Enganam-se os que pensam que é uma exclusividade brasileira criticar o governo pelo excesso de gastos. Tachado como mau gastador pelos adversários políticos e alguma parte dos economistas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode, agora, ganhar um alento que vem dos Estados Unidos.
Em recente artigo publicado no jornal "The Wall Street Journal", o principal conselheiro político do ex-presidente George W. Bush, Karl Rove, destila ataques ao que denomina o "mundo da fantasia fiscal" de Barack Obama. De acordo com Rove, os gastos discricionários da atual gestão cresceram 24% em relação ao último ano do governo Bush, estabelecendo a marca de US$ 536 bilhões. "É um aumento considerável até mesmo para um liberal arraigado como Obama", provoca Rove.
Isso porque os gastos descritos por Rove sequer consideram o pacote de estímulo econômico de US$ 787 bilhões, aprovado no apagar das luzes de Bush. Desse total, US$ 534 bilhões ainda não foram gastos e continuam formando um colchão de reservas estratégicas contra novos repiques da crise que assola o País desde meados de 2008.
Custeio cada vez maior
Por aqui, apesar de não chegar ao extremo do endividamento quase impagável, a situação é semelhante. Até novembro, o governo brasileiro gastou quase R$ 150 bilhões com o custeio da máquina pública. O valor significa 3,8% mais do que o que foi gasto em todo o ano de 2008 _e que havia sido 15,2% maior que o ano anterior.
Hoje, os gastos do governo estão no patamar de 20% do PIB (Produto Interno Bruto). "O Brasil é o único país que eu conheço onde o gasto do governo é maior que o investimento", critica Alexandre Schwartsmann, economista-chefe do Santander, lembrando que a participação dos investimentos no PIB é de 18%.
A situação, tal lá como cá, é que o crescimento dos gastos parece não ter fim. Cálculos da Fundação do Desenvolvimento Administrativo de São Paulo, a Fundap, estimam que o superávit primário para 2010 deve ficar em R$ 34 bilhões (em 2008 ele foi de R$ 71 bilhões). "Nessa tendência, em 2012 teremos um déficit de R$ 7,8 bilhões", calcula Geraldo Biasoto Jr., diretor-executivo da Fundap.
No que depender da vontade de Lula, o caminho parece ser, irremediavelmente, esse. No fim do ano passado, em encontro com jornalistas, o presidente defendeu o aumento dos gastos públicos, principalmente a correção salarial para o funcionalismo, e afirmou que não fará um ajuste nas contas promovendo arrocho. "Nós vamos continuar contratando médicos, professores", afirmou Lula, defendendo o endividamento da União e a medida que ampliou a margem de endividamento dos Estados para que participassem do esforço do governo federal para estimular a economia.
Falta de propostas
As semelhanças entre as situações fiscais do Brasil e dos Estados Unidos não param por aí. Apesar das recorrentes críticas aos gastos excessivos, pouco se vê propostas para que o problema tenha uma solução.
"Para equilibrar o orçamento, teríamos de abolir virtualmente cada programa nacional. Isso significa que cada centavo gasto em habitação, educação, agricultura, rodovias e muitas outras coisas que posso pensar, além da defesa nacional, teriam de acabar", diz Bruce Bartlett, pesquisador do Centro Nacional de Análise Política e ex-assessor dos governos de Ronald Reagan e George H. Bush.
Bartlett foi um dos mais contumazes críticos da política fiscal de George W. Bush, mas ainda assim não vê uma saída imediata. "É impossível obter o controle dos gastos sem cortar programas sociais. E qual a probabilidade de qualquer político, republicano, democrata ou brasileiro, fazer isso na hora de prestar contas ao eleitorado?".
Assim como nos Estados Unidos, aqui também não há propostas palpáveis para que esse gasto diminua. "Nenhum partido assume a defesa do governo cortar gastos. Não existe nenhuma Margaret Thatcher brasileira", afirma Schwartsmann.