de desenvolver visão estratégica”, reforça.
O Instituto Centro Cape, braço do Mãos de Minas, maior central de cooperativas de artesãos do estado, foi buscar inspiração na eficiência das linhas de produção da indústria, ao desenvolver o selo IQS, concedido em parceria com a Organização Instituto de Qualidade Sustentável. O certificado é fruto da implantação de um programa que profissionaliza o processo de produção do artesanato, explica Tânia Machado, presidente do Centro Cape. O artesão aprende todas as etapas de um negócio que se torna economicamente viável, desde a formação correta dos preços à reutilização de sobras, numa conduta adequada do ponto de vista da preservação do meio ambiente, exigência do consumidor. Os consultores do programa estimam ganho de 30% da produção, além da melhora da qualidade, resultado que pode ser maior, como o verificado pela artesã Carla Ramos Silva.
A grande procura por informações e orientações nas instituições ligadas ao empreendorismo reflete essa necessidade, afinal, cerca de metade das pequenas empresas abertas no Brasil acaba fechando as portas antes de completarem o segundo ano de vida. Até mesmo as dificuldades como o caixa para bancar a iniciativa também podem estar ligadas à falta de planejamento, já que sem noções sobre gestão o candidato a dirigir o negócio próprio não terá como traçar corretamente o investimento necessário e o capital de giro. A cada 100 brasileiros, 12 realizavam em 2007 alguma atividade empreendedora e o valor médio de recursos apontados para dar largada ao negócio foi estimado em R$ 29 mil, segundo a pesquisa GEM 2008.
Plano de ação deve definir a vida da nova empresa ou corrigir os rumos da antiga para enfrentar a concorrência