Por que a comida ficou tão cara? O que ninguém te explica sobre a cesta básica.

Da cesta de R$ 254 à comida de quase R$ 900: o que aconteceu com o poder de compra do brasileiro

Entre 2008 e 2026, o Brasil virou uma potência agrícola ainda maior, enfrentou crises globais, pandemia, guerra, choques cambiais e recordes de produção. Ainda assim, a comida continua pesando no orçamento.

Dezoito anos depois, o verdadeiro preço dos alimentos aparece na relação entre salário, inflação, dólar e horas de trabalho

A cesta básica explodiu desde 2008 — mas a verdade sobre o preço da comida é muito mais assustadora

Em 18 anos, o Brasil multiplicou sua produção agrícola, ampliou exportações e elevou o salário mínimo. Mesmo assim, milhões ainda gastam uma parcela enorme da renda para comer. O que mudou de verdade entre a crise de 2008 e 2026?

De R$ 254 para quase R$ 900: como guerras, dólar, China, clima, fertilizantes e salários transformaram o preço da comida no Brasil e no mundo

Por que a comida ficou tão cara? O que ninguém te explica sobre a cesta básica desde 2008

A cesta mais cara do país saiu de R$ 254,86 para perto de R$ 900. Mas inflação não explica tudo: dólar, China, guerras, fertilizantes, salários, clima e comércio global mudaram completamente o preço da comida.

A verdade por trás da cesta básica: 18 anos de crises, recordes agrícolas e perda de poder de compra

Em janeiro de 2009, uma notícia sobre o custo da alimentação no Brasil condensava, em poucas cifras, um fenômeno econômico muito maior do que a simples alta de preços nos supermercados. A Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos, realizada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), mostrava que, durante 2008, o custo dos alimentos essenciais havia aumentado mais de 20% em nove das 16 capitais para as quais existia comparação anual. Em João Pessoa, a elevação alcançara 29,31%. Em Natal, 26,73%; Florianópolis, 25,26%; Fortaleza, 24,61%.

Era um resultado extraordinário.

Mas aqueles números não nasceram exclusivamente dentro do Brasil. O consumidor brasileiro estava sentindo no açougue, na padaria, no arroz, no feijão e no óleo uma perturbação que atravessava simultaneamente plantações, mercados futuros, refinarias, portos, moedas, governos e cadeias comerciais em vários continentes. Entre 2007 e meados de 2008, o mundo experimentou uma das mais importantes crises alimentares das últimas décadas.

A cesta básica brasileira havia encontrado a crise mundial dos alimentos.

E, justamente quando o levantamento anual de 2008 era fechado, outro choque começava a modificar radicalmente esse cenário: a crise financeira internacional desencadeada nos Estados Unidos atingia sua fase mais aguda, derrubando produção, comércio, petróleo e commodities.

Assim, a fotografia publicada em janeiro de 2009 registrava um momento histórico peculiar. Olhava para trás e mostrava o resultado de um ano marcado por crescimento econômico brasileiro, mercado de trabalho aquecido e forte inflação de alimentos; mas era divulgada quando o país e o mundo já começavam a entrar em uma realidade completamente diferente.

Uma cesta de R$ 254,86 dizia muito mais do que parece

Em dezembro de 2008, a cesta básica mais cara entre as capitais então pesquisadas pelo DIEESE estava em Porto Alegre: R$ 254,86. Em seguida apareciam Rio de Janeiro, com R$ 239,78, São Paulo, com R$ 239,49, e Florianópolis, com R$ 239,03.

Na outra extremidade estavam Recife, com R$ 183,61, Salvador, com R$ 193,06, e Aracaju, com R$ 193,28.

Essas diferenças não eram triviais. A Pesquisa Nacional da Cesta Básica não mede simplesmente “quanto uma pessoa gasta no supermercado”. Trata-se de um indicador construído a partir de uma cesta alimentar normativamente definida, com raízes no próprio processo de institucionalização do salário mínimo brasileiro.

Sua origem remonta ao Decreto-Lei nº 399, de 30 de abril de 1938, que regulamentou a Lei nº 185, de 14 de janeiro de 1936. O decreto definia salário mínimo como a remuneração capaz de satisfazer, em determinada época e região, necessidades normais do trabalhador relacionadas a alimentação, habitação, vestuário, higiene e transporte. A legislação também estabeleceu conjuntos de alimentos e quantidades consideradas necessárias para a alimentação de um trabalhador adulto.

É daí que deriva a chamada Ração Essencial Mínima, posteriormente convertida em instrumento permanente de acompanhamento pelo DIEESE.

A metodologia considera produtos como carne, leite, feijão, arroz, farinha, batata, tomate, pão francês, café, banana, açúcar, óleo ou banha e manteiga, com quantidades que historicamente variam conforme a região definida pelo Decreto-Lei nº 399. Os preços são coletados e ponderados segundo os locais de compra, e o preço médio de cada produto é multiplicado pela quantidade correspondente. A soma fornece o custo mensal da cesta.

Portanto, a cesta não é equivalente ao IPCA, tampouco pretende representar todas as despesas alimentares de todas as famílias brasileiras. Ela responde a outra pergunta: quanto custa adquirir um conjunto definido de alimentos básicos e qual é o esforço que um trabalhador remunerado pelo salário mínimo precisa fazer para comprá-lo?

Essa distinção será fundamental em toda esta investigação.

Cesta básica não é inflação, e inflação não é custo de vida

Há pelo menos seis conceitos que precisam ser separados.

O primeiro é o valor nominal da cesta básica: quantos reais são necessários para adquirir as quantidades definidas pela metodologia.

O segundo é a variação do custo da cesta: quanto esse valor aumentou ou diminuiu entre dois períodos.

O terceiro é a inflação oficial, medida principalmente pelo IPCA, que cobre um conjunto muito mais amplo de bens e serviços consumidos pelas famílias, e não somente alimentação.

O quarto é a inflação dos alimentos, isto é, a variação de preços dos componentes alimentares dentro de um índice mais abrangente.

O quinto é o salário nominal: quantos reais o trabalhador recebe.

O sexto, economicamente mais relevante, é o salário real ou poder aquisitivo: aquilo que esse rendimento consegue efetivamente comprar.

Por isso, afirmar que uma cesta que custava R$ 254,86 em 2008 e custa centenas de reais a mais atualmente “ficou tantas vezes mais cara” é insuficiente. Ao longo do período, o nível geral de preços aumentou, o salário mínimo mudou, a renda das famílias se modificou, a estrutura do consumo se transformou e a própria abrangência geográfica da pesquisa do DIEESE foi ampliada.

Uma comparação historicamente séria precisa perguntar não apenas quantos reais custava a alimentação, mas quantas horas de trabalho eram necessárias para comprá-la e qual proporção da renda ela absorvia.

Em dezembro de 2008, o salário mínimo nacional era de R$ 415. A cesta de Porto Alegre, de R$ 254,86, correspondia nominalmente a aproximadamente 61,4% do salário mínimo bruto.

O DIEESE calculava ainda que, considerado o salário mínimo líquido segundo sua metodologia, a cesta porto-alegrense consumia 57,18% dos rendimentos disponíveis do trabalhador.

Era, portanto, uma parcela enorme da capacidade econômica de quem vivia próximo ao piso salarial.

O salário mínimo de R$ 415 e o “mínimo necessário” de R$ 2.141

Existe ainda outro indicador frequentemente mal interpretado: o salário mínimo necessário do DIEESE.

Ele não é uma previsão de qual deveria ser o salário definido pelo governo nem uma medida de salário médio. É uma estimativa construída a partir do princípio estabelecido no artigo 7º, inciso IV, da Constituição Federal de 1988, segundo o qual o salário mínimo nacional deve ser capaz de atender às necessidades vitais básicas do trabalhador e de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social.

Para operacionalizar esse conceito, o DIEESE parte do custo da alimentação e considera uma família de dois adultos e duas crianças, estas últimas computadas, por hipótese metodológica, como equivalentes ao consumo de um adulto. A alimentação familiar corresponde, portanto, a três cestas de um adulto. A metodologia utiliza ainda a proporção da renda familiar destinada à alimentação derivada da estrutura normativa utilizada no cálculo.

Em dezembro de 2008, o resultado foi R$ 2.141,08.

O salário mínimo efetivamente vigente era R$ 415.

O mínimo necessário estimado pelo DIEESE equivalia, portanto, a 5,16 salários mínimos oficiais. Um ano antes, em dezembro de 2007, o cálculo apontava R$ 1.803,11. Em novembro de 2008 havia sido R$ 2.007,84.

O aumento dessa estimativa em dezembro refletia diretamente o encarecimento da alimentação.

Mas por que a comida havia aumentado tanto?

O IPCA conta a mesma história por outro caminho

Os números do IBGE confirmam que o problema ultrapassava a cesta do DIEESE.

O IPCA fechou 2008 em 5,90%, contra 4,46% em 2007. Foi o maior resultado anual desde 2004. Mas o agregado esconde uma assimetria fundamental: enquanto os produtos não alimentícios aumentaram 4,46%, o grupo alimentação e bebidas avançou 11,11%.

Com peso médio de aproximadamente 22,4% no índice, alimentação e bebidas acrescentaram 2,42 pontos percentuais aos 5,90% de inflação daquele ano.

Em outras palavras, 41,02% de toda a inflação oficial brasileira de 2008 veio do grupo alimentação e bebidas.

Os detalhes são ainda mais reveladores.

No IPCA de 2008, as carnes aumentaram 24,01%; o pão francês, 19,35%; o arroz, 33,94%; tubérculos, raízes e legumes, 20,27%; e o feijão-preto, impressionantes 65,52%.

Somente a carne contribuiu com aproximadamente 0,52 ponto percentual para o IPCA anual. O pão francês acrescentou 0,23 ponto; o arroz, 0,21.

Isso explica por que a inflação percebida por uma família de baixa renda podia parecer muito superior aos 5,90% registrados pelo índice agregado.

Se uma parcela grande do orçamento doméstico é destinada justamente aos produtos que aumentam 20%, 30% ou 60%, a experiência econômica dessa família não se parece com uma inflação média de 5,9%.

É uma manifestação da Lei de Engel, uma das regularidades mais antigas da economia do consumo: conforme a renda familiar aumenta, a proporção da renda destinada à alimentação tende a diminuir. O inverso também importa. Famílias pobres destinam uma parcela muito maior do orçamento à comida e, consequentemente, sofrem proporcionalmente mais quando os alimentos encarecem.

O FMI destacava exatamente esse mecanismo durante a crise mundial de 2008: a alta dos alimentos tinha efeitos distributivos particularmente graves porque sua participação no orçamento era muito maior nos países em desenvolvimento e, dentro de cada país, entre os grupos de menor renda.

Era uma inflação regressiva.

O paradoxo brasileiro: crescimento forte e comida cara

A economia brasileira de 2008 apresenta um contraste que pode parecer estranho quando observada retrospectivamente.

O país não estava inicialmente em recessão.

Ao contrário.

O PIB brasileiro cresceu 5,1% em 2008, chegando a aproximadamente R$ 2,9 trilhões segundo a estimativa divulgada pelo IBGE à época. O PIB per capita cresceu 4,0%, alcançando R$ 15.240. A agropecuária expandiu 5,8%; os serviços, 4,8%; e a indústria, 4,3%. A taxa de investimento chegou a 19% do PIB, então a maior da série iniciada em 2000.

A agricultura, longe de estar paralisada, apresentava crescimento expressivo em várias culturas. Segundo o IBGE, a produção de trigo aumentou 47,5%; café, 25%; cana-de-açúcar, 19,2%; milho, 13,3%; arroz, 9,7%; feijão, 5%; e soja, 3,4%.

O mercado de trabalho também estava relativamente aquecido.

A taxa média anual de desocupação nas seis regiões metropolitanas acompanhadas pela antiga Pesquisa Mensal de Emprego caiu para 7,9% em 2008, a menor da série iniciada em 2002. O contingente médio de desempregados diminuiu 13,3% em relação a 2007.

Em junho, por exemplo, a população ocupada estava 4,5% acima da observada um ano antes, e o número de empregados com carteira assinada havia crescido 9,5%.

No fim do ano, mesmo com a crise financeira já instalada, o rendimento médio real domiciliar per capita das seis regiões metropolitanas ainda apresentava crescimento de 4,2% em relação a dezembro de 2007.

O problema era que a demanda doméstica aquecida encontrava simultaneamente um gigantesco choque internacional de commodities.

O Banco Central reagia à aceleração inflacionária elevando os juros. A Selic estava em 11,25% ao ano no início de 2008; subiu para 11,75% em abril, 12,25% em junho, 13% em julho e 13,75% em setembro, permanecendo nesse nível até janeiro de 2009.

Era uma economia que, durante boa parte do ano, crescia rapidamente, criava empregos e aumentava a renda, mas sofria pressão inflacionária particularmente intensa justamente nos alimentos.

E parte dessa pressão vinha de muito longe.

2007–2008: a comida se transforma em problema mundial

A crise alimentar não começou em janeiro de 2008. Suas raízes vinham se acumulando havia anos.

A FAO identifica uma combinação incomum de fatores: estoques relativamente baixos de cereais, problemas de produção em grandes exportadores, crescimento da demanda por commodities agrícolas destinadas a biocombustíveis, petróleo caro, enfraquecimento do dólar e, posteriormente, restrições às exportações e comportamento financeiro nos mercados de commodities. O caráter excepcional de 2007–2008 resultou precisamente da convergência simultânea desses mecanismos, e não de uma causa única.

Os números mostram a violência do movimento.

Em junho de 2008, o índice de preços dos alimentos da FAO estava 44% acima do nível de junho de 2007. O índice de cereais havia passado de 156 pontos em junho de 2007 para 274 em junho de 2008. O de óleos e gorduras, de 170 para 292.

No primeiro trimestre de 2008, o índice de óleos e gorduras estava aproximadamente 98% acima do registrado no mesmo período de 2007.

Não se tratava, portanto, de um problema localizado em determinado supermercado ou país. Era uma reprecificação internacional de alguns dos insumos mais fundamentais da alimentação humana e animal.

Estoques baixos tornam pequenos choques enormes

Um mercado agrícola não precisa ficar literalmente sem alimento para produzir uma explosão de preços.

Quando os estoques disponíveis são baixos, a margem de segurança diminui. Uma quebra de safra, uma mudança inesperada de demanda ou uma restrição comercial passa a exercer efeito muito maior sobre o preço.

Esse mecanismo foi central em 2007–2008.

A FAO registra que a relação mundial entre estoques e utilização de cereais estava em torno de 19,7% em 2007/08, enquanto a relação entre os estoques dos grandes exportadores e seu desaparecimento comercial estava em apenas 13,5%.

No trigo, a seca australiana foi particularmente importante. Em outros produtos, diferentes problemas de produção contribuíram para reduzir a flexibilidade do sistema.

Ao mesmo tempo, a demanda continuava crescendo.

Economias emergentes, sobretudo asiáticas, expandiam renda e consumo. Dietas mais ricas em proteína animal significam demanda indireta maior por grãos destinados à alimentação de bovinos, aves e suínos. A FAO também relacionou o crescimento da renda na China e na Índia à expansão da demanda por carnes e, consequentemente, por milho e soja utilizados como ração.

Mas essa explicação precisa ser tratada cuidadosamente.

O crescimento asiático foi um componente estrutural da demanda; não explica sozinho a velocidade da explosão observada entre 2007 e 2008. Para isso, é necessário acrescentar energia, biocombustíveis, estoques, clima e política comercial.

Quando petróleo e comida passaram a conversar ainda mais de perto

Em 2008, o petróleo tornou-se uma peça central do problema alimentar.

A agricultura moderna utiliza energia em praticamente todas as etapas: fabricação de fertilizantes, operação de máquinas, irrigação, secagem, processamento, refrigeração e transporte.

O aumento do petróleo elevava diretamente vários desses custos.

O FMI observava em junho de 2008 que preços elevados da energia pressionavam insumos agrícolas, fertilizantes e transporte.

Mas havia um segundo elo: biocombustíveis.

Quando petróleo e gasolina se tornam caros, combustíveis produzidos a partir de biomassa ganham atratividade econômica. Além disso, políticas públicas nos Estados Unidos e na Europa estimulavam ou determinavam volumes mínimos de incorporação de biocombustíveis.

Nos Estados Unidos, uma parcela crescente da produção de milho passou a ser destinada à fabricação de etanol.

Isso não significa que “o etanol causou sozinho a crise alimentar”. Essa formulação é excessivamente simplista. Mas existe evidência robusta de que a expansão dos biocombustíveis contribuiu para apertar o balanço de determinados mercados agrícolas.

A própria FAO apontou o forte aumento do desvio de milho para biocombustíveis como uma das razões para a redução dos estoques, em conjunto com outros fatores.

Nos óleos vegetais, o mecanismo também era visível. Demanda alimentar e demanda para biodiesel competiam por matérias-primas como óleo de palma, soja e outras oleaginosas. No primeiro trimestre de 2008, o índice de óleos e gorduras da FAO estava quase duas vezes acima do nível do ano anterior.

O caso brasileiro, porém, introduz uma nuance importante. O etanol brasileiro era predominantemente produzido a partir de cana-de-açúcar, e o país conseguiu ampliar substancialmente a área de cana nas safras de 2006/07 e 2007/08. A FAO observou que essa expansão ajudou a reduzir a pressão sobre os preços da cana e do açúcar naquele período.

Portanto, colocar todos os biocombustíveis na mesma categoria seria metodologicamente incorreto.

O dólar também importava

As commodities agrícolas são majoritariamente negociadas internacionalmente em dólares.

Durante parte importante do ciclo de alta anterior à crise financeira, o dólar norte-americano se enfraqueceu em relação a outras moedas. Isso produzia dois efeitos.

Primeiro, tornava commodities cotadas em dólar relativamente mais baratas para compradores que utilizavam moedas valorizadas, favorecendo a demanda.

Segundo, produtores e investidores exigiam preços nominais em dólar maiores para compensar parte da perda de valor da moeda.

A FAO inclui explicitamente o enfraquecimento do dólar entre os elementos que reforçaram a alta internacional de 2007–2008.

No Brasil, entretanto, a dinâmica cambial mudou violentamente durante o próprio ano.

Antes da fase aguda da crise financeira, o real relativamente valorizado amortecia parte da inflação importada. Depois de setembro, a fuga internacional para ativos considerados seguros provocou forte desvalorização cambial.

Documentos do Banco Central mostram a magnitude da mudança: no cenário utilizado pelo Copom, a referência cambial para o terceiro trimestre em diante chegou a mudar de aproximadamente R$ 1,70 para R$ 2,25 por dólar.

Para um exportador brasileiro de carne, soja, milho ou café, isso altera a equação.

Se um produto pode ser vendido internacionalmente em dólares, uma alta do dólar aumenta o equivalente em reais obtido na exportação. O mercado doméstico passa a competir com essa alternativa.

Essa é uma das razões pelas quais um país exportador de alimentos não está automaticamente protegido contra inflação alimentar.

O paradoxo: como uma potência agrícola pode ter comida cara?

A pergunta parece intuitiva: se o Brasil produz enorme quantidade de alimentos, por que os preços domésticos sobem quando o mercado mundial entra em crise?

Porque produção abundante não significa isolamento econômico.

Imagine uma tonelada de determinado produto negociada internacionalmente por US$ 500.

Com dólar a R$ 1,70, essa referência equivale a R$ 850.

Com dólar a R$ 2,25, passa a equivaler a R$ 1.125, antes de considerar fretes, impostos, qualidade, localização e demais diferenças.

O produtor não precisa necessariamente exportar toda a produção para que o preço externo importe. Basta que exista possibilidade econômica de exportação e integração entre mercados.

Esse mecanismo é conhecido como paridade de exportação.

A transmissão não é idêntica para todos os alimentos. Soja e café têm ligação internacional muito mais direta do que alface ou tomate produzidos e consumidos regionalmente. Trigo brasileiro é influenciado também pela dependência de importações. Carne incorpora custos de alimentação animal, ciclo pecuário e demanda externa. Feijão possui dinâmica muito mais doméstica. Hortaliças são extremamente sensíveis ao clima local.

Por isso, não existe um único “preço mundial da comida” que seja simplesmente convertido em reais e colocado na prateleira.

Há diferentes graus de transmissão.

Em 2008, porém, muitos canais estavam funcionando simultaneamente.

A própria notícia daquele janeiro registrava que o DIEESE relacionava parte das altas às chuvas nas regiões produtoras e aos preços elevados de fertilizantes e adubos durante o plantio. A carne bovina, item de grande peso na cesta, havia encarecido de maneira generalizada, em ambiente no qual a valorização do dólar aumentava a atratividade das exportações.

O choque era, portanto, simultaneamente internacional e doméstico.

O mercado de arroz mostrou como o medo pode multiplicar uma crise

Nenhum episódio ilustra melhor 2008 do que o arroz.

O mercado internacional de arroz é relativamente estreito: apenas uma parcela da produção mundial é negociada entre países. Isso significa que alterações relativamente pequenas na quantidade disponível para exportação podem provocar movimentos enormes nos preços internacionais.

Quando os preços começaram a subir, governos de países exportadores passaram a temer desabastecimento e inflação doméstica.

A reação parecia racional individualmente: restringir exportações para preservar alimentos dentro do país.

Coletivamente, porém, produziu um problema.

Índia, Vietnã, China, Paquistão, Egito e outros países adotaram diferentes combinações de proibições, quotas, impostos e preços mínimos de exportação. Rússia, Ucrânia, Cazaquistão e Argentina também recorreram a restrições em determinados cereais ou produtos agrícolas.

A Índia proibiu as exportações de arroz não basmati. O Vietnã restringiu novos contratos e limitou volumes. O Camboja impôs temporariamente uma proibição. China e outros países também estabeleceram controles sobre cereais.

O resultado foi um clássico problema de ação coletiva.

Cada governo tentava proteger seus consumidores.

Mas, ao retirar oferta do mercado internacional, contribuía para elevar ainda mais o preço mundial, incentivando outros governos a fazer exatamente a mesma coisa.

Em maio de 2008, o arroz vietnamita de determinada especificação chegou a aproximadamente US$ 810 por tonelada, 127% acima do preço de janeiro. O arroz norte-americano de grão longo alcançou aproximadamente US$ 941 por tonelada naquele mês.

A FAO concluiu posteriormente que as restrições comerciais haviam provocado aumentos adicionais de preços e volatilidade.

Era inflação alimentando política comercial, e política comercial alimentando inflação.

E a especulação financeira?

Poucos elementos da crise de 2008 produziram tanta controvérsia quanto o papel dos investidores financeiros nos mercados de commodities.

Durante os anos anteriores à crise, fundos de índice e outros investidores aumentaram significativamente sua exposição a contratos futuros de commodities. Como petróleo, metais e produtos agrícolas estavam subindo, commodities também passaram a ser vistas como proteção contra inflação e como classe alternativa de ativos.

A FAO incluiu o crescimento do interesse de especuladores e fundos de índice entre os elementos que podem ter reforçado a alta e a volatilidade.

Mas isso não autoriza concluir que a especulação financeira tenha sido a causa principal da crise.

A literatura econômica não chegou a uma explicação tão simples.

Uma análise posteriormente publicada pela própria FAO sobre os mercados de grãos concluiu não encontrar evidência de que a especulação financeira tivesse criado um novo regime perverso capaz de explicar sozinha os picos de milho, arroz e trigo. O estudo enfatizou estoques reduzidos, choques de oferta, biocombustíveis, petróleo, demanda e restrições comerciais.

A formulação mais defensável, portanto, é esta: a financeirização pode ter contribuído para movimentos de curto prazo, expectativas e volatilidade em determinados mercados, mas os fundamentos físicos de oferta, demanda, estoques, energia e políticas comerciais são indispensáveis para explicar a crise.

Confundir essas duas afirmações produz tanto exageros quanto negações igualmente problemáticas.

A crise não atingiu todos igualmente

Em junho de 2008, o FMI comparou diferentes grupos de economias.

Nos países de baixa renda analisados, a inflação de alimentos em 12 meses alcançava uma mediana de aproximadamente 17%.

Nas economias emergentes, cerca de 14%.

Nas economias avançadas, aproximadamente 6,1%.

A diferença não ocorria apenas porque os preços internacionais chegavam de maneira diferente a cada país.

A estrutura de consumo também era distinta.

Nas economias europeias avançadas, por exemplo, alimentos representavam em média aproximadamente 14% do índice de preços ao consumidor; em novos integrantes da União Europeia, cerca de 22%; e em países como Albânia, Belarus e Ucrânia, mais de 40%.

Quando comida representa 10% ou 15% do orçamento, uma alta de 20% é dolorosa.

Quando representa 40%, 50% ou 60%, pode se transformar em crise social.

Esse é um dos motivos pelos quais a crise de 2007–2008 provocou protestos e episódios de instabilidade em diversos países.

O problema global não era necessariamente que o planeta tivesse deixado de produzir alimento suficiente em termos agregados. O FMI descrevia a emergência, naquele momento, sobretudo como uma crise de preços e acesso aos alimentos, não simplesmente como desaparecimento físico global da comida.

Essa distinção é decisiva.

Segurança alimentar depende de disponibilidade, mas também de acesso econômico.

Comida pode existir no mercado e ainda assim estar fora do alcance de milhões de pessoas.

O Brasil estava no meio do choque, mas não exatamente como os outros

A posição brasileira era singular.

O país era simultaneamente grande produtor agrícola, grande exportador de commodities, mercado consumidor de quase 190 milhões de habitantes e economia profundamente integrada ao comércio internacional.

Isso criava amortecedores e canais de transmissão ao mesmo tempo.

A expansão da produção doméstica ajudava a aumentar a oferta. A valorização do real durante parte do ciclo amortecia alguns custos importados. Mas fertilizantes, petróleo, diesel, trigo importado, preços internacionais e oportunidades de exportação transmitiam o choque externo para dentro do país.

Além disso, a demanda doméstica estava crescendo.

O IBGE atribuiu a inflação alimentar de 2008 basicamente à combinação de preços elevados de produtos cotados internacionalmente e aumento da demanda por alimentos, interna e externa.

Por isso, a inflação brasileira de alimentos não deve ser explicada por uma narrativa monocausal.

Não foi simplesmente “culpa do dólar”.

Não foi simplesmente “culpa das exportações”.

Não foi simplesmente “culpa dos biocombustíveis”.

Não foi simplesmente “culpa da especulação”.

E tampouco foi apenas uma questão climática brasileira.

Foi uma interação entre oferta, demanda, commodities internacionais, custos agrícolas, câmbio, renda doméstica, clima e estrutura de mercado.

Então aconteceu setembro de 2008.

Lehman Brothers: quando a direção do mundo mudou

Em 15 de setembro de 2008, o banco de investimentos Lehman Brothers pediu proteção contra falência nos Estados Unidos.

A crise financeira, que já se desenvolvia desde o colapso do mercado norte-americano de hipotecas subprime, entrou em uma fase sistêmica.

Crédito congelou.

Bancos desconfiaram uns dos outros.

Investidores buscaram liquidez.

Empresas reduziram investimento.

Comércio internacional despencou.

A expectativa deixou de ser de escassez e superaquecimento para se transformar rapidamente em medo de recessão global.

Os mercados de commodities responderam.

Nos óleos e oleaginosas, a FAO registra que a extraordinária alta iniciada em 2006 chegou ao fim em junho de 2008. Em outubro, vários índices já haviam retornado a níveis próximos aos observados no verão de 2007.

Nos cereais, a reversão também foi violenta.

Em dezembro de 2008, o milho norte-americano de referência estava em aproximadamente US$ 143 por tonelada, contra US$ 232 em agosto. O trigo norte-americano havia recuado de US$ 343 em agosto para US$ 227 em dezembro. O arroz tailandês, embora ainda muito caro, caíra de US$ 787 por tonelada em agosto para aproximadamente US$ 580 na primeira metade de dezembro.

A mesma crise que derrubava a demanda mundial também fortalecia o dólar e alterava drasticamente expectativas de consumo de energia, rações e matérias-primas.

No Brasil, a mudança foi abrupta.

O PIB ainda cresceria 5,1% na soma de 2008, mas essa média anual escondia uma ruptura impressionante: do terceiro para o quarto trimestre, o PIB caiu 3,6%, então a maior contração trimestral da série iniciada em 1996. A indústria despencou 7,4%; a formação bruta de capital fixo, 9,8%; o consumo das famílias, 2%; as exportações, 2,9%; e as importações, 8,2%.

Era como se duas economias brasileiras diferentes tivessem coexistido dentro do mesmo ano.

Na primeira, crescimento elevado, emprego forte, demanda em expansão, commodities caras e Banco Central elevando juros para conter inflação.

Na segunda, choque financeiro, desvalorização cambial, queda industrial, retração dos investimentos e ameaça de recessão.

A cesta básica divulgada em janeiro de 2009 pertencia, estatisticamente, à primeira história.

Mas o Brasil já havia entrado na segunda.

A fotografia de janeiro de 2009

É isso que torna aquela notícia sobre uma cesta básica quase 30% mais cara historicamente interessante.

Vista isoladamente, ela parece contar uma história simples: os alimentos ficaram muito mais caros em 2008.

Vista dentro da economia brasileira, mostra algo mais complexo: o grupo alimentação aumentou 11,11%, respondeu por 41% do IPCA, e alguns produtos essenciais registraram altas muito superiores à inflação média, justamente quando emprego, renda e demanda estavam crescendo.

Vista internacionalmente, revela uma terceira dimensão: o Brasil estava inserido na crise mundial de alimentos de 2007–2008, marcada por estoques reduzidos, petróleo caro, fertilizantes, biocombustíveis, crescimento da demanda, problemas climáticos, dólar enfraquecido e uma sequência de restrições às exportações que ampliou dramaticamente a volatilidade de alguns mercados.

Vista do ponto de vista distributivo, revela algo ainda mais importante: inflação de alimentos não atinge todos igualmente.

Para uma família de renda elevada, alimentação constitui apenas uma fração das despesas.

Para um trabalhador remunerado pelo mínimo, uma cesta de R$ 254,86 diante de um salário de R$ 415 significava que apenas o conjunto essencial de alimentos de um adulto correspondia a mais de 60% do piso bruto. Pelo cálculo do DIEESE, o mínimo necessário para uma família chegava a R$ 2.141,08 — 5,16 vezes o salário mínimo oficial.

E vista retrospectivamente, a notícia contém uma ironia histórica.

Quando aqueles números chegaram ao leitor em janeiro de 2009, a grande alta internacional que os havia ajudado a produzir já tinha começado a desmoronar.

O petróleo recuava.

Cereais haviam caído.

Óleos vegetais haviam despencado.

A demanda mundial enfraquecia.

O Brasil, que havia terminado o ano com crescimento de 5,1%, acabava de sofrer uma contração trimestral de 3,6%.

A preocupação econômica internacional começava a migrar rapidamente da inflação para a recessão.

Parecia possível imaginar que a crise dos alimentos estivesse ficando para trás.

Não estava.

Nos dezessete anos seguintes, o sistema alimentar mundial atravessaria outra forte alta das commodities em 2010–2011, recessão e desvalorização cambial no Brasil, a greve dos caminhoneiros, uma pandemia global, rupturas logísticas sem precedentes em décadas, explosão dos fretes, novo choque energético, invasão da Ucrânia pela Rússia, crise de fertilizantes, o maior nível nominal do índice de preços dos alimentos da FAO, secas, enchentes e sucessivos eventos climáticos extremos.

O Brasil também se transformaria profundamente. Produção agrícola, produtividade, exportações e importância da China cresceriam de maneira extraordinária. O salário mínimo passaria de centenas para mais de mil reais. A pesquisa da cesta básica seria ampliada até alcançar as 27 capitais. A composição do orçamento das famílias mudaria.

Mas a pergunta colocada implicitamente por aquela notícia de janeiro de 2009 continuaria aberta:

depois do choque de 2008, a comida realmente se tornou mais acessível ao brasileiro — ou os dezoito anos seguintes apenas substituíram uma crise por uma sucessão de novos choques?

É essa trajetória, de 2009 a 2026, que precisa ser reconstruída a seguir.

De 2009 a 2026: de uma crise alimentar à outra — dezoito anos que transformaram o preço da comida

Quando 2008 terminou, havia razões para imaginar que a extraordinária inflação mundial dos alimentos estivesse finalmente cedendo. O colapso financeiro iniciado nos Estados Unidos havia derrubado petróleo, cereais e oleaginosas; a economia mundial mergulhava em recessão; e o Brasil, depois de crescer 5,1% no conjunto daquele ano, sofrera uma contração abrupta de 3,6% entre o terceiro e o quarto trimestre.

Parecia o encerramento de um ciclo.

Não foi.

Os dezoito anos seguintes mostrariam que o episódio de 2007–2008 não era apenas uma anomalia histórica. Ele antecipava uma característica que se tornaria central no sistema alimentar do século XXI: preços agrícolas cada vez mais conectados a energia, câmbio, clima, geopolítica, logística internacional e mercados financeiros, em um mundo no qual choques ocorridos a milhares de quilômetros podem chegar rapidamente ao supermercado brasileiro.

Desde aquela cesta de R$ 254,86 registrada em Porto Alegre em dezembro de 2008 até a cesta de R$ 900,59 observada em São Paulo em agosto de 2026, o Brasil atravessou uma sucessão extraordinária de eventos.

Houve outra crise mundial de alimentos em 2010–2011. O país passou por recessão e forte desvalorização cambial em meados da década seguinte. Uma paralisação de caminhoneiros demonstrou, em 2018, quanto a alimentação brasileira depende das rodovias. Em 2020, uma pandemia paralisou partes da economia mundial e, paradoxalmente, fez arroz e óleo dispararem dentro de uma economia em recessão. Em 2021, energia, fretes e commodities voltaram a subir. Em fevereiro de 2022, a Rússia invadiu a Ucrânia e abalou simultaneamente mercados de trigo, milho, óleo de girassol, gás e fertilizantes. Em março daquele ano, o índice mundial de alimentos da FAO atingiu seu recorde histórico. Depois vieram a desinflação, eventos climáticos extremos, enchentes no Rio Grande do Sul e novas perturbações geopolíticas.

Por isso, comparar 2008 e 2026 exige reconstruir tudo o que aconteceu no intervalo.

2009 não resolveu o problema: apenas interrompeu o primeiro choque

A crise financeira produziu uma queda rápida das commodities internacionais. Mas a calmaria foi curta.

Em 2010, os mercados agrícolas começaram novamente a apresentar sinais de tensão. Problemas climáticos atingiram importantes regiões produtoras. A Rússia enfrentou seca e incêndios severos e restringiu exportações de grãos. A oferta internacional de trigo ficou pressionada. Outros cereais acompanharam o movimento.

Segundo o Banco Mundial, entre agosto e novembro de 2010 seu índice internacional de alimentos subiu aproximadamente 17%. Entre outubro de 2010 e janeiro de 2011, avançou outros 15%, ficando apenas 3% abaixo do pico registrado em 2008. O Banco Mundial estimou que a alta dos preços desde junho de 2010 havia empurrado aproximadamente 44 milhões de pessoas para a extrema pobreza nos países de renda baixa e média.

Em janeiro de 2011, a FAO anunciou que seu índice mundial de alimentos havia alcançado um novo recorde. Em fevereiro, chegou a 236 pontos na metodologia utilizada à época, superando os máximos observados durante a crise de 2008. O índice de cereais atingiu 254 pontos, seu maior valor desde julho de 2008; óleos e gorduras chegaram a 279 pontos, pouco abaixo do pico de junho daquele ano.

Era a segunda grande onda de inflação alimentar internacional em apenas três anos.

O Banco Mundial posteriormente calculou que seu índice anual de alimentos de 2011 ficou 24% acima da média de 2010. Em termos nominais, os preços internacionais dos alimentos haviam praticamente dobrado desde dezembro de 2005; os grãos haviam aumentado ainda mais.

A conclusão histórica é importante: a queda posterior ao Lehman Brothers não representou retorno permanente ao mundo anterior a 2007. O sistema alimentar internacional entrou em uma fase de preços mais elevados e, sobretudo, mais voláteis.

Essa volatilidade se tornaria uma das marcas das décadas seguintes.

O mecanismo brasileiro: dólar, commodity e custo de produção

Para compreender o que ocorreu depois, é necessário introduzir uma equação econômica que aparecerá repetidamente nesta história.

De maneira simplificada, para um produto agrícola comercializável internacionalmente:

preço externo em dólares × taxa de câmbio = referência internacional em reais.

Suponha uma commodity negociada por US$ 400 a tonelada.

Com dólar a R$ 2,00, a referência seria R$ 800.

Com o mesmo preço internacional de US$ 400, mas dólar a R$ 4,00, ela passaria para R$ 1.600.

Nada precisaria ter acontecido com o preço mundial para que a referência em reais dobrasse.

Na realidade, a formação de preços é muito mais complexa: há fretes, impostos, qualidade, localização, custos portuários, margens, contratos, estrutura de mercado e diferenças entre paridade de importação e exportação. Mas o exemplo revela por que o câmbio se tornou uma variável decisiva para os alimentos brasileiros.

O Banco Central demonstraria esse mecanismo de forma bastante clara durante a crise de 2015–2016.

2014–2016: quando a recessão não impediu a inflação da comida

Depois dos anos de forte expansão econômica, o Brasil entrou em uma fase muito diferente em meados da década de 2010.

O real sofreu forte depreciação.

Somente em 2015, a taxa nominal de câmbio acumulou desvalorização de aproximadamente 47%, segundo o Banco Central. Ao mesmo tempo, houve forte reajuste de preços administrados e deterioração da atividade econômica. O IPCA terminou aquele ano em 10,67%.

Era possível ter recessão e alimentos caros simultaneamente.

Isso ocorre porque os preços alimentares não dependem exclusivamente da demanda interna.

Em janeiro de 2015, a cotação média do dólar estava próxima de R$ 2,63. Em janeiro de 2016, chegava a aproximadamente R$ 4,05. O Banco Central identificou uma transmissão direta da depreciação para alimentos comercializáveis e outra indireta, por meio dos custos de matérias-primas agrícolas, fertilizantes e defensivos.

O clima agravou o quadro.

O El Niño modificou regimes de chuva em importantes regiões produtoras. Em 2016, a estimativa disponível naquele momento apontava redução de aproximadamente 6,5% na safra brasileira de grãos. O Banco Central, ao estudar especificamente a inflação de alimentação no domicílio, identificou câmbio, commodities agrícolas e condições climáticas como variáveis relevantes.

Aqui aparece uma das lições fundamentais de todo o período 2008–2026:

recessão econômica não garante comida barata.

Se uma economia entra em recessão ao mesmo tempo em que sua moeda se desvaloriza, a safra sofre e insumos importados ficam mais caros, alimentos podem continuar pressionados mesmo com desemprego elevado e consumo fraco.

É justamente quando esse fenômeno ocorre que a consequência social pode ser mais grave: os preços sobem enquanto a capacidade de compra das famílias diminui.

Em 2016, o IPCA finalmente desacelerou para 6,29%, ajudado, entre outros fatores, por uma evolução mais favorável dos alimentos.

Mas outro episódio, dois anos depois, revelaria uma vulnerabilidade especificamente brasileira.

2018: quando alguns dias sem caminhões chegaram imediatamente ao supermercado

No final de maio de 2018, caminhoneiros paralisaram rodovias em várias regiões do Brasil.

A greve transformou logística em inflação quase instantaneamente.

Um país continental, altamente dependente do transporte rodoviário, descobriu de maneira particularmente visível que comida não depende apenas de plantio e colheita. Depende de caminhões chegando às centrais de abastecimento, frigoríficos recebendo insumos, supermercados sendo reabastecidos, leite sendo recolhido, animais recebendo ração e produtos perecíveis chegando ao consumidor antes de estragar.

O IBGE registrou o efeito.

Em junho de 2018, imediatamente após a paralisação, o grupo Alimentação e bebidas subiu 2,03% em apenas um mês. A alimentação no domicílio avançou 3,09%.

No conjunto do ano, Alimentação e bebidas aumentou 4,04%, enquanto o IPCA geral ficou em 3,75%. A alimentação no domicílio subiu 4,53%. O tomate terminou 2018 com aumento de 71,76%; frutas, 14,10%.

O episódio de 2018 revelou um canal diferente dos observados em 2008 ou 2015.

Não era essencialmente um choque internacional de commodities.

Era um choque logístico doméstico.

Essa distinção importa porque “inflação de alimentos” é apenas o resultado visível. Suas causas podem ser completamente diferentes.

Dois anos depois, todos esses canais — câmbio, commodities, logística, demanda, produção e expectativas — seriam atingidos simultaneamente.

2020: a pandemia e o paradoxo do supermercado caro em uma economia paralisada

Em março de 2020, a Covid-19 alterou a economia mundial em uma velocidade poucas vezes observada.

Fronteiras fecharam.

Voos foram cancelados.

Restaurantes, hotéis e escolas interromperam atividades.

Empresas fecharam temporariamente.

Famílias passaram a trabalhar e comer em casa.

Portos operaram sob restrições sanitárias.

Fábricas reduziram produção.

Frigoríficos enfrentaram surtos.

Contêineres ficaram posicionados nos lugares errados.

E governos e bancos centrais lançaram programas fiscais e monetários extraordinários para impedir uma depressão econômica.

Nos primeiros meses, petróleo e diversas commodities caíram. Poderia parecer que alimentos também ficariam baratos.

No Brasil ocorreu o contrário.

O IPCA terminou 2020 em 4,52%.

Mas Alimentação e bebidas subiu extraordinários 14,09%, maior variação anual do grupo desde 2002, contribuindo com 2,73 pontos percentuais para a inflação total. Em outras palavras, aproximadamente 60% do IPCA daquele ano veio apenas de alimentação e bebidas.

Alguns números lembravam 2008 — ou o superavam amplamente.

O óleo de soja aumentou 103,79%.

O arroz, 76,01%.

A batata-inglesa, 67,27%.

O tomate, 52,76%.

O leite longa vida, 26,93%.

As frutas, 25,40%.

As carnes, 17,97%.

Como isso foi possível em uma economia que atravessava uma das maiores contrações de sua história?

Porque a pandemia alterou simultaneamente oferta, demanda e preços relativos.

As famílias deixaram os restaurantes e foram para as cozinhas

Uma parcela do consumo alimentar migrou abruptamente.

Restaurantes, bares, refeitórios empresariais e escolas perderam demanda. Em compensação, milhões de famílias passaram a consumir muito mais dentro de casa.

Isso modificou não apenas a quantidade, mas onde, em que embalagem e por qual cadeia logística os alimentos eram demandados.

Uma caixa de alimentos destinada a um restaurante não é necessariamente substituto imediato de centenas de embalagens destinadas a supermercados.

Cadeias de produção precisam de tempo para se reorganizar.

Ao mesmo tempo, medidas emergenciais de transferência de renda sustentaram parte do consumo doméstico de milhões de famílias.

O resultado foi uma demanda de supermercado mais resistente do que a recessão agregada sugeriria.

Mas o elemento brasileiro decisivo foi novamente o câmbio.

O real perdeu valor enquanto a China comprava commodities

O Banco Central, ao reconstruir posteriormente a inflação alimentar da pandemia, destacou que 2020 combinou Covid-19 e forte depreciação do real. Sua análise calcula que os preços dos alimentos, por uma medida de preços médios entre dezembros, avançaram cerca de 18,2%, muito acima do IPCA geral.

A moeda brasileira perdeu valor enquanto os preços internacionais de commodities agrícolas se recuperavam rapidamente.

Essa combinação multiplicava o efeito em reais.

Simultaneamente, a China retomava fortemente sua atividade econômica e continuava importando grandes volumes de soja, carnes e outras commodities.

Para o produtor brasileiro, exportar se tornava financeiramente atraente.

Isso não significa que exportações “retiraram toda a comida” do mercado brasileiro. Significa que o preço doméstico de produtos comercializáveis passou a refletir uma alternativa externa muito mais remuneradora em reais.

No arroz, havia ainda características próprias de oferta e estoques.

No óleo de soja, a relação era mais diretamente internacional: soja valorizada em dólares, real depreciado e demanda externa forte formavam uma combinação explosiva.

O IBGE resumiu o fenômeno atribuindo a alta de alimentos de 2020, entre outros fatores, ao aumento da demanda, à valorização do dólar e à elevação internacional das commodities.

A pandemia, portanto, não produziu simplesmente “falta de comida”.

Produziu uma reorganização violenta de preços relativos e cadeias de abastecimento.

E seus efeitos não terminaram em dezembro de 2020.

2021: quando a reabertura encontrou um mundo sem capacidade suficiente

A recuperação mundial ocorreu mais rapidamente do que várias cadeias produtivas conseguiam responder.

A demanda por mercadorias cresceu.

A produção industrial voltou.

A procura por energia aumentou.

Mas portos continuavam congestionados, contêineres estavam mal distribuídos e diversas indústrias enfrentavam escassez de insumos.

Fretes marítimos dispararam.

Energia ficou mais cara.

Fertilizantes começaram a subir.

Commodities agrícolas permaneceram pressionadas.

No Brasil, o IPCA saltou para 10,06% em 2021. Alimentação e bebidas aumentou 7,94%, mas naquele ano a pressão inflacionária se espalhou muito além da comida: transportes avançaram 21,03%, habitação 13,05% e combustíveis 49,02%. A gasolina subiu 47,49% e o etanol, 62,23%.

Essa disseminação é importante.

Energia não é uma categoria isolada dos alimentos.

Diesel movimenta caminhões e máquinas agrícolas.

Gás natural é matéria-prima essencial para determinados fertilizantes nitrogenados.

Eletricidade participa de irrigação, refrigeração e processamento.

Petróleo influencia combustíveis, embalagens e transporte.

Assim, o choque energético de 2021 estava criando condições para um novo choque alimentar.

Então, em 24 de fevereiro de 2022, tropas russas invadiram a Ucrânia.

2022: a guerra atingiu simultaneamente trigo, milho, óleo, gás e fertilizantes

Rússia e Ucrânia não eram atores marginais do sistema alimentar mundial.

Nos três anos anteriores à guerra, os dois países juntos respondiam por aproximadamente 30% das exportações mundiais de trigo e 20% das exportações de milho, segundo a FAO.

A Ucrânia era também um dos centros mundiais do mercado de óleo de girassol.

A região do Mar Negro era uma das principais artérias do comércio agrícola internacional.

A Rússia, por sua vez, tinha importância adicional em energia e fertilizantes.

A invasão atingiu todos esses mercados simultaneamente.

Portos ucranianos foram interrompidos.

Navios enfrentaram riscos de guerra.

Seguradoras aumentaram custos.

Compradores buscaram fornecedores alternativos.

Traders passaram a precificar risco de escassez.

Em março de 2022, apenas semanas após a invasão, o FAO Food Price Index saltou 12,6% em um único mês e chegou a 159,3 pontos, maior nível de toda a série iniciada em 1990.

Estava 33,6% acima de março de 2021.

O índice de cereais subiu 17,1% em um mês.

O trigo internacional aumentou aproximadamente 19,7%.

O milho, 19,1%.

Era um choque de velocidade excepcional.

Mas o problema brasileiro mais estratégico talvez estivesse embaixo da terra, antes mesmo de qualquer alimento ser plantado.

A vulnerabilidade brasileira dos fertilizantes

O Brasil tornou-se uma potência agrícola mundial, mas construiu parte dessa potência utilizando fertilizantes majoritariamente importados.

Em 2022, aproximadamente 85% dos fertilizantes utilizados pela agricultura brasileira eram provenientes do exterior, segundo o Ministério da Agricultura.

A Conab registrava que o Brasil respondia por cerca de 8% do consumo mundial desses insumos e importava mais de 80% do volume utilizado.

A Rússia era o maior fornecedor.

Em 2021, Rússia e Belarus, juntas, responderam por quase 30% das importações brasileiras de fertilizantes. Somente a Rússia representava aproximadamente 22%; Belarus, 6%.

A guerra e as sanções criaram, portanto, uma ameaça que ia muito além do trigo.

Se fertilizantes faltassem ou se tornassem excessivamente caros, a safra seguinte brasileira poderia ficar mais cara ou menor.

O problema era particularmente sensível para potássio e nitrogenados.

Além disso, a própria guerra encarecia o frete marítimo e complicava pagamentos, seguros e rotas comerciais.

Essa dependência ajuda a explicar por que uma guerra a mais de 10 mil quilômetros de distância podia alterar as expectativas de custo de uma lavoura no Paraná, em Mato Grosso ou Goiás.

Por que 2022 foi diferente de 2008

Os dois episódios compartilham vários elementos.

Em ambos houve commodities agrícolas caras.

Em ambos, energia pressionava custos.

Em ambos, fertilizantes eram problema.

Em ambos, governos discutiram restrições comerciais.

Em ambos, famílias pobres foram desproporcionalmente atingidas.

Mas as estruturas dos choques eram diferentes.

Em 2008, a crise foi construída progressivamente pela combinação de estoques baixos, crescimento da demanda, petróleo, biocombustíveis, clima, câmbio e restrições às exportações.

Em 2022, o sistema alimentar mundial já estava tensionado pela pandemia e pelo choque energético quando uma guerra atingiu diretamente uma das principais regiões exportadoras agrícolas do planeta.

Essa distinção explica a velocidade do movimento de março de 2022.

O recorde da FAO não começou com a invasão. Em fevereiro, antes que a guerra tivesse produzido seus efeitos completos, o índice já estava em 140,7 pontos, então o maior nível de sua história. Óleos vegetais já haviam atingido recorde, influenciados por oferta restrita de óleo de palma, perspectivas menores para soja sul-americana e preocupações com o óleo de girassol.

A guerra transformou uma situação já difícil em choque extremo.

No Brasil, a comida subiu 11,64% em 2022

O IPCA brasileiro terminou 2022 em 5,79%.

Esse número, isoladamente, pode dar a impressão de que a inflação estava moderadamente controlada.

Mas Alimentação e bebidas subiu 11,64%, praticamente o dobro do índice geral, e respondeu por 2,41 pontos percentuais da inflação anual.

A alimentação no domicílio avançou 13,23%.

Alguns produtos registraram aumentos muito superiores.

Cebola: 130,14%.

Batata-inglesa: 51,92%.

Leite longa vida: 26,18%.

Frutas: 24,00%.

Pão francês: 18,03%.

O leite oferece um exemplo particularmente interessante de como a inflação anual esconde movimentos internos.

Até julho, seu aumento acumulado em 2022 chegou a 77,84%. Depois, com a aproximação do fim da entressafra, os preços começaram a cair. Mesmo assim, terminou o ano 26,18% mais caro.

Esse comportamento introduz um conceito fundamental para compreender o período seguinte.

Inflação menor não significa comida barata

Suponha um alimento que custe R$ 10.

No primeiro ano, sobe 30% e passa para R$ 13.

No segundo ano, sua inflação cai para 2%.

O novo preço será aproximadamente R$ 13,26.

A inflação despencou de 30% para 2%.

Mas o alimento não voltou a custar R$ 10.

Esse processo chama-se desinflação: os preços continuam aumentando, porém mais lentamente.

É completamente diferente de deflação, quando o nível de preços efetivamente diminui.

Essa distinção explica grande parte da percepção social dos anos posteriores a 2022.

Quando autoridades ou estatísticas diziam que “a inflação dos alimentos caiu”, muitas famílias olhavam para os preços do supermercado e não percebiam uma reversão equivalente.

As duas observações podiam estar corretas.

A taxa de crescimento dos preços estava diminuindo.

Mas os preços permaneciam em um patamar muito superior ao anterior à pandemia.

2023: finalmente alguns alimentos começaram a cair

A partir de 2023, vários fatores passaram a operar no sentido contrário.

Cadeias logísticas normalizaram parcialmente.

Fretes marítimos recuaram em relação aos extremos da pandemia.

Algumas commodities internacionais diminuíram.

A produção agrícola brasileira foi forte.

O real apresentou períodos de apreciação.

E determinados alimentos começaram efetivamente a registrar deflação.

O Banco Central observou que, entre dezembro de 2022 e agosto de 2023, vários grupos alimentares recuaram: cereais, leguminosas e oleaginosas caíram aproximadamente 13,6%; tubérculos, raízes e legumes, 15%; carnes, 9,7%; aves e ovos, 6,3%; óleos e gorduras, 17,4%.

Era uma mudança importante.

Não se tratava apenas de inflação menor.

Em vários produtos, os preços realmente estavam recuando.

Mesmo assim, o nível acumulado desde 2019 permanecia elevado.

Segundo os cálculos apresentados pelo Banco Central naquele estudo, entre dezembro de 2019 e agosto de 2023 os preços de alimentos haviam acumulado elevações muito expressivas em diversos grupos: frutas, aproximadamente 60,7%; óleos e gorduras, 88,3%; tubérculos, raízes e legumes, 115,3%; aves e ovos, 52,6%; leites e derivados, 50,8%.

A desinflação não apagava a história anterior.

2024: o clima volta ao centro do problema

Depois de pandemia, guerra e energia, outro componente ganhou ainda mais importância: o clima.

Agricultura sempre dependeu de condições meteorológicas. O que mudou foi a crescente preocupação com frequência e intensidade de eventos extremos, além da interação entre El Niño, La Niña e tendências climáticas de longo prazo.

Secas e ondas de calor afetam produtividade.

Excesso de chuva pode impedir plantio ou colheita.

Temperaturas elevadas alteram floração e desenvolvimento das culturas.

Pastagens sofrem.

A produção de leite responde ao estresse térmico.

Café é particularmente sensível a temperatura e precipitação em determinados estágios.

Arroz depende intensamente de disponibilidade hídrica.

Hortaliças podem responder em semanas.

Em abril e maio de 2024, essa vulnerabilidade adquiriu forma dramática no Rio Grande do Sul.

Chuvas extraordinárias provocaram enchentes de grandes proporções, atingindo cidades, infraestrutura e áreas agrícolas.

O estado tem importância desproporcional em algumas cadeias, especialmente arroz.

Inicialmente, surgiu receio de forte impacto nacional sobre o abastecimento.

As estimativas posteriores mostraram um quadro mais complexo.

Mesmo após as enchentes, IBGE e Conab ainda projetavam crescimento expressivo da produção gaúcha de grãos em comparação com a safra anterior, que havia sido prejudicada pela seca. Entretanto, as projeções foram revisadas para baixo: o IBGE reduziu sua estimativa para soja no estado em 6,7%, milho em 6,6% e arroz em 1,6% em relação à projeção anterior; a Conab também realizou ajustes.

O episódio oferece uma lição metodológica.

Um desastre climático grave não se traduz automaticamente em escassez nacional proporcional.

É preciso perguntar quando ocorreu em relação ao calendário da colheita, qual parcela da produção já havia sido retirada do campo, quais regiões foram atingidas, quais estoques existem e se outras áreas produtoras conseguem compensar perdas.

Essa lógica vale para arroz, café, soja, milho, trigo, leite, carne e hortaliças — mas de maneiras diferentes.

O clima não afeta todos os alimentos da mesma forma

O tomate e a batata podem registrar variações violentas em poucos meses porque possuem ciclos relativamente curtos, elevada perecibilidade e forte sensibilidade às condições meteorológicas.

Grãos armazenáveis possuem outra dinâmica.

Carne bovina responde a um ciclo pecuário de vários anos: preços atuais influenciam retenção de fêmeas, abate, formação do rebanho e oferta futura.

Leite possui sazonalidade própria, custos de ração e resposta relativamente rápida às condições das pastagens.

Café pode sofrer hoje um choque climático cujos efeitos aparecem na safra seguinte.

Açúcar está ligado à cana e compete economicamente, em determinada medida, com a produção de etanol.

Soja e milho conectam alimentação humana, ração animal, biocombustíveis e exportações.

Trigo brasileiro possui forte componente externo porque o país historicamente complementa sua produção com importações.

Feijão é muito mais doméstico e regional.

Essa heterogeneidade explica por que falar simplesmente em “preço dos alimentos” pode esconder dezenas de mercados diferentes.

Em 2026, essa diferença entre produtos aparece claramente na própria cesta do DIEESE.

Agosto de 2026: queda mensal não significa que o problema acabou

A fotografia mais recente disponível oferece um contraste quase perfeito com 2008.

Em agosto de 2026, o custo da cesta básica caiu na grande maioria das capitais.

Mas isso não significa que a alimentação tivesse ficado estruturalmente barata.

Entre dezembro de 2025 e agosto de 2026, todas as 27 capitais pesquisadas pelo DIEESE acumularam aumento no custo da cesta. As variações iam de 2,82% em Brasília a 12,29% em Porto Velho. Na comparação com agosto de 2025, a cesta estava mais cara em 25 capitais e mais barata em apenas duas.

Essa aparente contradição desaparece quando distinguimos horizontes temporais.

Um preço pode cair 3% em agosto e ainda estar 10% acima do início do ano.

Pode cair dois meses consecutivos e permanecer muito superior ao nível de cinco anos antes.

É exatamente por isso que inflação mensal, inflação anual e nível de preços não são conceitos intercambiáveis.

A cesta de R$ 900

Em agosto de 2026, São Paulo tinha a cesta mais cara entre as 27 capitais: R$ 900,59.

Depois apareciam Cuiabá, R$ 851,57; Rio de Janeiro, R$ 851,19; Florianópolis, R$ 850,90; e Porto Alegre, R$ 839,34.

À primeira vista, comparar R$ 900,59 com os R$ 254,86 de Porto Alegre em dezembro de 2008 produz um número impressionante.

A cesta nominal mais cara ficou aproximadamente 3,53 vezes maior.

Mas concluir que “a comida ficou 253% mais cara em termos econômicos” seria incorreto.

Primeiro, estamos comparando cidades diferentes.

Segundo, são quase dezoito anos de inflação acumulada.

Terceiro, o salário mínimo também mudou.

Quarto, a abrangência geográfica da pesquisa mudou.

Quinto, preços relativos dos diferentes alimentos mudaram.

O exercício correto precisa comparar não apenas reais com reais, mas reais com poder de compra.

De R$ 415 para R$ 1.621

Em dezembro de 2008, o salário mínimo nominal era R$ 415.

Em 2026, é R$ 1.621.

Nominalmente, portanto, o piso nacional foi multiplicado por aproximadamente 3,91.

Já a cesta mais cara, tomando apenas os valores nominais extremos de cada fotografia, passou de R$ 254,86 para R$ 900,59 — multiplicação de aproximadamente 3,53.

Isso já revela algo que a comparação puramente nominal esconde.

O salário mínimo nominal aumentou proporcionalmente mais que a cesta mais cara nesse recorte específico.

Mas ainda não é suficiente para concluir que o trabalhador esteja “melhor” em sentido amplo.

O DIEESE oferece uma métrica adicional.

Em dezembro de 2008, o salário mínimo necessário era estimado em R$ 2.141,08, equivalente a 5,16 salários mínimos oficiais.

Em agosto de 2026, o valor calculado pelo DIEESE era R$ 7.565,86, equivalente a 4,67 vezes o salário mínimo de R$ 1.621.

A relação diminuiu.

Isso indica melhora relativa por essa métrica específica.

Mas uma distância de 4,67 vezes entre o mínimo efetivo e o mínimo necessário continua enorme.

Além disso, a experiência concreta depende da cidade e dos produtos consumidos.

Curitiba fornece um bom exemplo.

Curitiba: R$ 798,87 e 108 horas de trabalho

Em agosto de 2026, a cesta básica de Curitiba custava R$ 798,87.

No mês, havia caído 1,12%.

Parecia uma boa notícia.

Mas, desde dezembro de 2025, acumulava alta de 8,27%.

Em 12 meses, havia aumentado 6,13%.

O trabalhador curitibano remunerado pelo salário mínimo precisava trabalhar 108 horas e 25 minutos para comprar a cesta.

Depois do desconto previdenciário considerado pelo DIEESE, ela consumia 53,28% do salário mínimo líquido.

Mais da metade.

Esse número talvez seja economicamente mais intuitivo que R$ 798,87.

Ele traduz preço em tempo de vida laboral.

Quase 109 horas de trabalho apenas para adquirir a quantidade de alimentos básicos definida para um adulto pela metodologia.

E o comportamento dos produtos mostra novamente por que a inflação alimentar é heterogênea.

Entre julho e agosto de 2026, a batata caiu extraordinários 27,79% em Curitiba. O tomate recuou 4,88%; açúcar refinado, 1,77%; manteiga, 1,18%; banana, 0,71%.

Mas arroz aumentou 5,28%.

Feijão-preto, 4,28%.

Pão francês, 2,59%.

Óleo de soja, 1,96%.

Farinha de trigo, 1,92%.

Leite, 1,22%.

Café, 0,60%.

Carne bovina, 0,34%.

Uma única expressão — “a cesta caiu 1,12%” — esconde movimentos completamente distintos.

E, em 12 meses, o feijão-preto estava 28,34% mais caro, a batata 28,15% e a carne bovina 10,16%.

Para uma família que consome proporcionalmente mais feijão e carne e menos batata naquele mês, sua inflação percebida pode ser muito diferente da média da cesta.

A pesquisa também mudou

Existe outra razão pela qual a comparação histórica precisa ser cuidadosa.

A Pesquisa Nacional da Cesta Básica de Alimentos não tinha em 2008 a abrangência geográfica atual.

Hoje, a pesquisa cobre as 27 capitais brasileiras, fruto da ampliação realizada pelo DIEESE em parceria com a Companhia Nacional de Abastecimento.

Isso melhora extraordinariamente a capacidade de observar diferenças regionais, mas significa que rankings atuais não devem ser projetados retrospectivamente como se a cobertura fosse idêntica.

Também existem diferenças regionais na composição prevista pela metodologia.

Nas capitais do Norte e Nordeste, por exemplo, a quantidade de carne pesquisada é menor, utiliza-se farinha de mandioca no lugar da farinha de trigo e não se pesquisa batata.

Portanto, dizer que Aracaju possui uma cesta mais barata que São Paulo não significa simplesmente que “o mesmo carrinho de compras custa menos”.

A composição normativa também é diferente.

E o mundo de 2026 voltou a emitir sinais de pressão

Seria tentador encerrar esta história dizendo que, depois da pandemia e da guerra, o choque internacional terminou.

Os dados mais recentes não permitem essa conclusão.

Em setembro de 2026, o FAO Food Price Index chegou a 136,0 pontos.

Subiu 1,5% em apenas um mês.

Estava 5,8% acima de setembro de 2025.

Cereais, óleos vegetais e açúcar avançaram no mês.

A FAO relacionou a alta recente a uma combinação de condições meteorológicas adversas e perturbações no transporte e no comércio internacional.

Isso não significa que o mundo tenha retornado à crise de 2022.

Há uma diferença quantitativa fundamental.

Mesmo depois da recente alta, o índice de setembro de 2026 estava 15,1% abaixo do recorde de março de 2022.

Essa comparação é talvez a melhor descrição do momento atual.

Os preços internacionais não estão em recorde.

Mas tampouco retornaram a uma estabilidade estrutural capaz de eliminar os riscos.

De 2008 a 2026, mudou a origem dos choques — não a vulnerabilidade

Olhando os dezoito anos como um único período, surge um padrão.

Em 2008, o problema central foi uma crise internacional de commodities construída por estoques baixos, energia, biocombustíveis, clima, demanda e restrições comerciais.

Em 2010–2011, problemas de oferta e clima produziram outro pico mundial.

Em 2015–2016, o Brasil combinou forte depreciação cambial, recessão, El Niño e inflação.

Em 2018, uma paralisação logística doméstica mostrou a dependência rodoviária do abastecimento.

Em 2020, pandemia, câmbio, mudança no consumo e demanda internacional fizeram alimentos dispararem dentro de uma economia em recessão.

Em 2021, a recuperação mundial pressionou energia, commodities, fretes e insumos.

Em 2022, a guerra no Mar Negro atingiu cereais, óleos, energia e fertilizantes simultaneamente e levou o índice da FAO ao maior nível de sua história.

Em 2023, houve desinflação e, em vários alimentos, deflação.

Em 2024, as enchentes no Rio Grande do Sul lembraram que clima e concentração geográfica da produção continuam sendo riscos.

Em 2026, a cesta caiu mensalmente em quase todo o Brasil, mas continuava mais cara no acumulado do ano em todas as capitais, enquanto o índice internacional da FAO voltava a acelerar.

Não existe, portanto, uma única “crise da comida”.

Existem mecanismos diferentes capazes de produzir o mesmo resultado na mesa do consumidor.

Uma seca reduz oferta.

Uma moeda depreciada aumenta a referência doméstica de commodities.

Petróleo caro aumenta transporte e determinados custos produtivos.

Gás caro encarece fertilizantes nitrogenados.

Guerra pode bloquear portos.

Sanções podem dificultar comércio.

Uma pandemia pode reorganizar demanda e logística.

Uma greve pode impedir que um alimento já produzido chegue ao supermercado.

Uma enchente pode destruir produção e infraestrutura.

Uma safra excepcional pode fazer exatamente o contrário e derrubar preços.

Então, a cesta de 2026 é mais cara que a de 2008?

Em reais nominais, inequivocamente.

Mas essa é a resposta menos interessante.

Em dezembro de 2008, a cesta mais cara pesquisada custava R$ 254,86 e o salário mínimo era R$ 415.

Em agosto de 2026, a cesta mais cara custava R$ 900,59 e o mínimo era R$ 1.621.

A cesta nominal foi multiplicada aproximadamente 3,53 vezes.

O salário mínimo nominal, aproximadamente 3,91 vezes.

O mínimo necessário do DIEESE passou de R$ 2.141,08 para R$ 7.565,86 — multiplicação de aproximadamente 3,53 vezes — enquanto sua relação com o salário mínimo efetivo caiu de 5,16 para 4,67 vezes.

Isso sugere melhora relativa do piso salarial frente ao parâmetro alimentar utilizado pelo DIEESE.

Mas não significa que o problema esteja resolvido.

Em São Paulo, a cesta ainda absorvia 60,06% do salário mínimo líquido em agosto de 2026 e exigia 122 horas e 14 minutos de trabalho.

Em Curitiba, 53,28% e 108 horas e 25 minutos.

A melhora relativa convive, portanto, com um comprometimento de renda ainda extraordinariamente elevado.

Essa aparente contradição é essencial para compreender o Brasil contemporâneo.

O preço em reais é apenas a superfície

Depois de dezoito anos, uma conclusão começa a emergir.

Perguntar apenas “quanto custa a cesta?” é insuficiente.

É necessário perguntar:

quanto ganha o trabalhador?

Quanto desse rendimento sobra depois de contribuições obrigatórias?

Quantas horas ele precisa trabalhar para comprar alimentos?

Quanto sua família gasta com moradia, energia e transporte?

Qual é a inflação específica dos produtos que efetivamente consome?

O salário acompanhou a inflação?

A renda familiar vem de trabalho formal, informalidade, aposentadoria ou transferências?

E como essa relação brasileira se compara à de outros países?

Essa última pergunta é decisiva.

Porque R$ 900 não podem ser comparados diretamente com €150, US$ 250 ou 30 mil ienes.

Nem uma inflação alimentar brasileira de 4% pode ser declarada simplesmente “boa” ou “ruim” sem saber o que ocorre nas economias comparáveis.

É preciso considerar salários, renda disponível, paridade de poder de compra, peso dos alimentos no orçamento, produtividade agrícola, dependência de importações e políticas públicas.

O Brasil possui uma característica adicional: é simultaneamente uma das grandes potências agrícolas do planeta e uma economia na qual uma cesta básica ainda pode consumir mais da metade do salário mínimo líquido.

Esse aparente paradoxo só pode ser avaliado adequadamente colocando o país diante do restante do mundo.

E é justamente aí que a investigação muda novamente de escala.

Depois de reconstruir o que aconteceu entre 2008 e 2026, a pergunta já não é apenas se a comida ficou mais cara no Brasil.

A pergunta passa a ser:

quando comparado às economias com as quais mais negocia, o brasileiro ganhou ou perdeu poder de compra alimentar — e por que China, Estados Unidos, Argentina, Alemanha, Índia, México, Rússia, Japão e outros grandes parceiros atravessaram os mesmos choques globais com resultados tão diferentes?







Brasil e o preço da comida no mundo: por que os mesmos choques produziram resultados tão diferentes

Depois de reconstruir o que aconteceu com os preços dos alimentos no Brasil entre 2008 e 2026, surge uma pergunta inevitável: a experiência brasileira foi excepcional ou acompanhou aquilo que aconteceu nas economias com as quais o país mantém suas relações econômicas mais intensas?

A resposta é mais complexa do que parece.

Em 2008, praticamente todas as grandes economias receberam, em maior ou menor intensidade, o impacto da alta internacional de grãos, óleos vegetais, petróleo e fertilizantes. Em 2021 e 2022, novamente quase todo o planeta enfrentou o choque provocado pela combinação de pandemia, energia cara, congestionamento logístico e guerra entre Rússia e Ucrânia.

Mas os resultados nos supermercados foram radicalmente diferentes.

Em agosto de 2026, enquanto os preços dos alimentos na China estavam 1,4% abaixo dos de um ano antes, os alimentos consumidos no domicílio nos Estados Unidos subiam 2,2%; os mantimentos no Canadá, 2,8%; os alimentos na Rússia, aproximadamente 4,6%; e alimentos e bebidas não alcoólicas na Argentina acumulavam aproximadamente 34,9% de aumento em 12 meses.

Os mesmos mercados internacionais, portanto, convivem com inflações alimentares completamente distintas.

É justamente essa divergência que permite compreender melhor o Brasil.

Primeiro, quem são os parceiros que realmente importam?

Para evitar uma escolha arbitrária de países, é necessário definir “ligações econômicas” com um critério reproduzível.

Nesta análise, o critério principal é a corrente de comércio de bens, isto é, exportações brasileiras para determinado país somadas às importações provenientes dele. O Comex Stat, mantido pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, é a base oficial utilizada pelo Brasil para suas estatísticas de comércio exterior e possui informações detalhadas desde 1997, atualizadas mensalmente.

Em 2025, último ano completo antes desta análise, o Brasil exportou aproximadamente US$ 348,7 bilhões e importou cerca de US$ 280,4 bilhões, produzindo uma corrente total de aproximadamente US$ 629 bilhões.

A concentração nos primeiros parceiros é enorme.

A China, isoladamente, movimentou aproximadamente US$ 171 bilhões em comércio com o Brasil em 2025: cerca de US$ 100 bilhões em exportações brasileiras e US$ 71 bilhões em importações.

Os Estados Unidos movimentaram aproximadamente US$ 82,9 bilhões.

A Argentina, cerca de US$ 31 bilhões.

Depois aparecem economias como Alemanha, Países Baixos, Índia, México, Rússia, Japão, Chile, Itália, Coreia do Sul, Espanha, Canadá, França, Singapura, Vietnã e outros parceiros relevantes da Europa, Ásia e Oriente Médio.

Há pequenas alterações de posição conforme o ano e conforme se mede exportação, importação ou corrente comercial total. Isso explica por que uma relação dos “20 principais parceiros” não deve ser tratada como uma lista imutável.

O Japão, por exemplo, foi o 11º maior parceiro comercial brasileiro em 2025, com corrente de aproximadamente US$ 11,5 bilhões. O Vietnã, que há alguns anos teria aparecido muito abaixo nessa lista, já era o 18º parceiro, com aproximadamente US$ 7,4 bilhões.

Essa mudança também diz algo sobre a economia brasileira: a integração com a Ásia passou a desempenhar papel muito maior do que desempenhava em 2008.

Nenhum caso ilustra isso melhor do que a China.

China: o país que mudou a agricultura brasileira

Poucas transformações econômicas ocorridas entre 2008 e 2026 foram tão importantes para o Brasil quanto a ascensão chinesa.

A China é hoje, com ampla margem, o maior parceiro comercial brasileiro. Em 2025, o comércio bilateral chegou a aproximadamente US$ 171 bilhões, consolidando o país asiático pelo 17º ano consecutivo como principal parceiro do Brasil.

Essa relação é particularmente relevante para os alimentos porque a pauta brasileira enviada à China inclui quantidades gigantescas de:

soja;

carne bovina;

carne de frango;

carne suína;

milho;

açúcar;

celulose;

além de minério de ferro e petróleo.

A China tornou-se, portanto, uma das variáveis fundamentais da formação de preços de várias commodities brasileiras.

Isso cria um paradoxo interessante.

Em agosto de 2026, o índice de preços ao consumidor chinês aumentava apenas 0,8% em 12 meses.

Mais impressionante: os preços dos alimentos estavam 1,4% abaixo de agosto de 2025.

Ou seja, enquanto o Brasil continuava registrando aumento da cesta básica no acumulado de 2026, seu maior cliente agrícola apresentava deflação alimentar.

Como isso é possível?

Porque a China não é simplesmente uma compradora passiva de comida estrangeira.

O país administra enormes cadeias domésticas de produção, estoques, importações e políticas de segurança alimentar.

Além disso, produtos individuais podem se mover em direções completamente diferentes.

Em agosto de 2026, por exemplo, os vegetais frescos aumentaram fortemente no mês na China, enquanto frutas caíram. A carne suína segue uma dinâmica particularmente importante porque o porco ocupa posição central na dieta chinesa e possui peso significativo no índice de preços.

Quando a oferta de suínos aumenta excessivamente, os preços podem cair e arrastar para baixo toda a inflação alimentar. Quando doenças como a peste suína africana reduzem o rebanho, ocorre o contrário.

Essa dinâmica chinesa interessa diretamente ao Brasil.

Uma redução do rebanho suíno chinês pode elevar a demanda por carne importada.

Uma reconstrução do rebanho pode elevar a necessidade de soja para ração.

Estoques elevados de soja ou milho podem reduzir importações.

Portanto, o consumidor brasileiro e o consumidor chinês participam do mesmo mercado internacional, mas não experimentam necessariamente o mesmo resultado.

Estados Unidos: uma inflação alimentar moderada, mas muito diferente de 2008 e 2022

Os Estados Unidos são o segundo maior parceiro comercial brasileiro e possuem outra importância: exercem influência desproporcional sobre os mercados agrícolas globais.

São grandes produtores de:

milho;

soja;

trigo;

carne bovina;

frango;

leite;

e etanol de milho.

Além disso, Chicago continua sendo referência internacional para contratos futuros de várias commodities.

Em agosto de 2026, a inflação geral norte-americana estava em 3,4% em 12 meses.

Os alimentos subiam 2,7%.

Mas a categoria mais próxima daquilo que no Brasil imaginaríamos como compras de supermercado — food at home — aumentava apenas 2,2%.

Existe, entretanto, uma diferença relevante entre comer dentro e fora de casa.

Nos Estados Unidos, a alimentação fora do domicílio aumentava 3,4% no mesmo período.

Isso mostra por que “inflação dos alimentos” não é uma categoria universalmente homogênea.

Restaurantes incorporam salários, aluguéis e serviços de forma muito mais intensa que um supermercado.

Outro elemento diferencia os Estados Unidos do Brasil: a alimentação possui peso proporcionalmente menor no orçamento médio das famílias norte-americanas.

No CPI norte-americano de agosto de 2026, toda a categoria “food” representava aproximadamente 13,5% do índice, enquanto food at home tinha peso pouco superior a 8%.

Quando alimentos aumentam 10%, o efeito sobre o orçamento de uma família que gasta 10% da renda com comida é muito diferente daquele enfrentado por uma família que gasta 30%, 40% ou 50%.

Voltaremos a esse ponto.

Argentina: o caso extremo entre os principais parceiros brasileiros

Nenhum dos grandes parceiros econômicos do Brasil apresenta uma trajetória recente comparável à argentina.

Em agosto de 2026, a inflação geral argentina estava aproximadamente em 33,5% em 12 meses.

Alimentos e bebidas não alcoólicas aumentavam aproximadamente 34,9%.

Comparado aos 2% ou 3% observados em várias economias, o número parece extraordinário.

E é.

Mas existe uma informação indispensável: 34,9% representa uma enorme desaceleração em relação aos picos anteriores da crise inflacionária argentina.

Portanto, dizer que alimentos sobem quase 35% não significa necessariamente que a inflação esteja acelerando. Pode significar que continua muito alta, porém em processo de desinflação.

Esse é exatamente o tipo de situação discutido na Parte II.

A Argentina permite ainda compreender por que a condição de grande produtor agrícola não protege automaticamente uma economia contra inflação alimentar.

O país é um dos grandes produtores mundiais de soja, milho, trigo e carne.

Mesmo assim, preços domésticos podem aumentar intensamente.

Por quê?

Porque inflação alimentar não depende apenas de quantidade física produzida.

Depende também de:

taxa de câmbio;

inflação monetária;

expectativas;

controles e regras de comércio;

tributação;

custos de produção;

salários;

e dinâmica macroeconômica geral.

Se a moeda doméstica perde valor rapidamente, preços internacionalmente comercializáveis passam a valer muito mais na moeda local.

Argentina e Brasil compartilham agricultura exportadora.

Mas suas histórias monetárias recentes são radicalmente diferentes.

Por isso, comparar simplesmente “Brasil, 3% ou 4%; Argentina, 35%” sem mencionar regime inflacionário e cambial produziria uma conclusão superficial.

Alemanha e a Europa: o choque de 2022 passou primeiro pela energia

A Alemanha oferece um terceiro modelo.

É uma economia rica, grande importadora de energia e fortemente integrada ao sistema agroindustrial europeu.

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, a vulnerabilidade europeia não estava apenas nos cereais.

Estava no gás natural.

Antes da guerra, a Alemanha e outras economias europeias dependiam em graus variados do gás russo.

E gás natural não serve apenas para aquecer casas ou gerar eletricidade.

É também matéria-prima essencial na fabricação de amônia e fertilizantes nitrogenados.

Quando o gás disparou em 2022, fábricas europeias de fertilizantes reduziram ou interromperam produção.

Ao mesmo tempo:

trigo encarecia;

óleo de girassol encarecia;

energia encarecia;

transporte encarecia;

embalagens encareciam.

Foi um choque alimentar indireto através da energia.

Em 2026, porém, o quadro europeu era muito diferente.

Em agosto, a inflação da área do euro estava em 3,2%, mas o agregado “alimentos, álcool e tabaco” aumentava apenas 1,1% em 12 meses.

Alimentos processados, álcool e tabaco subiam apenas 0,5%; alimentos não processados, 2,7%.

Isso ajuda a explicar por que Alemanha, França, Itália, Espanha, Países Baixos e Bélgica chegaram a 2026 com inflação alimentar muito inferior aos picos de 2022–2023.

Mas novamente há uma armadilha.

Inflação baixa não significa que os alimentos retornaram ao preço de 2019.

Se um alimento europeu passou de €2 para €3 durante os choques de 2021–2023 e permanece em €3, sua inflação atual é zero.

Mas ele continua 50% acima do preço inicial.

Essa diferença entre taxa de inflação e nível de preços explica parte importante da insatisfação com custo de vida observada nas economias desenvolvidas.

Países Baixos: comércio gigantesco não significa consumo gigantesco

Os Países Baixos aparecem entre os maiores destinos das exportações brasileiras.

Isso poderia sugerir que os aproximadamente 18 milhões de habitantes holandeses consumissem volumes extraordinários de commodities brasileiras.

Não exatamente.

Roterdã é um dos maiores portos do mundo e funciona como porta de entrada para mercadorias destinadas a vários países europeus.

Assim, uma parte das exportações registradas como destinadas aos Países Baixos é posteriormente distribuída pelo continente.

Esse exemplo mostra outro cuidado necessário na interpretação da corrente comercial.

Um “parceiro comercial” não é necessariamente apenas um consumidor final.

Pode ser também:

hub logístico;

plataforma industrial;

centro de refino;

ou intermediário dentro de uma cadeia global.

Essa característica torna a relação Brasil–Países Baixos particularmente importante em soja, farelo, minério, petróleo e outros produtos.

Índia: onde uma mesma inflação alimentar pesa muito mais

A Índia ocupa posição crescente no comércio brasileiro e é uma das grandes economias em que alimentos possuem peso elevado no orçamento familiar.

Isso muda profundamente o significado social de qualquer choque.

Uma alta de 5% em alimentos pode ter impacto limitado sobre uma família rica que compromete 10% da renda com alimentação.

A mesma alta pode ser devastadora para uma família que dedica 40% ou 50%.

A Índia também possui mercados agrícolas fortemente condicionados pelas monções.

Chuva insuficiente pode reduzir produção.

Chuva excessiva pode destruir cultivos.

Além disso, o país é simultaneamente produtor, consumidor e importante participante dos mercados internacionais de:

arroz;

trigo;

açúcar;

óleos vegetais;

leguminosas.

Esse papel frequentemente coloca o governo indiano diante de um dilema.

Quando os preços domésticos aumentam, restringir exportações pode proteger consumidores indianos.

Mas, como vimos em 2008, retirar oferta de um mercado internacional já tensionado pode elevar preços no restante do mundo.

Foi exatamente essa lógica que reapareceu em anos recentes com restrições indianas às exportações de determinadas variedades de arroz.

Uma decisão tomada em Nova Délhi pode, portanto, afetar consumidores na África, Ásia e Oriente Médio.

É uma demonstração particularmente clara de como políticas nacionais de segurança alimentar produzem externalidades globais.

Rússia: comida, energia e fertilizantes no mesmo país

A Rússia ocupa uma posição incomum entre os parceiros brasileiros.

O comércio bilateral é fortemente influenciado por fertilizantes.

Para o Brasil, isso é estrategicamente relevante porque a agricultura brasileira importa a maior parte do fertilizante que utiliza.

Como discutido na Parte II, Rússia e Belarus respondiam por parcela expressiva dessas importações antes da guerra.

Mas a Rússia também é uma das grandes exportadoras mundiais de trigo.

Portanto, aparece simultaneamente em três mercados capazes de alterar o preço mundial da comida:

grãos;

energia;

fertilizantes.

Em agosto de 2026, o índice geral de preços ao consumidor russo estava aproximadamente 6,33% acima de um ano antes.

Os produtos alimentícios, incluindo bebidas alcoólicas na classificação ampla, subiam cerca de 5,08%; uma medida mais estrita de alimentos mostrava aumento próximo de 4,63%.

A média, entretanto, escondia movimentos enormes.

Carnes e aves estavam aproximadamente 9% mais caras.

Frango, mais de 16%.

Ao mesmo tempo, vários vegetais apresentavam quedas mensais de dois dígitos devido à sazonalidade da produção.

É outra demonstração de que “inflação alimentar de 5%” pode conter produtos subindo 15% e outros caindo 20%.

México: inflação alimentar relativamente contida dentro de outra estrutura econômica

O México é um dos principais mercados latino-americanos para produtos brasileiros e possui forte integração industrial com os Estados Unidos.

Sua estrutura alimentar combina produção doméstica importante com dependência de alguns mercados norte-americanos.

Em agosto de 2026, o INEGI registrava inflação geral de aproximadamente 3,26% em 12 meses.

A categoria de alimentos, bebidas e tabaco aumentava aproximadamente 2,40%.

Isso colocava a inflação alimentar mexicana abaixo da brasileira em diversas medidas naquele momento.

Mas México e Brasil possuem estruturas agrícolas diferentes.

O México está muito mais integrado às cadeias agroalimentares norte-americanas, particularmente milho, carnes e produtos processados.

O Brasil possui peso muito maior como exportador mundial de soja, açúcar, café e carnes.

Novamente, taxas semelhantes podem surgir de mecanismos completamente diferentes.

Chile: o custo da importação em uma economia aberta

O Chile representa outro modelo latino-americano.

É uma economia extremamente aberta ao comércio exterior e depende mais de importações para diversos alimentos do que o Brasil.

Em agosto de 2026, o IPC chileno registrava inflação geral de 4,1% em 12 meses.

Somente naquele mês, alimentos e bebidas não alcoólicas aumentaram 1,4%, sendo uma das categorias responsáveis pela pressão inflacionária de agosto.

Em economias importadoras, o câmbio tende a ser ainda mais importante.

Quando a moeda local se desvaloriza, alimentos importados ficam imediatamente mais caros.

Mas mesmo produtos domésticos podem acompanhar a referência externa quando produtores têm alternativa de exportação.

Brasil e Chile demonstram, por caminhos diferentes, como comércio internacional integra os preços domésticos aos mercados mundiais.

Canadá: inflação baixa hoje não significa supermercado barato

O Canadá oferece um exemplo excepcionalmente instrutivo.

Como vimos na Parte I, em 2008 a inflação dos alimentos no país acelerou intensamente.

Em 2026, o quadro era muito mais moderado.

Em agosto, a inflação geral canadense estava em 3,0%, enquanto os alimentos comprados em supermercados aumentavam 2,8% em 12 meses.

À primeira vista, parece uma situação tranquila.

Mas o Statistics Canada acrescenta uma informação que muda completamente a interpretação:

os preços dos mantimentos estavam 29% acima do nível de agosto de 2021.

Esse número resume a distinção entre inflação e custo de vida.

A inflação atual é 2,8%.

O aumento acumulado em cinco anos é 29%.

Portanto, uma família canadense pode ouvir que “a inflação dos alimentos está abaixo de 3%” e ainda perceber que seu orçamento de supermercado está muito mais pressionado que antes da pandemia.

Não há contradição.

São horizontes temporais diferentes.

Japão e Coreia do Sul: dependência externa e vulnerabilidade cambial

Japão e Coreia do Sul são duas economias desenvolvidas altamente industrializadas, mas com restrições agrícolas estruturais.

Possuem pouco território agricultável relativamente à população e dependem consideravelmente de importações de:

grãos;

ração;

energia;

e diversos insumos agrícolas.

O Brasil é fornecedor importante de vários desses produtos.

Em 2025, somente o comércio Brasil–Japão atingiu aproximadamente US$ 11,5 bilhões. As exportações brasileiras incluíam carnes de aves, café, carne suína, soja e outros produtos, além de minério e metais.

Nessas economias, o câmbio possui peso particularmente importante.

Quando o iene japonês se enfraquece frente ao dólar, uma commodity cujo preço internacional permanece estável pode ficar mais cara em moeda local.

O mesmo mecanismo discutido para o real brasileiro funciona ali.

Há ainda particularidades domésticas.

O arroz japonês, por exemplo, possui estrutura de produção, proteção comercial e política agrícola muito própria.

Portanto, mesmo economias altamente abertas não simplesmente “importam” a inflação mundial de maneira automática.

Vietnã: de parceiro periférico a elo importante da Ásia

O Vietnã merece destaque porque sua ascensão dentro do comércio brasileiro é relativamente recente.

Em 2025, a corrente bilateral chegou a aproximadamente US$ 7,4 bilhões, colocando o país em 18º lugar entre os parceiros comerciais do Brasil.

As exportações brasileiras incluem:

milho;

algodão;

soja;

trigo;

fumo;

café;

carne suína.

As importações vietnamitas incluem eletrônicos, equipamentos de telecomunicações, pneus, siderúrgicos, calçados e vestuário.

Essa pauta resume a nova relação brasileira com a Ásia.

O Brasil exporta em grande medida matérias-primas agrícolas, minerais e alimentos.

Importa manufaturas e componentes industriais.

A expansão de economias como Vietnã, Indonésia e outros países do Sudeste Asiático tende, portanto, a aumentar a importância da região para a agricultura brasileira mesmo quando o crescimento chinês desacelera.

Singapura: pequeno país, enorme papel logístico

Singapura oferece outro exemplo de como corrente comercial não deve ser confundida com população.

Com pouco mais de cinco milhões de habitantes, aparece entre mercados importantes para exportações brasileiras.

Sua função como centro:

portuário;

financeiro;

petroquímico;

de refino;

e de redistribuição comercial

explica parte dessa presença.

A alimentação local, entretanto, depende fortemente de importações.

Isso poderia sugerir inflação alimentar estruturalmente maior.

Não necessariamente.

Países ricos e altamente integrados podem reduzir vulnerabilidade mediante:

diversificação de fornecedores;

logística eficiente;

estoques;

moeda forte;

e grande capacidade financeira para importar.

É um contraste instrutivo com países pobres igualmente dependentes de alimentos estrangeiros.

Dependência externa não possui o mesmo significado quando a renda per capita e as reservas internacionais são muito diferentes.

A Europa como bloco é ainda mais importante do que seus países isoladamente

Ao observar Alemanha, Países Baixos, Itália, Espanha, França e Bélgica separadamente, pode-se perder uma dimensão fundamental.

A União Europeia, considerada como bloco, é um dos maiores parceiros econômicos do Brasil.

Em 2025, a corrente de bens entre Brasil e UE ficou em aproximadamente US$ 100 bilhões, equivalendo a cerca de 16% de todo o comércio exterior brasileiro. As exportações brasileiras para o bloco alcançaram perto de US$ 49,8 bilhões, e as importações, aproximadamente US$ 50,3 bilhões.

A relação também é muito mais diversificada do que a existente com a China.

O Brasil envia à Europa:

café;

soja e farelo;

minérios;

celulose;

carnes;

frutas;

aeronaves;

químicos;

máquinas;

metais.

E compra:

medicamentos;

máquinas;

equipamentos;

produtos químicos;

veículos;

bens industriais sofisticados.

Isso importa porque uma relação comercial diversificada produz canais distintos de transmissão.

A China influencia fortemente commodities.

A Europa influencia também tecnologia, capital, medicamentos, máquinas agrícolas e investimento.

Os mesmos choques, cinco resultados diferentes

Depois de observar esses países, é possível agrupá-los não por geografia, mas pela maneira como a inflação alimentar se apresenta em 2026.

Um primeiro grupo vive deflação ou estabilidade de alimentos.

A China é o exemplo mais importante: aproximadamente -1,4% em agosto.

Em várias economias europeias, a inflação alimentar estava próxima de zero ou muito baixa dentro do agregado da área do euro.

Um segundo grupo apresenta inflação alimentar baixa, aproximadamente entre 1% e 3%.

Aqui aparecem Estados Unidos, Canadá, México e várias economias da Europa Ocidental.

Um terceiro grupo apresenta pressão moderada, aproximadamente entre 3% e 6%.

Brasil, Chile e Rússia podem transitar nesse intervalo, dependendo do indicador e do período utilizado.

Um quarto grupo apresenta inflação significativamente maior que a observada nas economias desenvolvidas.

Um quinto é representado pela Argentina, cuja inflação alimentar permanece em dezenas de pontos percentuais.

Mas mesmo essa classificação precisa ser interpretada com cuidado.

Porque uma inflação de 2% pode coexistir com alimentos historicamente caros.

O Canadá mostrou isso de maneira cristalina: apenas 2,8% em 12 meses, mas 29% de aumento acumulado nos supermercados desde agosto de 2021.

Lei de Engel: por que a mesma inflação não produz o mesmo sofrimento

A comparação internacional começa a fazer sentido quando se introduz novamente a Lei de Engel.

Quanto menor a renda de uma família, maior tende a ser a proporção destinada à alimentação.

Isso significa que o impacto de uma alta de preços depende de duas coisas:

quanto os alimentos aumentam

e

quanto a família precisa gastar com eles.

Considere duas famílias hipotéticas.

A família A gasta 10% da renda com comida.

A família B gasta 40%.

Se os preços dos alimentos aumentarem 20% e o consumo permanecer constante:

a família A sofre impacto direto equivalente a cerca de 2% de sua renda;

a família B sofre impacto equivalente a aproximadamente 8%.

O mesmo choque alimentar produz um impacto proporcional quatro vezes maior.

É por isso que crises de alimentos são particularmente perigosas em países pobres.

E é também por isso que médias nacionais escondem desigualdade interna.

Uma família brasileira de alta renda pode gastar proporcionalmente menos com alimentação que uma família de baixa renda nos Estados Unidos.

Da mesma maneira, uma família pobre norte-americana sofre muito mais com alta de alimentos do que a média do CPI sugeriria.

A comparação correta não é apenas país contra país.

É também classe de renda contra classe de renda.

Ser exportador de alimentos não garante preços baixos

Brasil, Argentina, Estados Unidos, Canadá e Rússia possuem forte produção agrícola.

Mesmo assim, todos experimentaram episódios de inflação alimentar relevante.

Esse aparente paradoxo pode ser resolvido com quatro conceitos.

O primeiro é custo de oportunidade.

Se um produtor pode vender no exterior por determinado preço, essa alternativa influencia aquilo que aceita receber no mercado doméstico.

O segundo é câmbio.

O preço internacional precisa ser convertido para moeda local.

O terceiro é insumo importado.

Um país pode exportar soja e carne, mas importar fertilizantes, defensivos, máquinas ou energia.

O quarto é distribuição.

Produzir alimento não significa que todas as famílias possuem renda suficiente para comprá-lo.

Esse último ponto será central na Parte IV.

Ser importador também não significa necessariamente inflação alta

O caso inverso é igualmente importante.

Japão, Coreia do Sul e Singapura dependem fortemente de importações.

Mesmo assim, podem atravessar determinados períodos com inflação alimentar relativamente moderada.

Por quê?

Porque uma economia rica pode compensar dependência física de alimentos com:

alta renda;

moeda relativamente estável;

reservas;

contratos internacionais;

diversificação de fornecedores;

infraestrutura eficiente;

e políticas comerciais.

Segurança alimentar, portanto, não significa simplesmente produzir tudo internamente.

Significa possuir capacidade confiável de acesso.

2008, 2022 e 2026 não são a mesma crise

A comparação dos vinte principais parceiros brasileiros também deixa claro que os três momentos precisam ser separados.

2008 foi uma crise extremamente sincronizada.

Petróleo, grãos e óleos subiram juntos.

Estoques estavam baixos.

Governos restringiram exportações.

O dólar estava fraco.

Biocombustíveis aumentavam a demanda agrícola.

Inflação alimentar chegou a dois dígitos em grande parte do mundo emergente.

2022 foi um choque sobre um sistema que já estava fragilizado pela pandemia.

Fretes estavam caros.

Energia estava cara.

Fertilizantes já haviam subido.

Então a Rússia invadiu a Ucrânia.

O índice da FAO atingiu seu maior nível histórico.

2026, por contraste, é um mundo fragmentado.

Há nova pressão sobre algumas commodities e sobre energia e transporte, mas os resultados domésticos variam radicalmente.

China: deflação alimentar.

Estados Unidos: aproximadamente 2,7%.

Canadá: 2,8%.

México: cerca de 2,4% em alimentos, bebidas e tabaco.

Rússia: aproximadamente 4,6%-5%.

Argentina: aproximadamente 35%.

Essas diferenças mostram que o choque internacional constitui apenas o início da história.

Depois entram:

câmbio;

política monetária;

política fiscal;

produtividade;

estoques;

subsídios;

impostos;

renda;

estrutura agrícola;

logística;

concorrência;

e políticas comerciais.

Então o Brasil está melhor ou pior?

Depende do que significa “melhor”.

Se a comparação for apenas taxa recente de inflação alimentar, o Brasil se encontra numa posição intermediária entre seus grandes parceiros.

Não apresenta a deflação chinesa.

Tampouco enfrenta a inflação argentina.

Em determinados momentos recentes, sua inflação alimentar esteve acima da observada nos Estados Unidos, Canadá, México e grande parte da Europa Ocidental, mas abaixo de episódios registrados em Rússia, Índia ou Argentina.

Entretanto, essa conclusão é incompleta.

Se medirmos nível de preços, a classificação muda.

Se medirmos salário, muda novamente.

Se utilizarmos renda disponível, muda mais uma vez.

Se utilizarmos paridade de poder de compra, surge outro resultado.

Se utilizarmos porcentagem do rendimento necessária para comprar alimentos, temos provavelmente a comparação socialmente mais importante.

E se utilizarmos segurança alimentar, precisamos considerar não apenas preços, mas renda, pobreza, transferências, disponibilidade e acesso.

É exatamente por isso que dizer que “os alimentos aumentam apenas 2% nos Estados Unidos e 4% no Brasil, portanto os americanos estão duas vezes melhor” seria economicamente absurdo.

O norte-americano possui renda diferente.

A cesta é diferente.

Os preços absolutos são diferentes.

Tributos são diferentes.

Habitação custa diferente.

Transportes custam diferente.

O peso dos alimentos no orçamento é diferente.

Da mesma forma, comparar o preço nominal de um quilo de carne convertido pela taxa de câmbio pode produzir conclusões sem qualquer significado para o poder de compra local.

A variável decisiva é a relação entre preço, renda e necessidade.

O paradoxo brasileiro se torna mais nítido quando olhamos o mundo

Depois dessa comparação internacional, a posição brasileira torna-se ainda mais interessante.

O Brasil é simultaneamente:

um dos maiores produtores agrícolas do planeta;

um dos maiores exportadores líquidos de alimentos;

o principal fornecedor de várias commodities para a China;

um país com extraordinária disponibilidade de terra, água e tecnologia tropical;

e uma economia na qual, em algumas capitais, uma cesta alimentar básica ainda pode absorver mais da metade do salário mínimo líquido.

Não existe contradição econômica.

Produção agrícola responde à pergunta:

há alimentos sendo produzidos?

Poder de compra responde a outra:

as famílias conseguem comprá-los?

Um país pode produzir excedente agrícola e possuir famílias em insegurança alimentar.

Pode exportar bilhões em carne e ter consumidores reduzindo consumo de proteína.

Pode colher safra recorde e registrar inflação de determinado alimento.

Pode ter inflação baixa e alimentos ainda caros.

Pode ter alimentos disponíveis fisicamente e inacessíveis economicamente.

A grande mudança entre 2008 e 2026 é que o Brasil se tornou ainda mais importante para a segurança alimentar de outros países.

A China depende da produção brasileira para determinadas cadeias.

A Europa compra café, soja, carnes, frutas e outros produtos.

Japão importa carne de frango, café, soja e carne suína.

Vietnã compra milho, soja, trigo e carne.

Diversos países do Oriente Médio compram proteína animal brasileira.

Ao mesmo tempo, o próprio Brasil depende do mundo para:

fertilizantes;

máquinas;

defensivos;

energia;

tecnologia;

e determinados alimentos.

O sistema é interdependente.

É por isso que a pergunta original deste artigo — quanto custava a cesta básica em 2008 e quanto custa hoje — acabou levando a uma questão muito maior.

A verdadeira medida da comida não está apenas na etiqueta do supermercado.

Está na quantidade de trabalho necessária para pagar aquela etiqueta.

Está na proporção da renda familiar consumida por ela.

Está na vulnerabilidade da produção ao clima.

Está no dólar.

Está no gás natural utilizado para fabricar fertilizante.

Está no preço do petróleo que movimenta um navio e um caminhão.

Está na demanda chinesa por soja.

Está em uma decisão indiana de restringir exportações de arroz.

Está em um porto do Mar Negro.

Está em uma seca no Centro-Oeste brasileiro.

Está numa enchente no Rio Grande do Sul.

Está, finalmente, na distribuição de renda.

E essa é a questão que resta para a última parte.

Se o Brasil produz muito mais alimentos, exporta muito mais, possui tecnologia agrícola muito superior àquela disponível em 2008 e viu o salário mínimo crescer mais que a cesta em algumas métricas, por que a alimentação ainda pesa tanto no orçamento de milhões de brasileiros?

Responder a essa pergunta exige deixar de olhar apenas para inflação e comércio.

É necessário entrar no problema central:

a comida ficou mais cara ou o brasileiro ficou relativamente mais rico — e até que ponto essa melhora, quando existiu, foi suficiente para transformar de fato o acesso à alimentação?

Essa é a pergunta que liga preço, salário, desigualdade, segurança alimentar e o futuro do Brasil.






Depois de 18 anos: a comida ficou mais cara ou o brasileiro ficou mais pobre?

Ao final desta investigação, a pergunta que parecia simples no início se tornou muito mais difícil.

Em dezembro de 2008, a cesta básica mais cara entre as capitais então pesquisadas pelo DIEESE custava R$ 254,86, em Porto Alegre. O salário mínimo oficial era R$ 415. O salário mínimo considerado necessário pelo DIEESE para sustentar uma família de quatro pessoas alcançava R$ 2.141,08, equivalente a 5,16 vezes o piso nacional.

Em agosto de 2026, a cesta mais cara estava em São Paulo e custava R$ 900,59. O salário mínimo havia chegado a R$ 1.621, valor estabelecido pelo Decreto nº 12.797, de 23 de dezembro de 2025. O mínimo necessário calculado pelo DIEESE alcançava R$ 7.565,86, ou 4,67 vezes o piso oficial.

Em valores nominais, tudo parece muito mais caro.

A cesta de referência utilizada nessa comparação passou de aproximadamente R$ 255 para cerca de R$ 901.

O salário mínimo passou de R$ 415 para R$ 1.621.

O mínimo necessário do DIEESE saiu de pouco mais de R$ 2,1 mil para aproximadamente R$ 7,6 mil.

Mas nenhuma dessas comparações, sozinha, responde à pergunta central.

O problema real nunca foi apenas quanto custava a comida.

Sempre foi quanto trabalho era necessário para comprá-la, quanto da renda ela consumia e quanto restava depois dela para pagar moradia, transporte, energia, saúde, educação e todas as demais necessidades familiares.

É somente nesse ponto que a história de 2008 a 2026 começa a fazer sentido.

A primeira resposta: nominalmente, a comida ficou muito mais cara

A resposta mais elementar é inequívoca.

Sim, os preços nominais dos alimentos são muito superiores aos de 2008.

Mas uma comparação de preços separados por quase dezoito anos sem controlar inflação é economicamente pouco informativa.

Um real de 2008 e um real de 2026 não possuem o mesmo poder de compra.

Ao longo desse intervalo, aumentaram:

salários;

aluguéis;

energia;

combustíveis;

serviços;

tributos monetariamente expressos;

preços industriais;

custos de produção;

e praticamente todo o nível geral de preços da economia.

Portanto, dizer que uma cesta de aproximadamente R$ 900 custa mais de três vezes uma cesta de aproximadamente R$ 255 é verdadeiro em termos contábeis e insuficiente em termos econômicos.

A comparação precisa migrar do preço nominal para o preço relativo.

Quanto custava a cesta em relação ao salário?

É aí que a leitura muda.

O salário mínimo aumentou proporcionalmente mais que a cesta nessa fotografia específica

Entre R$ 415 e R$ 1.621, o salário mínimo nominal foi multiplicado por aproximadamente 3,91.

Entre R$ 254,86 e R$ 900,59, a cesta mais cara observada nas respectivas fotografias foi multiplicada por aproximadamente 3,53.

Isso não significa que todos os trabalhadores ganharam poder aquisitivo em todos os alimentos.

Tampouco significa que o custo de vida como um todo melhorou.

Mas mostra que a conclusão “a cesta ficou 3,5 vezes mais cara, logo o trabalhador ficou 3,5 vezes pior” está errada.

O denominador também mudou.

Outro indicador do próprio DIEESE aponta na mesma direção.

Em dezembro de 2008, o salário mínimo necessário equivalia a 5,16 mínimos oficiais.

Em agosto de 2026, correspondia a 4,67 mínimos.

Essa relação diminuiu cerca de 9,5%.

Em uma métrica estritamente relativa, portanto, ocorreu melhora.

Mas essa melhora não deve ser confundida com conforto econômico.

Um salário mínimo necessário equivalente a 4,67 vezes o mínimo oficial continua revelando enorme distância entre o piso legal e o padrão de despesas familiares utilizado na metodologia do DIEESE.

E os números das capitais tornam essa distância mais concreta.

A medida mais reveladora é o tempo

Em São Paulo, em agosto de 2026, o trabalhador remunerado pelo salário mínimo precisava dedicar mais de 122 horas de trabalho para comprar uma cesta básica.

Em Curitiba, a cesta custava R$ 798,87. O trabalhador precisava de 108 horas e 25 minutos de trabalho para adquiri-la.

Considerado o salário mínimo líquido, a cesta curitibana absorvia 53,28% da renda. No mesmo levantamento, o DIEESE mostrou que Curitiba acumulava alta de 8,27% em 2026 e de 6,13% em 12 meses, embora tivesse registrado queda mensal de 1,12%.

Esse indicador transforma preços abstratos em algo economicamente mais palpável.

Cento e oito horas equivalem a quase quatorze jornadas de oito horas.

Isso apenas para o conjunto alimentar normativo de um adulto.

Não inclui:

aluguel;

conta de luz;

gás;

água;

ônibus;

medicamentos;

material escolar;

telefone;

vestuário;

higiene;

lazer;

ou imprevistos.

É por isso que poder de compra não pode ser avaliado simplesmente perguntando se o salário mínimo subiu mais que determinada cesta.

A família não vive de cesta básica isoladamente.

O salário mínimo também não representa toda a população brasileira

Existe ainda outra limitação.

O salário mínimo é uma referência importante porque afeta trabalhadores, aposentadorias, benefícios e diversos contratos.

Mas ele não é sinônimo de renda da população brasileira.

O país possui:

trabalhadores formais;

autônomos;

informais;

desempregados;

aposentados;

beneficiários de transferências;

famílias com múltiplos rendimentos;

famílias com apenas uma fonte de renda.

Duas famílias submetidas ao mesmo preço de arroz e feijão podem experimentar situações econômicas completamente diferentes.

Uma possui dois adultos empregados formalmente.

Outra depende de uma única renda irregular.

Uma mora em imóvel próprio.

Outra compromete metade da renda com aluguel.

Uma vive próxima ao trabalho.

Outra gasta horas e parcela significativa do orçamento em transporte.

Portanto, o impacto social dos alimentos depende da renda disponível depois das demais despesas essenciais.

É por isso que inflação de alimentos possui caráter particularmente regressivo.

A comida é regressiva porque famílias pobres não podem deixar de comer

A Lei de Engel, discutida anteriormente, é decisiva para compreender o Brasil.

Quanto menor a renda, maior tende a ser a proporção do orçamento destinada à alimentação.

Uma família de alta renda pode reagir a uma alta de alimentos reduzindo restaurantes, escolhendo marcas mais baratas ou alterando a composição do consumo sem comprometer sua ingestão calórica.

Uma família pobre possui margem muito menor.

Quando os alimentos aumentam, a adaptação pode envolver:

troca de carne por proteína mais barata;

redução de frutas;

substituição de produtos frescos;

queda na qualidade nutricional;

menor variedade;

redução de quantidade;

ou atraso em outras despesas.

Por isso, inflação alimentar não é apenas um problema de índice de preços.

Pode tornar-se um problema nutricional.

E, em casos extremos, um problema de segurança alimentar.

Produzir comida e ter fome não são fenômenos incompatíveis

Esse é talvez o paradoxo mais importante de toda esta história.

Em 2025, o agronegócio brasileiro exportou US$ 169,2 bilhões, recorde histórico, equivalente a 48,5% de todas as exportações do país. O setor produziu superávit comercial de aproximadamente US$ 149 bilhões. A soja em grão gerou US$ 43,5 bilhões em receitas externas, com volume recorde de 108,2 milhões de toneladas. A carne bovina também bateu recordes de valor e volume.

Na safra 2025/26, a Conab estima que o Brasil tenha alcançado aproximadamente 361,7 milhões de toneladas de grãos, novo recorde, sobre uma área de cerca de 83,5 milhões de hectares.

A agricultura brasileira nunca produziu tanto.

Mesmo assim, insegurança alimentar não desapareceu.

Segundo a PNAD Contínua/EBIA do IBGE, em 2024 cerca de 24,2% dos domicílios brasileiros apresentavam algum grau de insegurança alimentar.

O indicador havia melhorado em relação a 2023, quando atingia 27,6%, mas ainda correspondia a aproximadamente 18,9 milhões de domicílios.

A insegurança alimentar grave estava presente em 3,2% dos domicílios brasileiros em 2024. No meio rural, chegava a 4,6%.

Esse aparente paradoxo desaparece quando se distingue produção de acesso.

Uma sociedade pode produzir enormes volumes de alimentos e ainda apresentar insegurança alimentar se uma parcela de sua população não tiver renda suficiente para adquiri-los.

Segurança alimentar possui pelo menos quatro dimensões fundamentais:

disponibilidade;

acesso;

utilização adequada;

estabilidade no tempo.

O Brasil possui enorme disponibilidade física de alimentos.

O problema não é apenas produzir.

É garantir acesso econômico regular.

Uma potência agrícola de escala planetária

A transformação produtiva brasileira entre 2008 e 2026 foi extraordinária.

A soja tornou-se o produto agrícola de maior valor de produção do país. Em 2025, o IBGE estimou valor de produção superior a R$ 315 bilhões.

O milho respondeu por cerca de R$ 122 bilhões.

A cana-de-açúcar, aproximadamente R$ 109 bilhões.

O café aproximou-se de R$ 100 bilhões.

O algodão superou R$ 40 bilhões.

Esse desempenho não decorreu apenas de expansão territorial.

O Brasil desenvolveu um sistema de agricultura tropical de elevada produtividade baseado em:

melhoramento genético;

correção química dos solos;

plantio direto;

segunda safra;

integração lavoura-pecuária;

agricultura de precisão;

mecanização;

pesquisa pública;

tecnologia privada;

manejo de fertilidade;

e expansão logística.

A chamada segunda safra de milho é exemplo particularmente importante.

Em muitas regiões, o mesmo hectare produz soja no verão e milho posteriormente.

Isso multiplica a produção sem exigir expansão proporcional da área.

A agricultura brasileira, portanto, tornou-se simultaneamente mais extensa e mais intensiva.

Mas esse sucesso aumentou sua integração à economia mundial.

E integração produz oportunidades e vulnerabilidades.

O dólar está dentro do supermercado brasileiro

Imagine uma tonelada de soja negociada internacionalmente por US$ 450.

Com dólar a R$ 4,00, essa tonelada corresponde, simplificadamente, a R$ 1.800.

Com dólar a R$ 6,00, corresponde a R$ 2.700.

O preço internacional não mudou.

Mas o valor em reais aumentou 50%.

Para um produtor brasileiro que pode exportar, essa alteração modifica seu custo de oportunidade.

O mercado doméstico precisa competir, direta ou indiretamente, com a alternativa externa.

Esse mecanismo não significa que supermercados simplesmente convertam cotações de Chicago pela taxa de câmbio.

A cadeia possui:

frete;

impostos;

processamento;

armazenagem;

margens;

qualidade;

localização;

contratos;

e estrutura concorrencial.

Mas o princípio permanece.

Quanto maior a integração internacional de determinado produto, maior tende a ser a influência combinada de commodity e câmbio.

Nem todos os alimentos respondem ao mercado mundial da mesma forma

Essa distinção é essencial.

Soja possui forte integração internacional.

Milho também, embora a dinâmica doméstica de ração animal e segunda safra seja muito relevante.

Café é profundamente influenciado pelas cotações globais.

Açúcar possui forte conexão externa e interação com o mercado de etanol.

Trigo possui importância da paridade de importação porque o Brasil complementa sua produção interna com compras externas.

Carne bovina responde à demanda externa, mas também ao ciclo pecuário, disponibilidade de animais, custo de reposição e pastagens.

Leite possui dinâmica muito mais regional, embora custos de ração, energia e fertilizantes transmitam choques externos.

Arroz possui produção predominantemente doméstica e concentração geográfica relevante.

Feijão é ainda mais ligado à oferta interna.

Tomate, batata e hortaliças respondem intensamente a clima, sazonalidade, transporte e perecibilidade.

Isso explica por que uma alta internacional de soja não significa automaticamente alta igual no tomate.

E por que uma enchente regional pode fazer determinado hortifrúti disparar sem qualquer alteração em Chicago.

O Brasil produz comida, mas importa parte do que permite produzi-la

A vulnerabilidade dos fertilizantes resume uma contradição estratégica.

O Ministério da Agricultura reconhece que mais de 80% dos fertilizantes utilizados no Brasil são importados.

Em 2025, a Rússia respondeu por aproximadamente 26% das importações brasileiras de fertilizantes, a China por 19%, o Canadá por 10% e o Marrocos por 8%.

A dependência é ainda mais concentrada em algumas categorias.

No potássio, a Rússia respondeu por cerca de 45% das importações brasileiras em 2025 e o Canadá por 38%.

Isso significa que uma das maiores potências agrícolas do planeta depende de fornecedores localizados a milhares de quilômetros para insumos fundamentais de sua produtividade.

É possível plantar soja brasileira em Mato Grosso utilizando fertilizante russo transportado por navio e adquirido em dólares.

A cadeia alimentar é global antes mesmo de a semente entrar no solo.

A Rússia mostrou por que fertilizante passou a ser geopolítica

A invasão da Ucrânia em 2022 revelou essa vulnerabilidade.

O medo inicial não era apenas de que trigo e óleo de girassol faltassem.

Era também de que fertilizantes russos e bielorrussos fossem interrompidos ou se tornassem muito mais caros.

O Brasil conseguiu manter importações e diversificar origens, mas a crise demonstrou algo estratégico:

segurança alimentar brasileira depende também de segurança de insumos.

E isso inclui:

potássio;

fósforo;

nitrogênio;

gás natural;

energia;

defensivos;

sementes;

máquinas;

peças;

e logística.

Um país pode possuir terra, água e tecnologia e ainda ser vulnerável se os insumos fundamentais estiverem excessivamente concentrados no exterior.

A China é provavelmente a variável externa mais importante

A transformação agrícola brasileira dos últimos vinte anos seria incompreensível sem a China.

Ela é o maior destino da soja brasileira e comprador fundamental de carnes, milho, açúcar, celulose e diversas outras commodities.

Isso produz uma conexão direta entre decisões e acontecimentos chineses e preços recebidos por produtores brasileiros.

Se a China aumenta importações de soja, a demanda internacional sobe.

Se reduz estoques, o efeito pode ser ainda maior.

Se recupera seu rebanho suíno, pode demandar mais farelo de soja e milho.

Se desacelera economicamente, a demanda por determinadas commodities pode enfraquecer.

Se substitui importações ou amplia produção doméstica, os fluxos mudam.

Se entra em conflito comercial com os Estados Unidos, pode redirecionar compras para o Brasil.

Portanto, a China representa simultaneamente uma oportunidade comercial gigantesca e uma fonte de dependência de demanda.

Isso não é necessariamente ruim.

É uma característica da integração econômica.

O risco surge quando exportações ou decisões de investimento se tornam excessivamente dependentes de um único comprador.

Clima: o risco que não pode ser administrado apenas com juros

Existe uma diferença fundamental entre inflação de demanda e inflação provocada por clima.

Quando uma seca destrói parte da safra de café, elevar a taxa de juros não produz chuva.

Quando uma enchente danifica arrozais, política monetária não reconstrói imediatamente a produção.

Quando ondas de calor afetam produtividade animal, não existe instrumento macroeconômico capaz de repor instantaneamente a oferta perdida.

O Banco Central pode reagir aos efeitos secundários da inflação.

Mas não controla o fenômeno físico inicial.

Esse ponto tende a adquirir importância crescente.

O IPCC identifica para a América Central e do Sul risco relevante de insegurança alimentar associado ao aumento da frequência e intensidade de secas, redução da produtividade de culturas-chave e interrupções das cadeias de abastecimento. O relatório destaca particularmente a vulnerabilidade de pequenos produtores e regiões com baixa capacidade de adaptação.

O problema não significa que toda agricultura brasileira entrará em declínio uniforme.

Mudanças climáticas produzem impactos heterogêneos.

Algumas regiões podem ganhar janelas produtivas.

Outras podem perder.

Tecnologia pode compensar parte das perdas.

Irrigação pode reduzir vulnerabilidade.

Novas cultivares podem tolerar melhor calor e seca.

Mas o risco de volatilidade aumenta.

E volatilidade possui valor econômico próprio.

Produtores precisam planejar safras.

Indústrias precisam contratar fornecimento.

Famílias precisam comprar alimentos continuamente.

A próxima década será uma disputa entre produtividade e risco

Do lado da produtividade, o Brasil possui vantagens extraordinárias.

Pesquisa da Embrapa.

Escala produtiva.

Agricultura tropical sofisticada.

Possibilidade de duas e, em algumas regiões, três safras.

Digitalização.

Sensoriamento remoto.

Máquinas autônomas.

Inteligência artificial aplicada ao manejo.

Melhoramento genético.

Bioinsumos.

Integração lavoura-pecuária-floresta.

Irrigação.

Previsão meteorológica de alta resolução.

Agricultura de precisão.

Todas essas tecnologias podem elevar produtividade e reduzir desperdícios.

Do outro lado estão os riscos.

Clima.

Degradação de solo.

Escassez hídrica regional.

Dependência de fertilizantes.

Volatilidade cambial.

Protecionismo.

Guerras.

Fretes.

Doenças animais e vegetais.

Concentração de mercados exportadores.

A direção futura dos preços dependerá da disputa entre essas duas forças.

A comida também depende de portos, ferrovias e estradas

A experiência da greve dos caminhoneiros em 2018 demonstrou que produzir não basta.

O Brasil desloca volumes gigantescos de grãos por milhares de quilômetros.

Soja produzida no Centro-Oeste precisa chegar:

a esmagadoras;

fábricas de ração;

portos;

mercados domésticos.

Carne depende de cadeias refrigeradas.

Leite precisa de coleta frequente.

Hortaliças não podem esperar semanas.

A expansão de terminais portuários, ferrovias e rotas do Arco Norte modificou significativamente a geografia logística brasileira.

Quanto menor o custo de movimentação, maior a competitividade do produtor.

Mas há um paradoxo.

Infraestrutura mais eficiente também aumenta a integração do produtor brasileiro ao mercado internacional.

Isso pode reduzir custos estruturais e, simultaneamente, tornar a arbitragem entre exportação e mercado doméstico ainda mais rápida.

A eficiência logística beneficia a economia.

Mas não cria uma parede entre preços domésticos e externos.

O mundo de outubro de 2026 não está em crise de 2022, mas também não está tranquilo

O índice mundial de preços dos alimentos da FAO alcançou 136,0 pontos em setembro de 2026.

Isso representava alta de 1,5% no mês e 5,8% em 12 meses.

Ainda assim, o indicador permanecia 15,1% abaixo do recorde registrado em março de 2022.

A composição do índice é reveladora.

Em setembro, cereais aumentaram 5,1% no mês e estavam 17,2% acima de um ano antes.

Óleos vegetais estavam cerca de 16% acima de setembro de 2025.

Por outro lado, laticínios apresentavam queda expressiva em 12 meses.

O mundo não está diante de um choque uniforme.

Diferentes cadeias estão se movendo em direções diferentes.

É precisamente esse tipo de ambiente que torna previsões simples particularmente perigosas.

Três futuros possíveis até 2030

Nenhum cenário deve ser tratado como previsão.

Mas é possível identificar combinações plausíveis de fatores.

Cenário benigno

A produtividade agrícola brasileira continua aumentando.

As próximas safras permanecem robustas.

A China cresce moderadamente sem produzir choque excepcional de demanda.

O dólar permanece relativamente estável.

Petróleo e gás não sofrem nova ruptura.

A oferta mundial de fertilizantes permanece normalizada.

Os conflitos no Mar Negro e no Oriente Médio não bloqueiam rotas comerciais relevantes.

Investimentos logísticos reduzem custos.

Eventos climáticos ocorrem, mas sem perdas simultâneas nas principais regiões produtoras.

Nesse ambiente, a tendência seria de inflação alimentar relativamente controlada, com oscilações localizadas em produtos sensíveis ao clima.

O crescimento da produtividade poderia permitir expansão simultânea das exportações e da oferta doméstica.

Cenário intermediário

Esse talvez seja o mais parecido com o comportamento normal de um sistema agrícola complexo.

Alguns anos têm safra recorde.

Outros apresentam seca regional.

Petróleo oscila.

O dólar passa por períodos de valorização e depreciação.

A China alterna ciclos de recomposição e redução de estoques.

Fertilizantes permanecem disponíveis, mas sujeitos a picos de preço.

Eventos climáticos tornam hortaliças, café e alguns grãos voláteis.

Nesse mundo, não haveria uma grande crise alimentar permanente.

Haveria sucessivas ondas.

Um ano, carne.

Outro, café.

Outro, arroz.

Outro, hortaliças.

A política econômica precisaria lidar menos com uma inflação alimentar contínua e mais com episódios recorrentes de volatilidade.

Cenário adverso

O risco surge quando vários choques acontecem simultaneamente.

Uma seca grave reduz produção na América do Sul.

Outra região produtora relevante enfrenta quebra de safra.

O petróleo dispara.

Uma escalada geopolítica interrompe exportações ou transporte marítimo.

Fertilizantes tornam-se escassos ou muito caros.

O real se deprecia fortemente.

Governos começam a restringir exportações para proteger mercados domésticos.

Compradores antecipam estoques.

Mercados futuros incorporam risco.

O mecanismo de 2008 reapareceria com elementos de 2022.

A experiência histórica mostra que os maiores choques alimentares raramente resultam de uma única variável.

São crises de correlação de choques.

É quando clima, energia, câmbio, logística e política comercial se deterioram simultaneamente que o sistema se torna perigoso.

O que um leitor de janeiro de 2009 não poderia saber

Retornemos agora à notícia que iniciou toda esta investigação.

Janeiro de 2009.

O leitor encontrava uma manchete simples:

“Cesta básica sobe até 30% em 2008, diz Dieese.”

Ele sabia que João Pessoa havia registrado alta de 29,31%.

Sabia que a cesta de Porto Alegre custava R$ 254,86.

Sabia que o salário mínimo oficial era de R$ 415.

E sabia que o DIEESE calculava um mínimo necessário de R$ 2.141,08.

O mundo acabara de atravessar uma enorme crise de alimentos.

O Lehman Brothers havia quebrado apenas quatro meses antes.

A economia mundial entrava em recessão.

O leitor poderia razoavelmente imaginar que o pior da inflação alimentar tivesse passado.

Ele não poderia saber o que aconteceria depois.

Não poderia saber que os alimentos internacionais voltariam a atingir máximos em 2011.

Não poderia saber que o Brasil atravessaria uma recessão profunda em 2015–2016 acompanhada de forte desvalorização cambial.

Não poderia antecipar a paralisação dos caminhoneiros em 2018.

Muito menos uma pandemia global.

Não poderia imaginar cidades vazias, fronteiras fechadas, restaurantes paralisados, contêineres presos e óleo de soja subindo mais de 100% em um único ano.

Não poderia prever que, em fevereiro de 2022, a Rússia invadiria a Ucrânia.

Nem que poucas semanas depois o índice de alimentos da FAO atingiria o maior nível de sua história.

Não poderia prever uma crise internacional de fertilizantes.

Não sabia que o Brasil se tornaria ainda mais dependente da China como comprador agrícola.

Não conhecia a escala que a soja, o milho e as carnes brasileiras alcançariam.

Não sabia que, em 2025, o agronegócio exportaria US$ 169,2 bilhões.

Nem que o país produziria aproximadamente 362 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/26.

Não sabia que a pesquisa da cesta básica chegaria às 27 capitais.

Não poderia imaginar que o salário mínimo nominal chegaria a R$ 1.621.

E provavelmente acharia quase inacreditável ouvir que uma cesta básica poderia custar R$ 900.

Mas talvez se surpreendesse ainda mais com outra informação:

apesar de tudo isso, a relação entre o salário mínimo necessário do DIEESE e o salário mínimo oficial teria diminuído de 5,16 para 4,67 vezes.

O Brasil de 2026 não é simplesmente o Brasil de 2008 com preços multiplicados.

É uma economia diferente.

Um sistema agrícola diferente.

Um mercado de trabalho diferente.

Um comércio exterior diferente.

E um mundo muito mais interligado.

Então, afinal, o brasileiro ficou mais pobre?

Não existe uma resposta única válida para todo o período, para toda a população e para todas as métricas.

Em relação ao salário mínimo e à cesta de referência utilizada neste estudo, existe evidência de melhora relativa entre as fotografias de 2008 e 2026.

O salário mínimo cresceu proporcionalmente mais do que a cesta mais cara nessa comparação específica.

A razão entre mínimo necessário e mínimo oficial diminuiu.

Isso é relevante.

Mas a conclusão não pode terminar aí.

Uma cesta ainda pode absorver mais de metade do salário mínimo líquido.

A insegurança alimentar continua presente em milhões de domicílios.

Moradia, energia e transportes também pressionam o orçamento.

Trabalhadores informais e desempregados não necessariamente acompanham a valorização do mínimo.

E médias escondem grandes diferenças regionais e sociais.

Portanto, o diagnóstico mais correto é:

houve melhora em algumas dimensões do poder de compra alimentar, mas essa melhora não eliminou a elevada vulnerabilidade das famílias de baixa renda ao preço da comida.

E a comida ficou mais cara?

Em termos nominais, muito.

Em termos reais, a resposta depende do produto, da cidade, da base de comparação e do índice utilizado.

Em termos relativos ao salário mínimo, a história é menos negativa do que uma comparação nominal sugere.

Em termos de percepção familiar, depende da renda, da composição do consumo e das demais despesas.

Esse é precisamente o problema de utilizar um único número para representar uma realidade multidimensional.

A verdadeira pergunta está em outro lugar

Depois de quatro partes, quase duas décadas, dezenas de países, duas grandes crises internacionais de alimentos, uma pandemia, uma guerra e centenas de milhões de toneladas de produção agrícola, chegamos a uma conclusão simples, mas não simplista.

O preço da comida é produzido por uma rede.

Nela estão:

a chuva que cai sobre uma lavoura;

a produtividade do solo;

a semente;

o fertilizante;

o preço do gás natural;

o petróleo;

o câmbio;

a taxa de juros;

o salário;

o caminhão;

o porto;

o navio;

a decisão de um governo de restringir exportações;

a demanda chinesa;

o clima no Rio Grande do Sul;

o trigo do Mar Negro;

o potássio russo;

o milho norte-americano;

a renda de uma família brasileira.

Nenhum desses elementos explica sozinho o preço da cesta.

Todos podem participar dele.

O Brasil chega a 2026 em posição contraditória e, ao mesmo tempo, extraordinariamente estratégica.

É uma das maiores potências agrícolas do planeta.

Produz volumes recordes.

Exporta para dezenas de mercados.

Desenvolveu uma das agriculturas tropicais tecnologicamente mais sofisticadas do mundo.

Mas continua importando mais de 80% dos fertilizantes que utiliza.

Continua vulnerável ao câmbio.

Continua exposto a petróleo, fretes e geopolítica.

Continua sujeito a secas e enchentes.

E continua sendo uma sociedade em que renda e acesso aos alimentos são distribuídos de forma muito desigual.

Talvez essa seja a maior lição que aquela pequena notícia de janeiro de 2009 permite enxergar dezoito anos depois.

Perguntar apenas “quanto custa a cesta básica?” é necessário, mas insuficiente.

A pergunta economicamente mais importante é outra:

quantas horas da vida de uma pessoa são necessárias para comprá-la?

Depois:

quanto da renda familiar sobra quando ela é paga?

E finalmente:

quão resistente é essa relação ao próximo choque de câmbio, clima, energia, guerra ou logística?

Em dezembro de 2008, uma cesta de R$ 254,86 parecia cara diante de um salário mínimo de R$ 415.

Em agosto de 2026, R$ 900,59 parecem quase pertencer a outra escala monetária.

Mas o que conecta essas duas fotografias não é o real.

É o trabalho.

É a renda.

É o acesso.

E é por isso que o verdadeiro indicador do preço da comida nunca estará apenas na etiqueta do supermercado.

Estará, sobretudo, na quantidade de vida econômica que uma família precisa entregar para conseguir colocá-la sobre a mesa.