O Copom discutiu a condução da política monetária, levando em consideração as projeções analisadas e o balanço de riscos para a inflação futura 255ª Reunião junho 2023

 Resumo: Atas do Comitê de Política Monetária - Copom

255ª Reunião - 20-21 junho, 2023

Data de publicação: 27/06/2023

O Copom discutiu a condução da política monetária, levando em consideração as projeções analisadas e o balanço de riscos para a inflação futura.

A conjuntura atual, com expectativas desancoradas e um processo desinflacionário mais lento, exige prudência na condução da política monetária.

O Comitê concorda que flexibilizações prematuras podem levar a uma reversão do processo de desinflação e prejudicar a credibilidade da política monetária e as condições financeiras.

Houve divergência entre os membros do Comitê em relação aos próximos passos da política monetária. Alguns acreditam que a continuação do processo desinflacionário pode permitir um início gradual de flexibilização na próxima reunião, enquanto outros são mais cautelosos, enfatizando a necessidade de reancorar as expectativas de inflação de longo prazo e acumular mais evidências de desinflação nos componentes sensíveis ao ciclo.

O Comitê analisou os determinantes da política monetária e não identificou grandes mudanças no cenário prospectivo. O hiato do produto deve se abrir lentamente, a atividade econômica apresentou crescimento no primeiro trimestre, impulsionado pelo setor agropecuário, e os núcleos de inflação mostraram uma desaceleração gradual. As expectativas de inflação recuaram, mas ainda estão desancoradas. O Comitê destaca a importância de reancorar as expectativas para acelerar o processo de desinflação. As projeções de inflação do Copom foram revisadas para baixo, principalmente devido à redução das expectativas de inflação. Em relação ao balanço de riscos, a incerteza em relação ao arcabouço fiscal é residual e parte do risco de baixa relacionado aos preços das commodities já se materializou.

O ambiente externo permanece adverso, com tensões nos bancos dos EUA e Europa e aperto nos mercados de crédito americanos, impactando negativamente o crescimento.

Bancos centrais ao redor do mundo estão empenhados em trazer a inflação para suas metas, em um cenário onde a inflação se mostra resiliente. Há sinais de estabilização da inflação em patamares superiores às metas em diversos países, indicando a persistência do processo inflacionário atual.

No Brasil, indicadores recentes sugerem uma desaceleração gradual da economia. O PIB do primeiro trimestre de 2023 surpreendeu positivamente, com destaque para a agropecuária. O mercado de trabalho tem mostrado resiliência, com aumento no número de empregos e estabilidade na taxa de desemprego.

A inflação ao consumidor reduziu recentemente, com destaque para bens industriais e alimentos. As expectativas de inflação para 2023 e 2024 estão em torno de 5,1% e 4,0%, respectivamente.

No cenário de referência, a taxa de juros é extraída da pesquisa Focus e a taxa de câmbio parte de USD/BRL 4,852. As projeções de inflação do Copom são de 5,0% para 2023 e 3,4% para 2024.

O Comitê decidiu elevar a estimativa de taxa de juros real neutra de 4,0% a.a. para 4,5%, considerando diversos fatores, incluindo a possível elevação das taxas de juros neutras nas principais economias e a resiliência na atividade brasileira.

A conjuntura internacional se mostra mais benigna para o processo inflacionário no Brasil, mas pressões inflacionárias devem demorar a se dissipar. Fatores que podem reduzir as pressões inflacionárias externas incluem a determinação dos bancos centrais com o controle da inflação e a dinâmica recente da taxa de câmbio e do preço das commodities internacionais.

Os dados de atividade no Brasil indicam desaceleração nos setores mais sensíveis ao ciclo econômico, com exceção do forte crescimento do setor agropecuário.

O Comitê debateu os dados recentes do mercado de trabalho, que mostram aumento do emprego e estabilidade na taxa de desemprego, mas com menor taxa de participação em relação ao período pré-pandemia.

O Comitê avalia que a dinâmica da desinflação segue caracterizada por um processo com dois estágios distintos, demandando serenidade e paciência na condução da política monetária.

O Comitê enfatizou o comportamento benigno recente nos preços de atacado, tanto na parte de alimentos quanto na parte de industriais.

A 255ª Reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) ocorreu nos dias 20 e 21 de junho de 2023. Durante a reunião, foram discutidos os seguintes pontos:

Ambiente externo adverso: O estresse nos bancos dos EUA e Europa diminuiu, mas ainda requer monitoramento. Os mercados de crédito nos EUA estão apertados, o que pode ter impactos negativos no crescimento.

Bancos centrais e inflação: Os bancos centrais das principais economias estão determinados a convergir as taxas de inflação para suas metas, apesar da inflação persistente. Alguns países retomaram o ciclo de aumento de juros e sinalizaram um período prolongado de juros elevados para combater a pressão inflacionária.

Situação econômica doméstica: Indicadores recentes sugerem uma desaceleração gradual. O PIB do primeiro trimestre de 2023 teve desempenho positivo, impulsionado principalmente pela agropecuária, mas com menor dinamismo nos setores mais cíclicos da economia. O mercado de trabalho mostra resiliência, com aumento líquido de empregos e estabilidade na taxa de desemprego, mas houve redução na taxa de participação.

Inflação: A inflação ao consumidor diminuiu recentemente, principalmente em bens industriais e alimentos. Os componentes mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária mostraram alguma melhora, mas ainda estão acima do intervalo compatível com a meta de inflação. As expectativas de inflação para 2023 e 2024 estão em torno de 5,1% e 4,0%, respectivamente.

Na análise de cenários e riscos realizada durante a 255ª Reunião do Copom, os seguintes pontos foram destacados:

Cenário de referência: Foram estabelecidas projeções para a taxa de juros, taxa de câmbio, preço do petróleo e bandeira tarifária. As projeções de inflação do Copom situam-se em 5,0% para 2023 e 3,4% para 2024. As projeções para a inflação de preços administrados são de 9,0% para 2023 e 4,6% para 2024.

Taxa de juros neutra: O Comitê decidiu elevar a estimativa da taxa de juros real neutra de 4,0% a.a. para 4,5%, com base em fatores como possíveis aumentos nas taxas neutras de juros em outras economias e a resiliência da atividade brasileira em um ambiente de inflação em desaceleração.

Conjuntura internacional e pressões inflacionárias: A conjuntura internacional mostra-se um pouco mais favorável para a inflação no Brasil, mas a inflação corrente elevada e disseminada no setor de serviços, juntamente com o baixo grau de ociosidade do mercado de trabalho em algumas economias, sugere que as pressões inflacionárias persistirão. No entanto, alguns fatores, como a determinação dos bancos centrais em manter condições financeiras mais restritivas e a dinâmica da taxa de câmbio e dos preços das commodities, podem reduzir as pressões inflacionárias externas.

Dados de atividade econômica: Os dados indicam desaceleração nos setores mais sensíveis ao ciclo econômico, com exceção do setor agropecuário que apresentou forte crescimento. Espera-se que o processo de moderação do crescimento nos setores mais cíclicos da economia se aprofunde nos trimestres seguintes.

Mercado de trabalho: Houve aumento do emprego formal, mas a taxa de desemprego se mantém relativamente estável, com menor taxa de participação em comparação com o período pré-pandemia. O Comitê debateu os motivos para a queda da taxa de participação e observou o movimento de recomposição parcial dos salários reais, acompanhado de desaceleração nos ganhos nominais.

Processo de desinflação: O Comitê avalia que o processo de desinflação ocorre em dois estágios distintos. No primeiro estágio, já encerrado, a velocidade de desinflação foi maior. No segundo estágio, atualmente observado, a velocidade de desinflação é menor, com os núcleos de inflação respondendo mais ao hiato do produto e às expectativas de inflação futura. O Comitê reafirma a necessidade de serenidade e paciência na condução da política monetária para garantir a convergência da inflação para as metas estabelecidas.

O Comitê destaca que houve um comportamento favorável nos preços de atacado, tanto nos alimentos quanto nos bens industriais. No caso dos alimentos, questões logísticas, condições climáticas favoráveis e uma boa safra contribuíram para uma revisão nas perspectivas de preços para 2023 e, em menor medida, para 2024. No entanto, existe incerteza em relação ao impacto do fenômeno El Niño em 2024. Quanto aos bens industriais, os preços no atacado, juntamente com a normalização das cadeias de suprimento, também levaram a uma revisão na dinâmica desses setores. O Comitê acredita que a consolidação dessas dinâmicas contribui para o processo de desinflação e pode ter um impacto indireto nos demais itens. Em relação à trajetória da inflação ao consumidor em 2023, espera-se uma continuidade na queda da inflação acumulada em doze meses durante o segundo trimestre, devido ao efeito base do ano anterior. No entanto, é esperado um aumento na inflação acumulada no segundo semestre de 2023, devido à exclusão do efeito das medidas tributárias que reduziram os preços no terceiro trimestre de 2022, bem como aos efeitos das medidas tributárias deste ano. O Copom destaca que continuará acompanhando a dinâmica inflacionária por meio de medidas de inflação subjacente, que refletem melhor a tendência da inflação atual e futura.

As expectativas de inflação continuam desancoradas das metas estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional, embora tenha havido uma pequena redução na desancoragem recentemente. O Comitê avalia que expectativas desancoradas aumentam o custo de trazer a inflação de volta à meta. O comportamento das expectativas é considerado fundamental para o processo inflacionário, pois orienta os reajustes de preços e salários atuais e futuros. Com o aumento das expectativas, há uma maior pressão para o aumento dos preços no período atual, alimentando o processo inflacionário. A ancoragem das expectativas é considerada essencial para a estabilidade de preços. Portanto, o Comitê reforça que decisões que promovam a ancoragem das expectativas e aumentem a confiança nas metas de inflação contribuiriam para um processo de desinflação mais rápido e menos custoso, permitindo uma flexibilização monetária.

O Comitê discutiu o cenário de concessão de crédito doméstico, que está em linha com o estágio atual do ciclo de política monetária. Espera-se uma moderação na concessão de crédito nos próximos meses, mas de acordo com o observado em ciclos anteriores de aperto da política monetária. O Comitê destaca que o Banco Central possui os instrumentos de liquidez apropriados e necessários, relacionados à política macroprudencial, para lidar com possíveis fricções relevantes no sistema, caso ocorram.

O Comitê também analisou os impactos do cenário fiscal sobre a inflação e avaliou que a apresentação e a tramitação do arcabouço fiscal reduziram substancialmente a incerteza em relação ao risco fiscal. Ainda existem desafios para atingir as metas estabelecidas para o resultado primário, embora o Comitê tenha enfatizado o compromisso e a apresentação de medidas para alcançar tais resultados. O Copom ressalta novamente que não há uma relação mecânica entre a convergência da inflação e a aprovação do arcabouço fiscal, pois a trajetória da inflação depende da reação das expectativas de inflação e das condições financeiras.

O Comitê destaca que há fatores de risco em ambas as direções em seus cenários para a inflação. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se: (i) a persistência das pressões inflacionárias globais; (ii) incerteza residual em relação ao desenho final do arcabouço fiscal a ser aprovado pelo Congresso Nacional e seus impactos nas expectativas de trajetórias da dívida pública, inflação e ativos de risco; e (iii) uma desancoragem maior ou mais duradoura das expectativas de inflação de longo prazo. Entre os riscos de baixa, destacam-se: (i) uma queda adicional nos preços das commodities internacionais em moeda local, embora parte significativa desse movimento já tenha ocorrido; (ii) uma desaceleração da atividade econômica global mais intensa do que o projetado, especialmente devido a condições adversas no sistema financeiro global; e (iii) uma desaceleração na concessão de crédito doméstico maior do que a esperada em relação ao estágio atual do ciclo de política monetária.

O Copom decidiu manter a taxa básica de juros em 13,75% a.a., considerando os cenários avaliados, o balanço de riscos e as informações disponíveis. Essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para a meta ao longo do horizonte relevante, incluindo o ano de 2024. Além da estabilidade de preços, a decisão visa suavizar as flutuações na atividade econômica e promover o pleno emprego.

A conjuntura atual, com um processo desinflacionário mais lento e expectativas de inflação desancoradas, exige cautela. O Copom continuará conduzindo a política monetária necessária para atingir as metas e avalia que a estratégia de manter a taxa básica de juros por um período prolongado tem sido adequada para garantir a convergência da inflação. O Comitê enfatiza que perseverará até que o processo de desinflação esteja consolidado e as expectativas estejam ancoradas nas metas. A conjuntura demanda paciência e serenidade na condução da política monetária, e os próximos passos dependerão da evolução da dinâmica inflacionária, das expectativas, das projeções de inflação, do hiato do produto e do balanço de riscos.

Votaram a favor dessa decisão os seguintes membros do Comitê: Roberto de Oliveira Campos Neto (presidente), Carolina de Assis Barros, Diogo Abry Guillen, Fernanda Magalhães Rumenos Guardado, Maurício Costa de Moura, Otávio Ribeiro Damaso, Paulo Sérgio Neves de Souza e Renato Dias de Brito Gomes.