A venda de energia proveniente do bagaço de cana nas usinas de açúcar e álcool do país está ajudando a garantir a lucratividade do negócio e já chega a representar 40% do resultado financeiro de muitas das empresas do setor. Com isso, os proprietários dessas usinas estão deixando de ser chamados de usineiros para se transformarem em produtores de energia. Somente em 2009, entram em operação no Brasil 840 megawatts (MW) de energia gerados a partir dos resíduos da plantação da cana-de-açúcar, o que representa mais de duas vezes a capacidade de geração da hidrelétrica de Três Marias, na Região Central do estado. Em 2010, serão mais 2,4 mil MW, geração equivalente à da hidrelétrica Paulo Afonso, no Nordeste.
Usinas de açúcar e álcool que entram em operação este ano já assinaram contrato de venda da energia excedente - a serem produzidas pelas termelétricas próprias, movidas a biomassa - com distribuidoras de energia e também participaram do primeiro leilão de reserva de 2008 promovido pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE). O contrato prevê entrega em 2009 e 2010.
A Total Agroindústria Canavieira colocará sua primeira usina em operação, com capacidade de moagem inicial de 1,2 milhão de toneladas, em junho deste ano em Bambuí, a 260 quilômetros de Belo Horizonte. Do total da energia que vai produzir - 84 MW até 2013 -, poderá comercializar 70%, já que 30% serão consumidos na própria usina. Mas segundo Ricardo Ribeiro, conselheiro administrativo da empresa, 35% já foram vendidos no leilão. "O contrato é de 15 anos e a entrega vai acontecer a partir do momento em que começarmos a operar normalmente", afirma.
"Vamos gerar a mesma quantidade de energia que poderia ser produzida por uma Pequena Central Hidrelétrica (PCH) com custo de investimento muito menor", explica Ribeiro. Segundo ele, o MWh da energia já comercializada saiu a R$ 140, muito mais alto do que a mesma quantidade de energia que será vendida a R$ 78,87 quando a hidrelétrica de Santo Antônio, no Rio Madeira (RO), entrar em operação. A venda de energia vai responder por 15% da receita da Total Agroindústria. "Isso vai ajudar a pagar os custos da usina, mas também representa um risco. Se não fornecermos a energia, teremos que pagar uma multa", explica.
A Companhia Energética do Vale de São Simão, que entra em operação no fim do mês que vem, está moendo uma safra de 1 milhão de toneladas e vai gerar 55 MW de energia. Desse total, vendeu 25MW no leilão de reserva do ano passado para entrega a partir do ano que vem. "Começaremos a rodar este ano e como a Cemig ainda não fez a nossa conexão com a rede interligada, preferimos não arriscar. Por isso só passaremos a fornecer no ano que vem", justifica o diretor, Alexandre Bicalho de Andrade. Segundo ele, a comercialização do excedente de energia representará 10% do faturamento da usina, que já se posicionou como uma companhia energética. "Para uma usina nova a exportação (venda ao mercado) de energia passou a ser fundamental para que o projeto possa se pagar. Do contrário, o retorno pode ser negativo", sustenta.
Usinas de açúcar e álcool agora produzem energia
Ricardo Meper
RICARDO MEPER
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