Na cozinha da doceira Josiane Natália Dutra açúcar é um ingrediente que não pode faltar. Mas a alta nos preços no último ano tem deixado seus custos mais amargos. Como o reflexo de aumentos como esses, que ultrapassam 50% em 12 meses, de acordo com pesquisa feita pelo site MercadoMineiro no varejo de Belo Horizonte, já chegou ao leite condensado, outra matéria-prima indispensável para fazer os doces, ela foi obrigada a reajustar o valor cobrado dos clientes novos. A unidade passou de R$ 0,70 para R$ 0,80. %"Não repassei tudo para não perder freguesia", conta Josiane, que produz cerca de 500 docinhos por dia.
Este ano, a safra nacional de grãos em geral deve apresentar uma queda de 8,6%, na comparação com a colheita de 2008, de acordo com as estimativas divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse, porém, não será o cenário para a produção de cana-de-açúcar, pois é prevista uma alta de 7,3%, com a colheita de 696,4 milhões de toneladas. Isso significa que a principal matéria-prima para produção de açúcar não está em falta nos campos do país. A culpa pelos fortes reajustes dos últimos 12 meses vem do exterior. Segundo o assessor econômico do Sindicato da Indústria da Açúcar e do Álcool do Estado de Minas Gerais (Siamig/Sindaçúcar), Mário Campos, hoje a tonelada da commodity é cotada em US$ 505. Em setembro de 2008 estava em US$ 325. O aumento foi de 55,4%. E a causa dessa alta está na Índia.
O Brasil é o maior produtor e exportador mundial de açúcar. E, até então, a Índia não importava o produto. Mas a produção indiana de açúcar despencou, passando das 28,6 milhões toneladas em 2007 para as 14,5 milhões previstas para este ano. "A Índia se transformou em importadora e o Brasil era o único capaz de suprir essa demanda extra", explica Campos. Até julho, as exportações brasileiras de açúcar chegaram a 12,7 milhões de toneladas. O aumento, em relação ao mesmo período de 2008, chegou a 32%.
Foi o reflexo dessa alta de exportações e cotações internacionais que chegou aos supermercados. "O consumidor brasileiro é que está pagando o preço", observa o diretor-executivo do MercadoMineiro, Feliciano Abreu. Na pesquisa feita pelo site, os reajustes no preço médio do açúcar cristal das marcas mais vendidas chegaram a 50,8%. Para o refinado, a alta registrada ficou em até 47,8%. Segundo o último levantamento da cesta básica feito pelo Instituto Ipead, apenas entre julho e agosto o aumento no açúcar cristal foi de 1,57%.
O superintendente da Associação Mineira de Supermercados (Amis), Adilson Rodrigues, calcula que os reajustes "estacionem" entre 30% e 40%. "Por sorte é um produto barato", observa. Mas ainda há um temor pelo reflexo em outros itens, como biscoitos, bolos e outros tipos de doces, que só deve ser aliviado pela concorrência forte no mercado de alimentos. Na Momo Confeitaria, por exemplo, os preços das tortas e docinhos foram mantidos. Isso, apesar da alta observada no valor do açúcar ter chegado a aproximadamente 80%, segundo o gerente de compras, Danilo Guerra. Ele conta que comprava o quilo por R$ 0,75, em agosto do ano passado. Agora, ele tem de desembolsar R$ 1,35 pela mesma quantidade. "Acredito que possa haver uma sazonalidade e que os preços vão se estabilizar", diz. A confeitaria consume duas toneladas de açúcar e quatro de leite condensado por mês.